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Saiba tudo envolvendo o escândalo nacional sobre a prisão do hacker de Araraquara

ACidadeON faz um resgate cronológico de tudo que aconteceu até o momento; acompanhe

| ACidadeON/Araraquara

Como o ACidadeON/Araraquara vem mostrando nesta cobertura especial sobre o que aponta ser o maior escândalo relacionado a fraude eletrônica envolvendo as principais autoridades do País, a lista de contatos obtidos ilegalmente por meio de agendas telefônicas subtraídas clandestinamente permitiu a Walter Delgatti Neto, o 'Vermelho', apontado pela Polícia Federal (PF) como a cabeça pensante em toda a organização criminosa presa na Operação Spoofing [com três amigos dele, todos de Araraquara] [veja mais aqui], invadir aparelhos celulares de vários juristas e políticos, esportistas e artistas.

Para quem está chegando agora, talvez, seja preciso fazer um resgate histórico do que aconteceu até o momento depois da publicação exclusiva do ACidadeON/Araraquara mostrando a prisão do suspeitos pelas invasões. Ainda falta, o ministro da Justiça Sérgio Moro explicar sobre a veracidade das publicações com seu nome, além de uma série de outras dúvidas. Siga abaixo:  

Walter Delgatti, o Vermelho
A invasão

Era início de junho deste ano, quando Sérgio Moro atendeu a uma ligação de um número igual ao dele tocando no seu celular. Isso permitiu o acesso ilegal ao aplicativo Telegram, que ele não usava mais. Diante da possibilidade de clonagem do número, a linha foi abandonada. Mas, o que aparentemente ninguém sabia é que com o número de Moro, os hackers teriam tido acesso a conta do ministro no Telegram.

Paralelo a isso, pouco depois, o site The Intercept Brasil recebeu um pacote de mensagens atribuídas justamente ao ministro que foi o responsável por várias condenações judiciais quando ainda era juiz federal durante a Operação Lava-Jato. Desde 9 de junho, o site passou a divulgar as conversas privadas no Telegram apontando uma colaboração entre o então juiz e o procurador responsável pela Força Tarefa, Deltan Dallagnol, ainda em Curitiba.  

Moro teve o celular invadido ao atender o telefone com seu número (Foto: André Coelho / Folhapress)
Diálogos mantidos no auge das investigações da Lava Jato teriam colocando em xeque a imparcialidade de Moro, que apareceria aconselhando a acusação, segundo a denúncia proposta pela reportagem da época. Moro e Dallagnol nunca confirmaram a autenticidade das mensagens que também passaram a ser expostas e trabalhadas por outros veículos de comunicação. Em razão delas, Moro chegou até a falar sobre o assunto no Congresso Nacional.

A apuração

Ainda no mês passado, a Polícia Federal (PF), por meio da Diretoria de Inteligência Policial (DIP), de Brasília, passou a apurar o possível ataque ao telefone de Moro. Até porque veio a informação de que a força tarefa da Lava Jato também vinha sofrendo ataques cibernéticos de um hacker desde o mês de abril deste ano. A investigação preliminar da PF divulgada anteriormente pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, apontava que o smartphone do ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot, teria sido o primeiro a ser invadido.  

Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato, também foi alvo do hacker (Foto: Jorge Araújo / Folhapress)
Foi através deste aparelho que, segundo dizia a reportagem, o suposto hacker teria tido acesso às conversas do ministro Sérgio Moro e seus diálogos com o atual procurador, Deltan Dallagnol. Quatro inquéritos foram abertos para apurar o caso. Um deles teve esse desfecho inicial proposto ontem durante a Operação Spoofing [que é um tipo de falsificação tecnológica que procura enganar uma rede ou uma pessoa fazendo-a acreditar que a fonte de uma informação é confiável quando, na realidade, não é].

O pedido de prisão

O pedido de onze ordens judiciais, sendo sete mandados de busca e apreensão e quatro mandados de prisão temporária de cinco dias em Araraquara, Ribeirão Preto e São Paulo, foram expedidos pelo juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Criminal do Distrito Federal. No documento que o ACidadeON/Araraquara teve acesso primeiro constava apenas os endereços a serem vistoriados "com a finalidade de se obter de forma seletiva todos os elementos de provas relacionadas a invasão de contas do aplicativo Telegram utilizadas pelo atual ministro da justiça e segurança pública."

Em Araraquara, a ordem de busca foi cumprida pelo delegado Luiz Flávio Zampronha [responsável pela investigação em nível nacional]. No documento existia a informação que, além de Moro, telefones de outras autoridades teriam sido invadidos, entre eles, o desembargador Federal Abel Gomes, do Tribunal Regional da Federal (TRF) da 2ª região; o juiz federal Flávio Lucas, da 18ª Vara Federal do Rio de Janeiro, e os delegados federais Rafael Fernandes, de São Paulo, e Flávio Reis, de Campinas.

Quem são os suspeitos presos?

Walter Delgatti Neto, de 30 anos:
Mais conhecido como Vermelho, Delgatti foi preso em 2015 por falsidade ideológica e em 2017 por tráfico de drogas e falsificação de documentos. É um antigo conhecido da polícia da região. No Twitter, pouco antes de vazarem as mensagens envolvendo Sérgio Moro, reativou a conta e passou a se posicionar contra o ex-juiz federal e o atual governo de Jair Bolsonaro. Ele já confessou ter sido o responsável pelas invasões aos celulares.  

