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Pingo D'Água é uma das figuras mais conhecidas de Américo Brasiliense

O homem que anuncia as mortes da cidade, viu de perto a transformação de Américo, que neste dia 21 de março completa 55 anos

| ACidadeON/Araraquara

Há mais de 40 anos, Pingo D'Água anuncia os falecimentos em Américo Brasiliense (Foto: Gabriela Martins)
Realizar propaganda por meio de um carro de som é muito comum em diversas cidades brasileiras, mas, e anunciar o nome daquele que morreu? Pois é isso que Ângelo Faes, o famoso Pingo D'Água, faz há mais de 40 anos em Américo Brasiliense. Entre propagandas e anúncios de achados e perdidos, ele roda pelos bairros da cidade anunciando os falecimentos.  

Quem mora na cidade está acostumado. Se o carro de som está se aproximando, é hora de baixar o som da televisão, desligar o rádio e parar tudo que está fazendo para escutar o que o Pingo D'Água tem para anunciar.  

Essa grande figura conta que teve a ideia de trabalhar com carro de som ao assistir o filme Toque de recolher. Seu primeiro anúncio foi sobre o sumiço de um cachorro, mas, ainda sem muita experiência, entretanto, antes de encontrar o animal perdido, três cachorros foram entregues para o anunciante.  

"Certo dia, um senhor pediu para anunciar um velório e eu anunciei. A partir dali não parei mais, pois a gente não tinha nenhum meio de comunicação e as pessoas não tinham como ficar sabendo das mortes. Comecei com isso e deu certo, pois eu não falava apenas o nome, mas o apelido ou parente de quem a pessoa era. Nós rodamos a cidade toda, até todo mundo ficar sabendo", conta.  

Ele roda a cidade anunciando também ofertas do comércios e cachorros perdidos  (Foto: Gabriela Martins)
Causos
O dono da voz grossa, que toma conta das ruas de Américo, afirma que presta um serviço responsável e que trabalha todos os dias do ano, seja no período da manhã, tarde ou noite. Porém, nem toda a cautela do mundo, impediu Pingo D'Água anunciar a morte de alguém que estava vivo.  

"Certa vez, três homens foram encontrados mortos e o amigo de um deles me contratou para anunciar sua morte. Eu fui até o local, peguei os dados e anunciei. Um mês depois eu estava em um varejão e veio um homem falar comigo. Ele então falou que eu havia anunciado a morte dele. Eu assustei, mas ele me explicou que haviam assaltado a casa dele e levado tudo, inclusive os documentos. O suspeito de furtar a casa era um dos mortos, que estava irreconhecível e com o CIC da vítima estava no bolso do rapaz morto. Como ele não estava na cidade, o rapaz só ficou sabendo que 'morreu' quando retornou para casa", conta.  

Sua história
Nascido nas terras da Usina Santa Cruz, Pingo D'Água lembra da época em que a cidade se resumia a duas ruas 9 de julho e a Manoel Borba. "As ruas eram rodeadas pelo plantio de café. Vejo a Usina Santa Cruz como eixo principal de todo o desenvolvimento que vemos hoje e eu sinto muito orgulho disso".  

Aos dez anos de idade, o menino Ângelo cantava sertanejo ao lado do irmão. A dupla Pingo D'Água e Ramo Verde durou alguns anos, mas o apelido de Pingo D'Água pegou e acompanha o anunciador de mortes até os dias de hoje.  

"Ao longo da minha vida já cantei, fui feirante e pintei a cara para trabalhar como palhaço de circo, pois sempre adorei ser bem humorado, pois gosto de ver todo mundo feliz. Meu trabalho é muito responsável, pois anúncio de tudo, velórios, comércios, achados e perdidos. O meu diferencial é que eu não gravo, eu falo ao vivo por dez, onze horas. Além disso, não tem horário para trabalhar, me chamou estou lá", conta.  

 Pingo D'Água anuncia tudo ao vivo, sem gravação, usando apenas a potência da voz (Foto: Gabriela Martins)
Fama
Mas as ruas da cidade acabaram ficando pequenas para tanto sucesso e ganhou todo o Brasil participando de programas locais e nacionais, chegando a sentar em um dos sofás mais desejados, ao lado do grande Jô Soares.  

"Creio que nem todos gostam da gente, mas me sinto grato de estar na vida das pessoas e da cidade. É com orgulho que vejo como as pessoas sabem quem eu sou. Sucesso para mim é ter honra e dignidade, se não tiver, não funciona. Se não for assim, eu não sou o pingo D' Água. A gente procura sempre fazer tudo certos e eficaz", afirma.    



A história de Américo
Pingo D'Água vivenciou o surgimento do município e pode ver de perto, por meio de suas andanças, o crescimento de cada bairro de Américo Brasiliense. "A gente tem a história de Américo nas mãos, pois vivemos tudo aquilo. Quando ganhou o posto de município, nem prefeitura existia. Antônio Pavan, o primeiro prefeito da cidade, não tinha onde assinar sua posse. Ele foi então para a Escola João Batista, que antigamente ficava na Praça, e assinou a posse. Eu e meus amigos sempre falamos que tivemos o privilégio de carregar a cadeira para o primeiro prefeito sentar". 

Para ele, a cidade teve sorte, pois cada governante fez história e ajudou a transformar aquelas duas ruas em uma cidade repleta de doces lembranças.  

Quem vai anunciar sua morte
Pingo D'Água conta também que as pessoas sempre brincam perguntando quem irá anunciar sua morte, mas sempre com bom humor, ele tem a resposta na ponta da língua: "Eu não tenho medo da morte, mas quando isso acontecer, meu filho fará o anúncio por mim. Ele é meu substituto", finaliza pingo D'Água, que não pinta mais o rosto, mas mantem o espírito alegre e bem humorado de um palhaço.

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