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Júri condena Coquinho e Shrek por morte de sargento em Araraquara a mando do PCC

Foram mais de 13 horas de julgamento, em Araraquara; acusados pegaram 27 e 28 anos de prisão

| ACidadeON/Araraquara

Audiência foi no Fórum de Araraquara (Amanda Rocha)
"Estou a disposição de vocês para responder essa acusação equivocada". Assim, com a cabeça erguida e olhando na direção do juiz e do representante do Ministério Público, Antônio Domingos de Souza, o Coquinho, que também atenderia pelo apelido de Cabelo de Boneca de 39 anos, não se intimidou mesmo estando há seis anos cumprindo pena em presídios federais, no momento, em Campo Grande, onde fica 22 horas dentro da cela e apenas duas horas no pátio. Assim, ele iniciou seu depoimento ainda no meio da manhã desta terça-feira.

Mal sabia ele, que depois de 13 horas de um extenso julgamento com réplicas e tréplicas, consultas nos 29 volumes dos autos e suas seis mil páginas, o Tribunal do Júri do Fórum de Araraquara determinaria pela sua condenação. Coquinho e Alexandre Dias, o Shrek, foram condenados por organizarem e auxiliarem os executores materiais no assassinado do sargento da Polícia Militar, Adriano Simões da Silva, na época com 36 anos, executado com 18 tiros, no dia 15 de setembro de 2012, no Parque São Paulo, em Araraquara.  

Policiais analisam o local onde o sargento Simões foi executado, no Parque São Paulo
O júri formado por cinco mulheres e dois homens determinou pela culpabilidade. Alexandre Dias, o Shrek, foi condenado a 21 anos e quatro meses pelo homicídio qualificado, cinco anos e três meses pela formação de quadrilha, e dois anos e quatro meses pela guarda e ocultação de arma, um total de 28 anos e 11 meses de reclusão. Já Antônio Domingos de Souza, o Coquinho, não teve contra si a acusação de formação de quadrilha, pois já tem outra condenação por ser do PCC. Ele pegou 24 anos de prisão pelo homicídio e três anos pela guarda e ocultação da arma roubada do sargento, ou seja, um total de 27 anos de cadeia.

Apesar de parecerem altas, as penas aplicadas pelo juiz Humberto Isaias Gonçalves Rios foram consideradas brandas por várias pessoas que acompanharam o debate. Acusação e defesas irão recorrer. Com a condenação dos dois, já foram julgados sete dos dez acusados. Quatro foram condenados pela participação no caso e outros crimes conexos, como a guarda de armamento e organização criminosa. A maioria das penas, até então, ultrapassavam os 40 anos. Um dos atiradores pegou 50 anos de condenação.

O Júri

No Júri de hoje, as duas testemunhas de acusação, um investigador de polícia e um oficial da PM, foram categóricos ao acusar os dois pelo envolvimento na morte do sargento. Shrek foi o primeiro a falar. Com um tom tão baixo que mal era ouvido pelo juiz a sua frente, afirmou ter sido confundido com outra pessoa, talvez, motivado pela extensa ficha criminal com cinco condenações por crimes como envolvimento com drogas, furto, roubo e posse de arma. Negou ser do PCC e de manter o apelido em alusão a animação computadorizada do ogro verde.

Em depoimento, negou ter qualquer contato com Coquinho, apesar do telefone dele aparecer na agenda do seu telefone celular, quando foi preso ainda em 2012. Para ele, outra falha da investigação. "Nós nos conhecemos no presídio federal", afirma. Essa também foi a versão dada por Coquinho, que, segundo o promotor Herivelto de Almeida, era quem mantinha o grau mais alto de hierarquia na organização criminosa de todos os denunciados. Coquinho, que também teria o apelido de Cabelo de Boneca, morava em Araraquara há mais de 20 anos, quando deixou o Maranhão para tentar a vida por aqui.

Veio para trabalhar na roça, mas nunca teve uma carteira de trabalho. A Promotoria defende que seu ramo de produção nunca foi a enxada. Pelo contrário, foi a propagação da organização criminosa na região. Por algum momento, o imigrante que completou o Ensino Médio na prisão, chegou a ser classificado como líder estadual. Coquinho, é claro, negou os apelidos e qualquer relação com os demais réus. "As denúncias são absurdas", afirmou o acusado, lembrando que não é bandido e foi preso por portar uma Carteira Nacional de Habilitação (CNH) falsa. O MP justifica que essa era uma prática adotada para evitar a prisão.
 