Walter Delgatti
Gustavo Henrique Elias Santos, de 28 anos:
Já foi DJ e também esteve preso por receptação e falsificação de documentos. Foi condenado em 2015 a cumprir seis anos e seis meses de reclusão em regime semiaberto. A família dele mora no bairro Selmi Dei, em Araraquara. No dia da prisão, ele foi detido com a mulher em um apartamento em São Paulo. Com eles, havia quase R$ 100 mi que a defesa alega serem de negociações financeiras com criptomoedas.

Suelen Priscila de Oliveira, 25:
Mulher de Gustavo, Suelen não tinha passagem pela polícia. Ela foi presa em São Paulo junto com o marido. A defesa informou não acreditar no envolvimento dela nos crimes. Ela e Gustavo já foram testemunhas em um caso em que Delgatti foi preso tentando entrar em um parque em Santa Catarina se passando por policial civil.

Danilo Cristiano Marques
É amigo há quase 20 anos de Delgatti e foi testemunha dele em dois processo criminais, um dele tráfico e outro de estelionato. Morava no Jardim Paineiras, em Araraquara. Ele não teria condenação judicial. Também foi quem alugou o apartamento em que Delgatti estava morando em Ribeirão Preto. Ele nega envolvimento nos crimes.  

Walter Delgatti, o Vermelho, e os três amigos presos na operação
Onde foram os agentes?

Os agentes federais de Brasília [que é importante destacar vieram para a cidade sem que os policiais daqui tivessem conhecimento] foram em dois endereços em Araraquara ligados aos quatro suspeitos identificados na investigação. Um deles é uma casa na Vila Xavier. Lá, mora a avó Walter Delgati Neto. Em ação paralela, os agentes também cumpriram um mandado de busca e apreensão em uma casa no Jardim Roberto Selmi Dei, último endereço local do casal de Gustavo e Suelen. Também teve um mandado no Jardim Paineiras, onde estava Danilo.  

Walter Delgatti Neto foi preso em Ribeirão Preto, na terça (23) (Foto: Reprodução/EPTV)
Famílias dizem estarem surpresas

A prisão de Gustavo surpreendeu sua família, que diz acreditar em um erro da investigação. "Estou chocada, estou tremendo, tenho certeza que meu filho não está envolvido nisso, não. Eu acho que foi um erro tamanho", disse à Folha de S.Paulo na noite desta terça (23) a mãe do ex-DJ, Marta Elias Santos. "Eu desconheço [o suposto envolvimento], não passa na minha cabeça uma coisa dessa." A avó de Delgatti, Odília, também se surpreendeu com a movimentação em torno do caso, apesar dela já ter visto o neto ser preso outras vezes.  

Casa da avó de Walter Delgatti, o Vermelho, em Araraquara (EPTV/Reprodução)
Saiba quais são as prisões e condenações anteriores dos suspeitos

2013: Gustavo preso por receptação
Gustavo Henrique Elias Santos tinha sido preso em 8 de maio de 2013 por ter receptado uma caminhonete Hillux avaliada em R$ 91 mil. As placas e o documento do veículo foram alterados para que ele pudesse circular. Na ocasião, foram apreendidas na casa dele munições de dois calibres, além de simulacros de armas reais. A defesa entrou com recurso ele foi liberado. Em agosto de 2015, foi condenado a cumprir seis anos e seis meses de reclusão em regime semiaberto, mas a defesa recorreu em instância superior e Santos permaneceu solto.

2015: Delgatti e Gustavo detidos em parque
No mesmo ano da condenação de Gustavo [que estava em liberdade], ele e o amigo Walter Delgatti Neto foram detidos no mês de maio em um parque temático em Santa Catarina. Na ocasião, Gustavo foi ouvido como testemunha e liberado. A mulher dele, Suelen estava junto. No entanto, Delgatti Neto foi preso por falsidade ideológica por ter apresentado uma carteira vermelha com as inscrições da Polícia Civil. Dentro do carro dele havia uma arma e munições.

2015: Delgatti condenado por uso de cartão
Em agosto de 2015, Delgatti foi condenado a um ano de prisão em regime aberto por ter pagado a conta de um hotel em Piracicaba, no valor de R$ 740, com o cartão de crédito de um senhor de 75 anos. O crime foi cometido 7 de julho de 2012.

2017: Delgatti preso por tráfico e falsificação
Em 15 de abril de 2017, Delgatti foi preso novamente, desta vez por tráfico de drogas e falsificação de documentos no apartamento em que morava em Araraquara. Com ele foram apreendidos comprimidos de um medicamento com venda proibida, além de uma carteirinha de estudante de medicina da USP com a foto dele e dados pessoais de outra pessoa. Em janeiro do ano passado, a Justiça o absolveu do tráfico e o condenou a dois anos pela falsificação. Mas, em junho do ano passado, a Promotoria e a defesa recorreram e o Tribunal de Justiça entendeu que por ele ter um perfil reincidente o condenou também pelo tráfico de drogas. A defesa já recorreu da medida em instâncias superiores.

