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Mãe, filha e tio voltam na casa para contar como executaram PM dormindo

Reconstituição envolve os três acusados com acompanhamento da polícia, perícia e Promotoria

| ACidadeON/Araraquara


 
Atualizada às 17h46

A cronologia do crime envolvendo a morte do cabo da Polícia Militar, Elias Matias Ribeiro, de 49 anos, voltou a ser construída nesta sexta-feira pela Polícia Civil de Araraquara e Instituto de Criminalística em uma ação sigilosa até para evitar movimentação no bairro onde a família executou o militar de folga, o Jardim Victório De Santi. Mãe, filha, e tio, voltaram a se encontrar depois do assassinato, desta vez, para exemplificar como agiram. Após confirmação da identidade por meio do exame de DNA, em São Paulo, o velório do Cabo Matias será neste sábado, às 7h30, na Funerária Sinsef. O enterro será às 10h30 no Cemitério São Bento.  


 
A mãe, Jaciane Maria, de 40 anos, e a filha dela mais velha, Larissa Marques, de 22 anos, chegaram juntas. Em outra viatura estava tio delas, o pedreiro Genivaldo Silva, 54. É a primeira vez que eles retornam a cena do crime. Como confessaram o assassinato, a polícia vai reconstruir a história com detalhes a partir da visão do trio. A ideia é fazer o caminho real, da casa até o local onde levaram o carro e atearam fogo. O ACidadeON acompanha o caso. A repórter Gabriela Martins, do ACidadeON, também auxilia a Polícia Civil, a pedido do delegado Edimar Piccolo, como uma das personagens durante a reconstituição. 
 
Jaciane foi a primeira a participar. Ela deu alguns detalhes sobre o caso e informou ter comprado luvas plásticas para o cometimento do assassinato. Também admitiu que manteve relações sexuais com Matias antes que ele dormisse. Pensou, inclusive, em dopá-lo com algum calmante, mas não foi preciso. A mãe nega que a filha participou efetivamente do crime. Só pediu que ela buscasse o tio com a desculpa de dar um susto no namorado infiel. Para Jaciane, Larissa só ajudou a carregar o corpo.   

Ela confessou ter dirigido o carro e participado no incêndio ao veículo. Admitiu, ainda, ter lavado as paredes e usado um pouco de tinta - que estava em um pote de sorvete - para pintar as paredes e ocultar as manchas de sangue deixadas durante o assassinato. Durante a reconstituição um outro fato chamou a atenção da polícia. É que Jaciane tem um terceiro filho, um menino de 12 anos, que mora com ela e estava no dormindo no quarto ao lado de toda essa violência. O adolescente não acordou apesar de toda a movimentação. Para a avó do garoto, a mãe de Jaciane, ela pediu que ela ajudasse o garoto a partir de agora.
 

Em seguida, Genivaldo foi chamado pelos policiais civis. Ele disse que a sobrinha o buscou em casa, parou o carro no final da rua e abriu a residência da mãe para que ele entrasse. Os dois encontraram Jaciane na cozinha e esperaram ela entrar no quarto e pegar a arma do pm. Segundo a versão do tio, Jaciane teria dito: "bate para matar; bate com força." Ele a obedeceu dando inicialmente três marretadas. Ainda, de acordo com Genivaldo, o Cabo Matias não morreu imediatamente, por isso, Jaciane teria mandado ele voltar e dar mais dois golpes. Morto, o pm foi embrulhado na roupa de cama e levado para o carro. Eles ainda voltaram para transportar o colchão ensanguentado. O trio pegou um recipiente plástico com alcool para atear fogo. Com o policial morto no banco traseiro do carro dele, a Tucson, Jaciane dirigiu sozinha. A filha dela, Larissa, acompanhou com o carro dela, e com o tio no banco do passageiro, que levava em uma sacola o alcool e os fósforos.
 
