
A influência do Baile do Carmo em sua vida artística foi um dos pontos da entrevista da cantora Liniker, no programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite de segunda-feira (12). Recentemente, artista araraquarense, de 27 anos, venceu o Grammy Latino, na categoria Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.
“Os Barros [sobrenome da artista] estão sempre no Baile do Carmo. Cresci com a minha mãe, com minha tia, com a Glória, com a Daniela Preta, com a Paula, se arrumando, fazendo cabelo, pensando assim: no ano que vem tem baile, que vestido eu vou usar?”, começou.
O tradicional Baile do Carmo é uma festa centenária e histórica que celebra a comunidade negra de Araraquara. Hoje, é realizado no Espaço Orfanato Renascer.
“É uma produção mesmo, onde as famílias pretas se organizam para viver isto, porque é um momento também onde, por exemplo, a minha mãe que sempre trabalhou, a minha tia que sempre trabalhou, tinham uma semana para pensar só nelas, para existir, para ser lindo, belo“, continuou.
“A gente ficava vendo elas se arrumando. Elas iam, a gente botava as músicas que elas escutavam, ficávamos brincando de Baile do Carmo em casa; eu botava blusa de frio na cabeça para ser meu cabelo. Elas chegavam e a gente ficava escutando as histórias até o dia raiar”, completou.
Ter esta criação presente de uma negritude muito forte, com certeza, é muito diferencial para o que eu faço hoje. Se eu não tivesse nascido em Araraquara, na família que eu nasci, com este Baile que eu me vi tantas vezes, e me vejo, talvez, não teria esta Liniker fazendo música preta brasileira hoje”, concluiu.
Aos 27 anos, ela se tornou a primeira artista transgênero brasileira a vencer um Grammy, com o álbum Índigo Borboleta Anil. Durante a entrevista, ela relembrou a sua trajetória desde que deixou Araraquara em 2015 para conquistar o mundo em São Paulo.
Atualmente, Liniker também protagoniza a série Manhãs de Setembro, em uma plataforma de streaming, que conta a história de uma jovem trans que deixou sua cidade natal determinada a ser livre e viver com independência.
Ela comentou as semelhanças entre sua vida e da personagem. “Quando eu saio de Araraquara, em 2014, com 18 anos, uma mala, um violão nas costas e R$ 100, achando que ia durar um mês aqui [São Paulo], foi um sonho que me movimentou. Minha mãe sabia que não ia dar certo porque não tinha estrutura, mas ela não me deixou não vir. Ela não me deixou não experenciar minha independência“, afirmou.
A cantora também falou sobre sua saída da banda Liniker e os Caramelows, com a qual lançou os discos “Remonta” e “Goela Abaixo”. Ela ressaltou sua gratidão ao grupo, mas destacou sua vontade de “ser protagonista da própria história”.
Eu sinto que eu precisei ter coragem para romper com algo que estava dando muito certo, durante a turnê do Goela Baixo. Precisei ter coragem para seguir, não ter medo, não ter vergonha do desejo ter apontado para outro lugar. Isto me deu muito medo, ansiedade, de como o povo lá fora ia ver este rompimento”, começou.
Liniker disse que não queria mais me sentir pequena e que precisou ter jogo de cintura para não se boicotar e permanecer mais tempo no grupo por pura culpa.
“Este processo me deu e me da até hoje muita fôlego para entender este meu corpo desejante, para não ficar presa em lugares onde não estou vibrando, para não me sentir culpada em processos onde eu não estou cabendo”, concluiu.