2018: Delgatti condenado por estelionado
Em 21 de fevereiro do ano passado, Delgatti também foi julgado por envolvimento em um estelionato cometido em março de 2015. Na época, ele teve acesso a um cartão bancário furtado de um escritório de advocacia. Com o cartão, Delgatti fez uma série de compras, incluindo poltrona, cabeceira de cama e roupa de cama. Um prejuízo de quase R$ 1.7 mil. Ele foi condenado a um ano e dois meses de prisão em regime semiaberto.

Na internet, Delgatti era ativo

Em seu Twitter, que usou até segunda-feira, Walter Delgati Neto, dizia que o "Brasil não é para principiantes" e aproveitava para ironizar o atual presidente da república, Jair Bolsonaro (PSL) e repostar conteúdos relacionados ao vazamento do Telegram de Moro. Ele criou a conta em 2010, mas voltou a comentar em 27 de maio, depois de abandonar o Twitter em agosto de 2011. Passou a repostar conteúdos contra Bolsonaro e também vivia discordando do chefe dos procuradores ligados a Operação Lava-Jato, Deltan Dallagnol. Em um compartilhamento de 18 de julho, ele replica a imagem de Sérgio Moro com a frase "Delação Manipulada".

São dezenas de postagens dos mais variados colunistas e meios de comunicação que ele passou a divulgar desde então. Uma delas, no dia 6 de julho, mostra os bonecos de Moro e Dallagnol falando sobre um hacker ter invadido as contas do Telegram. [veja aqui] 

No Twitter, 'Vermelho' deu uma dica sobre as mensagens vazadas; uma pista que pode ter levado a polícia até ele (Reprodução)
Em junho, no Twitter, Walter Delgatti Neto deu uma dica de como confirmar a autenticidade das mensagens roubadas do celular de Deltan Dallagnol. "Mesmo apagando tudo, os caches ficam no celular, eles são arquivos fragmentados, sem o conteúdo das mensagens, mas com todas saídas e entradas de mensagens." O comentário pode ter chamado a atenção da PF. 
Vermelho tinha filiação partidária

Delgatti tem uma série de condenações judiciais e processos tramitando na Justiça, mas, antes de entrar para os atos ilícitos, já se mostrava ligado à política. Em 22 de junho de 2007, se filiou ao DEM em Araraquara. Mesmo distante, ele seguia ativo [ao menos no papel].

Quando o ACidadeON/Araraquara mostrou o caso, o presidente do DEM de Araraquara desde 2018, Leandro Azem Cortez confirmou que Delgatti era filiado de um modelo antigo do partido na cidade, mas não integra o grupo do Novo DEM que vem sendo reestruturado por técnicos em gestão pública, empresários e comerciantes da cidade.

Dias depois, o presidente nacional do Democratas e prefeito de Salvador, Antonio Carlos Magalhães Neto, determinou a sua expulsão da sigla por descumprir os "deveres éticos previstos estatutariamente" pelo Democratas.

Memes na internet

Após a PF deflagrar a Operação Spoofing o assunto virou um dos mais comentados no Twitter. Depois, no WhatsApp. Araraquara chegou a ficar em primeiro lugar nos Trending Topics nacional da rede social quando o assunto foi descoberto pelo ACidadeON. Até mesmo montagens foram feitas pelos internautas (veja tweets acima). Depois, quem diria, a PF confirmaria que o hacker era mesmo da Morada do Sol.  


Sigilo do processo

A Justiça Federal retirou o sigilo do processo um dia depois da prisão, no dia 24 de junho, e mostrou que os ataques teriam partido de três IPs: dentro de um apartamento no primeiro andar na Avenida Leão XIII, n° 1700, na Ribeirânia, em Ribeirão Preto; em outro apartamento, mas na Rua Enga Amália Pérola Casab, n° 415, no Parque Munhoz, em São Paulo e também em uma casa na Rua Maria do Carmo Granato, no Jardim Roberto Selmi Dei, em Araraquara.

Esses três locais, além dos endereços dos suspeitos, foram os alvos dos mandados de busca e apreensão e prisão expedidos pela Justiça Federal nesta terça-feira, dia 23. Na decisão judicial foi liberada ainda a quebra do sigilo das contas de e-mail utilizadas pelos investigados, o afastamento do sigilo bancário de 1º de janeiro até 17 de julho deste ano, bem como o bloqueio de ativos financeiros em valores acima de RS 10 mil.

De acordo com a denúncia, a PF concluiu que o invasor teve acesso ao código enviado pelos servidores do aplicativo Telegram para a sincronização do serviço Telegram Web relativo às contas invadidas. É que o Telegram permite que o usuário solicite o código de acesso via ligação telefônica com posterior envio de chamada de voz contendo o código para ativação do serviço Web, cuja mensagem fica gravada na caixa postal das vítimas.

O invasor, então, realizava diversas ligações para o número alvo para que a linha fique ocupada, e a ligação contendo o código de ativação do serviço Telegram Web é direcionada para a caixa postal da vítima. A PF, então, resolveu verificar as rotas e interconexões das ligações efetuadas para o telefone que era utilizado por Sérgio Moro [já ciente de que o sistema permite a edição de números telefônicos através de serviços de voz sobre IP (VOIP) ou por aplicativos com a modificação do número chamador].  