Sargento Adriano Simões da Silva foi morto com 18 tiros em setembro de 2012
Debates

Em sua apresentação, o promotor Herivelto de Almeida fez uma longa explanação sobre a atuação do PCC no Estado. Citou, inclusive, um texto da reportagem feito em 2006, quando foram presos os autores de outro ataque, na época, contra um agente penitenciário em Araraquara. Mostrou, ainda, uma série de áudios de conversas obtidas durante a investigação policial. Nas interceptações telefônicas, alguns réus que já foram e serão julgados neste processo citam Sherek e Cabelo, o Coquinho, que, apesar de não ter função especificada, segundo o MP, seria um membro de destaque da organização.

Apesar de Coquinho negar o apelido, a Promotoria mostrou um relatório do Sistema Penitenciário Federal revelando que o acusado, apesar de refutar o apelido, quando está no pátio da prisão atende quando chamado de Coquinho e Cabelo. Ele nega. "Vivo jogado lá. Essa acusação é um absurdo. Não tenho motivo para tirar a vida de ninguém". Ao longo do dia, acusação buscou relacionar os réus com os crimes e a defesa buscava exatamente o contrário. Coquinho, por exemplo, negou ser do PCC, mas já tem condenação por isso.

A Promotoria mostrou que, apesar de negarem se conhecerem, constava nos telefones deles, ligações feitas, antes e no dia em que o sargento Simões foi assassinado. A denúncia apontou que o plano para matar o sargento Simões e dezenas de outros policiais militares começou depois que membros da organização criminosa se envolveram em confrontos com a Ronda Ostensiva Tobias Aguiar (Rota), em Várzea Paulista, e acabaram mortos. Um "Salve Geral", como são chamados os comunicados do PCC, foi passado para que cada criminoso respondesse à ação policial. Para cada bandido morto deveriam morrer dois pms.

O autodenominado "Salve Geral" foi recepcionado pelos integrantes da facção criminosa em Ribeirão Preto. Segundo o Ministério Público, inúmeras conversas telefônicas entre membros da quadrilha na região em que está inserida Araraquara e São Carlos, mostram que os acusados determinaram a liberação para alugar casa (assassinar policiais e agentes públicos), e outras referências ligadas ao tema. Coube, segundo a Promotoria, a Coquinho, ir até Ribeirão Preto acertar os detalhes para dar o start nas execuções.  

Viaturas da PM deixam o Fórum de Araraquara depois de horas de julgamento (Claudio Dias/ACidadeON)

Depois disso, com a pressão na área 16 (em alusão ao DDD da telefonia) para agir e cumprir as ordens do Salve, um pm foi morto em São Carlos. Em seguida, o sargento de Araraquara foi executado. Para o promotor, Coquinho repassou as ordens que foram obedecidas em cadeia pelos ponteiros da organização na cidade. Advogados dos réus refutaram a acusação. "A denúncia está narrando o PCC e quem eram os ponteiros da região sem apresentar nenhuma prova. Estão colocando nos bancos dos réus dois pais de família. Eles não são Santos, mas não colaboraram dando a ordem para esse assassinato", dizia a defesa.
  
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Enquanto a Promotoria batia na tecla das ligações telefônicas (eles se falaram 18 vezes em dois dias e, quando o sargento foi morto, estavam na mesma região da cidade, segundo a consulta nas torres de comunicação celular), além de citar os antecedentes e as versões conflitantes apresentadas desde a fase de interrogatórios (pois os réus negaram ter assinado o depoimento na fase policial), os advogados afirmavam ser uma sequencia de exageros.
 
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O fato é que alguns momentos marcaram o dia, entre eles, a fortíssima imagem captada pela perícia com o sargento Simões caído com 18 tiros. Segundo o Instituto Médico Legal (IML), 10 balas o acertaram nas costas, sem dar a ele chances de defesa. Um dos criminosos ainda roubou a pistola do sargento, que pertencia a Polícia Militar e, com ela, atirou pelo menos mais quatro vezes contra Simões. O militar era casado e pai de duas crianças: uma de 7 anos e outra com apenas 8 meses, na época. A arma dele, levada como souvenir, nunca foi achada.
 


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