 
Já Larissa, a última a participar da reconstituição, disse ter ido buscar o tio a pedido da mãe com a proposta de dar um susto no policial. Ela contou que o tio já veio com a marreta. Também afirmou ter aberto o portão, mas negou ter entrado no quarto durante o assassinato. Aos policiais, negou saber que a ideia era matar o Cabo Matias. Na versão descrita durante a reconstituição, Larissa lembrou que ouviu o barulho e, ai sim, entrou na casa. Ao descobrir sobre o crime, se apavorou, foi no fundo da residência e tomou um refrigerante. O tio, logo após matar o pm, também parou ao seu lado. Ele, por sua vez, bebeu uma cerveja e uma bebida destilada. A lata foi achada pela polícia no lixo. Larissa também confessou ter ajudado a carregar o corpo. 

  
No canavial  

No Canavial, segundo os depoimentos, a família parou o carro do policial (com o corpo no banco traseiro) e a Ecosport, da filha mais velha, ao lado. Larissa parou às margens da pista com o seu carro. A mãe dela, Jaciane, dirigindo a Tucson do PM, entrou no meio da terra para se desfazer do veículo. Genivaldo diz que foi Jaciane quem esparramou o alcool. Ela, por sua vez, o culpa. Genivaldo assumiu que ele acendeu o fósforo e deu início ao incêndio.   

De lá, eles saíram correndo e voltaram para deixar o tio na sua casa. Foi o tio quem cedeu a tinta - que tinha ganhado para pintar a sua casa - para Jaciane camuflar a cena do crime. Juntas, mãe e filha ainda passaram na casa da Larissa para pegar um pincel antes de voltarem ao endereço no Victório De Santi. Larissa disse ter ficado no sofá enquanto a mãe escondia as manchas de sangue. As duas se separaram e só voltaram a se encontrar quando a polícia as procurou. 

Entenda

O cabo da PM, Elias Matias Ribeiro, foi morto na noite da última segunda-feira (3). O delegado Fernando Bravo, da DIG, diz que ele foi atraído por Jaciane Maria até a casa dela, no Jardim Victorio de Santi. Quando ele dormiu, Jaciane, sua filha mais velha, Larissa, e seu tio, Genivaldo, entraram no quarto e deram várias marretadas na cabeça de Matias. Depois levaram o corpo no carro do próprio policial para um canavial, onde atearam fogo. "Eles disseram que demoraram quase uma hora para conseguir carregar o corpo", conta o delegado.

Dentro do veículo, uma Tucson, estava um colete a prova de balas, algemas e uma arma carregada. Genivaldo e Jaciane levaram o carro e atearam fogo com o corpo do PM dentro e o colchão ensanguentado. Ontem (terça-feira), ainda na delegacia, policiais civis chamaram algumas mulheres que mantiveram relacionamento recente com Matias. Só Jaciane não foi receptiva inicialmente com a investigação apesar de ter atendido ao telefone aos prantos.

Por coincidência, policiais civis a conheciam porque ela trabalhava no posto em que as viaturas abastecem. Eles foram, então, até o endereço da filha mais velha, a Larissa. E um detalhe chamou a atenção: ela dirigia uma Ecosport, cujo pneu era idêntico a marca identificada e colhida pela perícia no ponto onde o carro do militar fora queimado com o corpo dentro. A pedido dos investigadores, Larissa ligou e a mãe apareceu pela DIG. Mas, Jaciane não quis deixar os policiais irem até a sua casa. Pressionada, colaborou.

A filha dela mais velha, a Larissa, cúmplice no crime, ficou na DIG e também passou a conversar com os investigadores enquanto a mãe seguia com o delegado até o Victório De Santi. Já no caminho ao local do crime, Jaciane se confundiu com as informações e admitiu ter envolvimento com o homicídio culpando o tio. A ideia dela era livrar a filha. O que não deu certo, pois a jovem também confessou o crime quase simultaneamente. Pela casa, Jaciane negou que o crime fora cometido ali, apesar da ausência do colchão da cama.

"Eles pintaram o quarto provavelmente porque o sangue deixou marcas na parede", conta o delegado. Mas, como o 'crime não é perfeito' sobraram alguns pingos na cabeceira denunciando o esquema criminoso. Desmascarada, Jaciane abriu o jogo e contou sobre ter atraído o Cabo Matias para sua casa com a intenção de matá-lo com a ajuda da filha e do tio justamente porque ficou revoltada com a traição. A arma do crime, uma marreta, foi achada ainda ontem na casa de Genivaldo.