Agentes federais em frente a sede da PF, em Brasília. (Mateus Bonomi/Folhapress)
Assim identificou-se a rota de interconexão com a operadora Datora Telecomunicações Ltda que transportou as chamadas destinadas ao número do ministro Sérgio Moro. Essas chamadas foram feitas através da rota baseada em tecnologia VOIP - que permite a realização de ligações via computadores, telefones convencionais ou celulares de qualquer lugar do mundo (serviço prestado pela microempresa BRVOZ).

Resumindo: a PF descobriu que todas as ligações feitas para o telefone utilizado por Moro partiram do usuário cadastrado no sistema BRVOZ e registrado em nome de Anderson [um nome fictício]. Deste também partiram as demais ligações destinadas a outras autoridades públicas que tiveram o aplicativo Telegram invadido de forma ilícita. Foram realizadas 5.616 ligações em que o número de origem era igual ao número de destino.

Pelos IPs atribuídos aos dispositivos (computador ou smartphone) que se conectaram ao VOIP da empresa BRVOZ foram identificados os amigos de Araraquara: Danilo, Suellen e a mãe de Gustavo [que nada tinha a ver com o fato, mas era quem morava no endereço]. Bastava identificar quem morava em cada canto. Como o grupo já tinha se envolvido em outros crimes (como autores ou testemunhas), a PF pediu e a Justiça Federal autorizou a prisão temporária dos quatro amigos para apurar essa ligação.

Movimentação bancária suspeita

O pedido da PF também sugere a quebra do sigilo bancário e bloqueio de ativos financeiros pela movimentação bancária dos suspeitos. E um dos casos chamou a atenção. Até outro dia morador do Selmi Dei, Gustavo, por exemplo, movimentou em sua conta no Banco Original, entre os dias 18 de abril de 2018 e 29 de junho do ano passado, o montante de R$ 424 mil, sendo que em seu cadastro bancário consta a renda mensal de R$ 2.866.

A mulher dele, Suelen, segundo as mesmas informações, movimentou em sua conta no Banco Original a quantia de R$ 203.560 entre 7 de março e 29 de maio deste ano, sendo que em seu cadastro Consta a renda mensal de R$ 2.192. "Diante da incompatibilidade entre as movimentações financeiras e a renda mensal de Gustavo e Suelen, faz-se necessário realizar o rastreamento dos recursos recebidos ou movimentados pelos investigados e de averiguar eventuais patrocinadores das invasões ilegais dos dispositivos informáticos (smartphones)."

Proposta de venda, diz advogado

Ainda no dia 24 de junho, o advogado de dois dos suspeitos disse que a intenção de Walter Delgatti era vender o conteúdo das mensagens interceptadas ao Partido dos Trabalhadores (PT). As declarações foram dadas por Ariovaldo Moreira, que é de Araraquara e virou defensor de Gustavo e Suelen. Em seguida, o PT divulgou uma nota na qual afirmou que o inquérito que apura a atuação de supostos hackers para invadir o celular do ministro Sérgio Moro (Justiça) se tornou uma "armação" contra o partido. [relembre aqui] 

Advogado do casal, Ariovaldo Moreira, disse que a intenção do colega dos clientes dele, era vender as informações ao PT (Mateus Bonomi/Folhapress)
Como ele agia?

Em seu depoimento à PF, no dia 23, ou seja, quando foi preso, Vermelho deu detalhes importantes, conforme a informação trazida nesta sexta-feira pelo Portal G1. Ele contou que, em março deste ano, fez uma ligação para o seu próprio número e percebeu que teve acesso ao correio de voz. Como sempre utilizou os serviços de VOIP (voz sobre IP), pesquisou e contratou a empresa que julgou ter o melhor preço. Ligou para o médico fazendo um teste e descobriu que poderia conseguir os códigos do Telegram e acessar as mensagens.

O teste prático, ou seja, a primeira vítima foi mesmo o promotor de Justiça, Marcel Zanin, de Araraquara [veja aqui], que o denunciou em um processo de tráfico de drogas [porque ele mantinha medicamentos como Alprazolam e Clonazepam que são proibidos, mas ele toma regularmente, e falsificação de documentos]. Disse ter encontrado material contra o promotor e não publicou o conteúdo "tendo em vista que morava em uma cidade pequena e era conhecido por ter conhecimento avançados em informática."

Em nota, o Ministério Público de São Paulo informa que "já requisitou o compartilhamento de provas à Polícia Federal no caso da invasão criminosa à comunicação privada de que foi vítima o promotor de Justiça Marcel Zanin Bombardi, a fim de tomar as medidas legais cabíveis. Informa ainda que o promotor havia oferecido denúncia contra Walter Delgatti Neto por tráfico de drogas e falsificação de documento, no mais estrito cumprimento de seu dever funcional."  

Marcel Bombardi foi o primeiro alvo do hacker (Foto: Weber Sian/Arquivo A Cidade)
Pela agenda do promotor teve acesso ao número de um procurador de república, que não recorda o nome, mas que participava de um grupo "Valoriza MPF". Ali, encontrou vários contatos, entre eles, do deputado federal Kim Kataguri. Pelo Telegram de Kim obteve o número do ministro do STF, Alexandre Moraes. De Moraes, achou o contato de Rodrigo Janot obtendo, então, os telefones de membros da Força Tarefa da Lava-Jato, ou seja, de Deltan Dallagnol, Orlando Martello Junior e Januário Paludo.

À PF, Vermelho informou que todos os contatos ocorreram entre março e maio deste ano e só armazenou o conteúdo das contas de Telegram dos membros da Lava-Jato do Paraná, pois teria constatado atos ilícitos nas conversas registradas [tanto que, posteriormente, reativou seu Twitter e passou a fazer campanha sobre o tema. Chegou até a dar uma dica dizendo que os arquivos ficavam armazenados no cache]. Pela agenda de Dallagnol, teve conhecimento do número de Moro, gerando a partir dali outra lista de pessoas.

Ainda no depoimento vazado pelo G1, Vermelho confirmou ter procurado Glenn, no dia das mães para enviar o conteúdo das contas do Telegram dos procuradores. Resolveu procurar o jornalista por saber de sua atuação nas reportagens relacionadas ao vazamento de informações do governo dos EUA, conhecido como o caso Snowden [acusado de espionagem].  

Walter Delgatti, o Vermelho, fez contato com Manuela D'ávila
Disse, ainda, ter conseguido o telefone de Glenn através da ex-deputada federal e ex-candidata a vice-presidente Manuela D'Ávila (PCdoB-RS) [o que ela confirmou em sua rede social], e que pegou o número dela a partir da ex-presidente Dilma Roussef [que conseguiu por meio do telefone do ex-governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão]. Na prática, ele mesmo ligou para Manoela e falou sobre o conteúdo e pediu o contato do jornalista. Pouco depois, ele e Glenn estavam conversando sobre o assunto. Como o material era volumoso, criou uma conta em nuvem para que os arquivos fossem baixados.

Em nota enviada à imprensa na quarta-feira à noite, antes das informações sobre o vazamento, o Intercept Brasil disse que, assim como a melhor imprensa mundial, não comenta assuntos relacionados à identidade de suas fontes anônimas. Afirmou também que a operação deflagrada pela Polícia Federal "não muda o fato de que a Constituição Federal garante o direito do Intercept de publicar suas reportagens e manter o sigilo da fonte, mesmo direito garantido para toda a imprensa brasileira".  


Bloqueio

O juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília, já determinou o bloqueio de ativos que os investigados pela Operação Spoofing tiverem em carteiras de criptomoedas. Além disso, informou sobre a necessidade de obter senhas e chaves das carteiras de criptomoedas do casal Gustavo e Suelen.

Em meio a esse amontoado de informações, o ACidadeON/Araraquara [que deu a primeira notícia envolvendo o teor da operação] obteve agora, com exclusividade, uma conversa de 'Vermelho' com uma pessoa da cidade, que pediu para ter o nome preservado, no dia 15 de junho deste ano. Ali, ele falava da fraude, expunha as vítimas e tirava sarro se gabando da própria inteligência e capacidade de driblar o sistema. O nome de 'Vermelho', que era, 'Vermei', foi alterado na agenda da fonte para 'Estados Unidos' porque a conversa era no chip americano dele.  

Walter Delgati Neto, o Vermelho, mostrava o dinheiro em uma conversa com amigo
As conversas com pessoa de Araraquara

Em meio a esse amontoado de informações, o ACidadeON/Araraquara [que deu a primeira notícia envolvendo o teor da operação] obteve agora, com exclusividade, uma conversa de 'Vermelho' com uma pessoa da cidade, que pediu para ter o nome preservado, no dia 15 de junho deste ano. Ali, ele falava da fraude, expunha as vítimas e tirava sarro se gabando da própria inteligência e capacidade de driblar o sistema. O nome foi alterado na agenda para 'Estados Unidos' porque ele usava um chip americano dele.

No material em que o ACidadeON/Araraquara teve acesso, o hacker de Araraquara chama uma pessoa, no dia 15 de junho, às 22h14. Manda uma boa noite e uma figurinha de Moro aparentemente chorando. Já na madrugada do dia 16, 'Vermelho' e essa pessoa de Araraquara começam a conversar inicialmente em um papo informal. O interlocutor pergunta como ele está e se está fora do Brasil [haja vista que Vermelho costumava viajar aos Estados Unidos e mandava imagens com dólares aos colegas em fotos via aplicativos]. Esse colega chega a perguntar que se estivesse fora, qual seria o valor de um relógio para trazer ao País.  

Vermelho começa a conversa com a pessoa de Araraquara já ironizando Moro (ACidadeON/Araraquara)
Às 2h07, do dia 16, Vermelho passa a entregar as informações pedindo para salvar as fotos e dá uma risada. Do nada, de uma só vez, ele envia quatro figurinhas de Moro, duas do jornalista Glenn Greenwald, do site Intercept Brasil e três de Deltan Dallagnol, seguida de uma risada. Em seguida, outros arquivos [que precisam ser devidamente apurados, mas alguns deles com tarjas de confidencial que aparentemente parecem ter sido obtidos ilegalmente em conversas de representantes do Ministério Público Federal]. A fonte disse que tinha visto na imprensa os vazamentos das conversas entre Moro e Dallagnol, mas como 'Vermelho' tinha a fama de sempre contar vantagem deu corda na conversa achando ser uma brincadeira. 
Na troca de conversas naqueles poucos minutos da madrugada do dia 16 de junho, 'Vermelho' envia uma série imagens aparentemente captadas do próprio computador. A pessoa de Araraquara, então, comenta de alguns nomes e Vermelho diz ter dados [fotos, mensagens e arquivos] de alguns. Fala também sobre o vazamento das mensagens postadas pelo Intercept Brasil, mas não deixa explícito que fora ele [apesar do indicativo no início da conversa com as figurinhas dos três personagens: Moro, Glenn e Dallagnol].  