Para Fernando Bravo, da DIG, não existem dúvidas de que o crime teve motivação passional e que eles premeditaram o assassinato com a real intenção de matar o Cabo Matias enquanto dormia. Nesta quarta-feira, logo depois de ser preso, o tio confessou e afirmou ter sido chamado pela sobrinha para cometer o assassinato. Afirmou também estar arrependido de ter executado um desconhecido a sangue frio. Jaciane e Larissa estão presas temporariamente na cadeia de Santa Ernestina. O tio delas, Genivaldo, está no Anexo de Detenção Provisória (ADP).  

 
Estopim

Na quarta-feira (5), a jovem, indicada pela família como o estopim para a revolta, prestou depoimento como testemunha. Giovanna Marques tem 20 anos. Em entrevista ao ACidadeON, ela reconheceu ter mantido relações sexuais, mas nunca imaginou que sua família o mataria. Ela também fez um desabafo em sua rede social contra uma série de ameaças que passou a receber pela internet. Depois, apagou a postagem. Um vídeo dela com o policial motivou a revolta. À DIG, a mãe, Jaciane Maria, contou ter visto as imagens e quis vingança.

Os vídeos aparecem na investigação. À reportagem, Giovanna admitiu ter se relacionado com Matias de forma consensual. E fora justamente esse vídeo íntimo entre Matias e Giovanna que caiu nas mãos da mãe da jovem, Jaciane Maria. Com raiva, ela e a filha mais velha, Larissa Marques, planejaram matar o policial. Para isso, contaram com a ajuda do tio delas, o pedreiro Genivaldo Silva. Ele admitiu o crime, disse que sequer o conhecia, mas reconheceu ter sido um erro. Foi ele quem golpeou com uma marreta o policial dormindo.
 
Garota admite caso com PM, lamenta morte e diz que mãe e irmã devem pagar
 
"Não tinha noção que minha mãe faria isso, jamais passou pela minha cabeça", diz Giovanna à reportagem. Ela conta que saiu três vezes com Cabo Matias e, em uma destas vezes, teve um vídeo. "Eu sabia da gravação". "Nunca sai com ele por dinheiro, saímos por amizade, comíamos um lanche e conversávamos. Ele era meu amigo. Não sabia que o relacionamento da minha mãe com ele era sério; ele tinha várias mulheres", diz Giovanna.

A jovem, que afirma estar consternada com a situação, chegou a fazer uma postagem em sua rede social lamentando o ocorrido com Matias, antes de saber que as autoras do homicídio eram sua mãe e sua irmã. A postagem também foi apagada. "Eu lamento tudo que aconteceu. Sinto muito por sair com uma pessoa que ela gostava, mas agora, acho que elas devem pagar, elas mataram um homem, um policial."
 
 
História

Cabo Matias é nascido em Araraquara, mas fez carreira fora daqui. Voltou recentemente para ser motorista do tenente-coronel Adalberto José Ferreira, quando assumiu o comando do Batalhão da PM. Nos últimos anos, o Cabo, que atualmente estava na infantaria, dedicou a sua vida ao Corpo de Bombeiros em São Carlos.

Iniciou a carreira em 1990, quando ingressou na Policia Militar no Núcleo de Formação de Soldados de Pirituba. Em 2000, foi transferido para o Posto de Bombeiros de São Carlos. Ao longo de sua carreira foi agraciado com a Láurea de Mérito Pessoal em 5º Grau e Láurea de Mérito Pessoal em 4º Grau. Recebeu por algumas vezes o título de Policial do Mês e diversos elogios individuais pelos serviços prestados à Instituição e a comunidade.

Em 2010, foi escolhido como "Bombeiro do Ano". Filho de Francisco Ribeiro e Abigail de Oliveira Ribeiro, era também pai. Como auxiliar administrativo, destacou-se pela forma competente com que assessorou o Comando dos Bombeiros de São Carlos facilitando as reformas e ampliações dos quartéis. Em 2011, representou os bombeiros de São Carlos nos XIV Jogos Mundiais de Policiais e Bombeiros, em Nova Iorque, nos Estados Unidos.  
 


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