'Vermelho' envia as figurinhas dando a entender do assunto ACidadeON/Araraquara)
Já era 3h08 da madrugada do dia 16 de junho, quando a pessoa de Araraquara, já desconfiada que Vermelho estava indo longe demais nos argumentos e documentos [ele mostra uma imagem que seria de contatos extraídos do Telegram], resolve perguntar diretamente sobre o ministro Sérgio Moro. E sugere: "Faz um vídeo dos contatos dele devagar. Contatos do Moro tem", diz, sem o ponto de interrogação. Ele confirma.  

Pessoa de Araraquara pede e 'Vermelho' mostra a lista dos contatos do ministro (ACidadeON/Araraquara)
No material obtido pela reportagem, eles ainda falam sobre vários outros casos e pessoas. Na conversa, 'Vermelho', que, até então, era conhecido apenas por ser um estelionatária condenado e ligado a fraudes eletrônicas, ironiza e diz ter contatos e imagens de políticos, artistas, esportistas e pessoas conhecidas no cenário nacional, internacional, além de gente da própria cidade natal: Araraquara.

Durante a conversa, Vermelho não consegue articular um assunto por vez e vai emendando um tema em cima do outro de maneira desorganizada. Às 2h22, diz ter encontrado o contato de um político. Sem sequencia e nem o motivo, o interlocutor manda um vídeo da deputada estadual Márcia Lia, do PT, que é de Araraquara. A ideia era pedir algo sobre a deputada, mas o hacker não entende. [Aqui é importante afirmar que a deputada não teve o celular invadido e nem contato com o hacker que sequer entender o pedido do interlocutor].

Um minuto depois, Vermelho faz uma proposta: buscar negociar a venda do conteúdo relacionado aos procuradores da Lava-Jato para o Partido dos Trabalhadores. Esta ideia já tinha sido dito anteriormente pelo advogado de Gustavo, o DJ preso na operação. No conteúdo em que o ACidadeON/Araraquara teve acesso, ele diz o nome da fonte e emenda: "A gente lucra. E ganha moral ainda", diz Vermelho dizendo qual o grau hierárquico dentro de um partido político a pessoa poderia chegar caso a repercussão fosse positiva [a questão é que o colega do hacker ouvido pelo ACidadeON/Araraquara não é político profissional].  

Bate-papo parte para a proposta de venda das mensagens
O interlocutor teria dito que tentaria o contato com alguém influente, entre outros assuntos desconexos. Em seguida, Vermelho manda um áudio: "Agora é a hora certa porque se a gente fala mês passado, o pessoal fala: ah, tá mentindo, não tem! Agora que explodiu na mídia, ai é fácil". E dá o recado: "Vou deixar na sua mão. Já queria falar com você antes, mas ninguém ia acreditar", diz Walter Delgatti Neto, o 'Vermelho', citando que após a divulgação das conversas entre Moro e Dallagnol ficará mais difícil negociar o conteúdo. A fonte informa que não deu bola e não foi atrás de ninguém ligado ao PT.  

Papo segue sobre a proposta de venda...
 
Na conversa com a pessoa de Araraquara, ele dá uma informação [até então inédita]: "Tem 10 cópias já ahahahaha. Em tudo. Com amigo de confiança." O ACidadeON/Araraquara mostrou isso na sexta-feira, dia 26 [veja aqui]. No domingo, dia 28, os advogados que representam Vermelho disseram que ele tem cópias dos documentos extraídos irregularmente espalhados com pessoas dentro e fora do Brasil. A PF não confirma.  

Vermelho diz que tem cópias do material distribuída com amigos
Outros alvos

No papo, Walter Delgatti Neto e a pessoa de Araraquara falam sobre vários assuntos, alguns deles já trazidos com exclusividade pelo ACidadeON/Araraquara. Os dois conversam sobre artistas [são mostrados os contatos pessoais do jogador Neymar, do narrador Galvão Bueno e do jornalista e apresentador do Jornal Nacional, Willian Bonner, além do também jornalista Pedro Bial e o ator Gregório Duvivier, que ficou conhecido por ser um dos criadores dos esquetes da série Porta dos Fundos]. [veja mais aqui] Mas, teve mais coisa.  

Pedro Bial teve a conta invadida por Vermelho, ao menos, ele disse ao amigo de Araraquara
Enquanto expunha a fraude e as vítimas, tirava sarro se gabando da própria inteligência e capacidade de driblar o sistema. Durante o papo, fala sobre o interesse em lucrar com a venda do material que poderia ser de interesse do Partido dos Trabalhadores [ele afirma ter conversas entre os procuradores da Lava-Jato] e também mostra a agenda de personagens importantes do governo de Jair Bolsonaro [que também teve o Telegram invadido] como o vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão e mais três militares. [veja aqui]  

Agenda subtraída por Vermelho, o hacker de Araraquara, tinha contatos do vice-presidente general Mourão e mais três da cúpula de Bolsonaro
Nesta conversa entre Vermelho e a pessoa de Araraquara, são mostrados materiais encontrados em outros telefones envolvendo o prefeito de Araraquara Edinho Silva [que não teve o celular invadido porque não tem Telegram, por isso o hacker achou só processos em andamento com terceiros] e do ex-prefeito Marcelo Barbieri. [entenda clicando aqui]. No papo, ao mostrar que estava com o Telegram de Barbieri, Walter Delgatti comete um ato falho, tira uma foto da tela do notebook, mas esquece que havia ali ícones das vítimas. [veja mais aqui]  

Foto tirada por 'Vermelho' mostra a tela do seu computador com os arquivos hackeados ao fundo (ACidadeON/Araraquara)
Na tela do computador tem uma série de arquivos distribuídos. Ali, o ACidadeON/Araraquara já tinha encontrado o arquivo ligado ao ministro da educação, Abraham Weintraub [veja aqui], além de um documento renomeado para RF Moro, em alusão ao ministro da Justiça, Sérgio Moro. Tem ainda indicativo de outros alvos ligados ao judiciário [veja aqui] ou de pessoas importantes da cidade de Ribeirão Preto, onde Vermelho estava escondido; entre eles, deputados, professores, uma juíza e o prefeito Duarte Nogueira. [veja aqui].  

Prefeito de Ribeirão, Duarte Nogueira (Foto: Murilo Corte)
Mais tempo para investigar

Nesta semana, a pedido da PF, o Ministério Público Federal em Brasília prorrogou as investigações sobre a ação de hackers suspeitos de invadir celulares. As quatro pessoas de Araraquara seguem presas temporariamente a pedido da Justiça Federal.  

Walter Delgatti, o Vermelho
Não vi nada

Nesta terça-feira, dia 30, Sergio Moro, afirmou, por meio de sua assessoria, não ter tido acesso ao inquérito sobre os hackers e que fez uma relação "lógica" entre o grupo preso e o site The Intercept Brasil. A nota do ministério rebate coluna de Leandro Colon, publicada nesta segunda (29) na Folha de S.Paulo. "O ministro da Justiça e da Segurança Pública esclarece que não teve acesso ao inquérito de investigação das invasões criminosas de celulares e mensagens de autoridades", diz a nota. "A relação entre os hackers e as divulgações das mensagens era a esse ponto mais do que lógica."  
 
Prisão mantida e maus tratos
 

O casal Gustavo e Suelen, que são do Selmi Dei, em Araraquara, e estão presos em Brasília, suspeitos de envolvimento no maior escândalo relacionado a fraude eletrônica envolvendo as principais autoridades do País, denunciaram hoje uma série de condutas dos policiais que consideraram maus tratos. Em razão disso, Suelen foi transferida, às pressas, da Penitenciária feminina do Distrito Federal para a sede da Polícia Federal, no aeroporto de Brasília.

A informação foi confirmada pelo advogado do casal, Ariovaldo Moreira. Foi ele quem disse que o casal foi impedido de ligar para ele. A declaração dos dois foi dada hoje durante a Audiência de Custódia. Suelen, segundo a defesa, começou o depoimento chorando. Disse que só pôde tomar banho depois de dois dias presa, e por determinação do delegado Luís Flávio Zampronha, que conduz o inquérito.

"Me trataram mal, fizeram muitas piadinhas, fiquei sem papel higiênico, sem absorvente, tive que tomar água do chuveiro", disse Suelen. "Não quero voltar mais lá [na penitenciária feminina do Distrito Federal]. Eu não tenho nada a ver com isso", afirmou, chorando. O Ministério Público solicitou cópias dos depoimentos de Elias Santos e Suelen para abrir inquérito para investigar os supostos maus tratos cometidos pelos agentes de segurança.

O marido dela, Gustavo, que em Araraquara é conhecido como Guto Dubra, contou que "os policiais entraram em casa, já fui agredido verbalmente desde o momento que estouraram a porta, porque eu estava dormindo. Desde o começo eu colaborei, deixei eles super à vontade, mas fui bem agredido verbalmente. "Hacker, bandido, tá preso, perdeu'", narrou Elias Santos.  

Walter Delgatti, o Vermelho, não alegou maus tratos (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
A primeira coisa que falaram: 'Você que é o hacker'. Desde o momento que entraram em casa eu pedi para ligar para meu advogado, conversar com minha mãe, e não deixaram", queixou-se. Para Elias Santos, os supostos maus tratos foram desnecessários. Ele também se referiu a seu amigo Walter Delgatti Neto, 30, também presos, como "o principal culpado".

Nesta terça-feira, o juiz da 10ª Vara da Justiça Federal em Brasília, Vallisney de Souza Oliveira, decidiu manter a prisão dos quatro investigados por envolvimento na invasão de celulares de autoridades do país. Todos são de Araraquara. Walter Delgatti Neto, o Vermelho, e Danilo Marques, não relataram maus tratos nem coação por parte dos policiais.

Delgatti disse que prestou seu primeiro depoimento à PF, no dia em que foi preso, por livre e espontânea vontade, embora tenha ressaltado que estava tenso por causa do clima da prisão e sem os remédios de uso controlado que costuma tomar. "Não fui coagido, mas eu estava naquele clima [do momento da prisão], e sem medicamentos também", disse.  
  
De Alckmin a secretário  
 
Na tela do computador de Vermelho [que deve ter sido apreendido] tem uma série de arquivos distribuídos por nomes. Ali, o ACidadeON/Araraquara já tinha encontrado o arquivo ligado ao ministro da educação, Abraham Weintraub, além de um documento renomeado para RF Moro, em alusão ao ministro da Justiça, Sérgio Moro. Próximo do nome dele há outros, entre eles, do ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, e do presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM-AP) [que já teve seu hackeamento confirmado pela Polícia Federal]. O conteúdo não é possível ter acesso.

Conta ainda na lista de arquivos o nome do secretário especial adjunto da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco Leal. Mestre em Direito e procurador federal ele vem sendo a voz do Governo de Jair Bolsonaro quando o assunto é a Reforma da Previdência. Quem também teria tido o perfil invadido é a advogada Luciana Lóssio. Ela ficou conhecida por ser ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sendo a primeira mulher a ocupar a vaga destinada aos juristas, de 2013 a 2017.  
 
Geraldo Alckmin
Até o doutor, Vermelho? 
 
A ousadia de Walter Delgatti Neto, o 'Vermelho', apontado pela Polícia Federal (PF) como a cabeça pensante dos detidos na Operação Spoofing, é tamanha que chega a ser irônica. Nesta terça-feira, dia 30, pouco antes da audiência de custódia que os manteve detidos, em conversa com o advogado Ariovaldo Moreira, que já o defendeu em um processo criminal e, atualmente, representa o casal preso, ele confirmou ao defensor que tentou grampeá-lo, mas não teve sucesso.

"Eu disse para ele: você chegou a me ligar? Porque eu recebi uma ligação de mim mesmo, achei estranho e não atendi", diz Ariovaldo Moreira, agora, ciente de como o ex-cliente agiu. "Ele, então, riu e disse que tinha tentando me hackear. Eu falei, ah, para de lorota." Em seguida, Walter Delgatti brincou dizendo: "Seu telefone não é o...[e disse o número]", conta Ariovaldo que ficou impressionado com o fato de ele ter decorado seu número e saber de cabeça. "Foi tão curioso que quem ouviu acabou rindo."  
 
Advogado Ariovaldo Moreira só não foi hackeado porque não atendeu ao telefone com seu próprio número (Viviane Abreu/EPTV Brasília)
Gente de Araraquara... 
 
Parece história repetida, mas não é. Já dissemos aqui que a ousadia de Walter Delgatti Neto é tamanha que chega a ser irônica. Tanto que o hacker mais famoso do Brasil mostra também ter ido atrás de quem já o prendeu [ou o investigou na cidade]. Ele invadiu o Telegram de dois delegados, dois investigadores e um pm. (veja aqui) 
 
Sai e volta 
 
Em decisão do início da noite desta quarta-feira (31), o juiz Vallisney Oliveira, da 10ª Vara Federal em Brasília, decidiu manter a prisão de Danilo Marques, 33, um dos suspeitos de envolvimento nos ataques a celulares de autoridades como o ministro Sergio Moro (Justiça). Mais cedo, a Polícia Federal havia pedido ao juiz a soltura de Marques, preso temporariamente desde o último dia 23.   Contudo, a PF desistiu do pedido horas depois, argumentando que, ao colher novas provas no celular do investigado, constatou que ele sabia que seu amigo Walter Delgatti Neto, 30, havia invadido contas de autoridades no aplicativo Telegram. 
 
Mais alvos    

No dia 1º de agosto, novos nomes foram revelados. Em um arquivo de Telegram parcialmente encoberto tem o nome de Witzel. A suspeita é que seja uma invasão eletrônica referente a Wilson José Witzel, que é advogado, ex-juiz federal, ex-fuzileiro naval e atual governador do Rio de Janeiro filiado ao PSC. O nome dele aparecia bem próximo do outro político importante, o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, que também teria sido hackeado. Na lista tem ainda o senador Cid Gomes e o empresário Abílio Diniz.   

Também aparece o nome de Patrícia Marino [que seria a empresária, advogada e fundadora do Instituto Humanitas360, voltado ao combate à violência, Patrícia Rieper Leandrini Villela Marino. Ela é casada com o presidente do Conselho de Administração do Itaú para a América Latina, Ricardo Villela Marino]. Quem também pode ter tido o Telegram invadido pelo hacker de Araraquara é o médico e professor Edmund Chada Baracat. Na tela do computador de Walter Delgatti havia um arquivo renomeado para Edumun Fuvest. O professor, talvez, tenha escolhido porque, além de ser titular da disciplina de Ginecologia, é o pró-reitor para graduação da Universidade de São Paulo (USP) na gestão 2018/2019 [que define diretrizes para 182 cursos e 60 mil alunos] e um dos responsáveis pelo processo seletivo para ingresso nas universidades, a Fuvest.  
 
Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, também teria sido hackeado por Vermelho (Fernando Frazão/Agência Brasil)
No dia 1 de agosto, a Justiça Federal determinou a prisão preventiva dos quatro moradores de Araraquara, suspeitos de integrarem um grupo ligado a invasão de telefones celulares das principais autoridades do país. Leia aqui

O ACidadeON também mostrou que a verdade absoluta descrita por 'Vermelho' ainda carece de perícia. Mesmo assim, um detalhe técnico pode já colocar em dúvida o primeiro depoimento dele. É que ele diz ter invadido o Telegram da primeira vítima em março, mas o SMS necessário para o hackeamento, que chega segundos depois, é de 1º de junho.  Relembre o caso aqui




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