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03/06/2020

Araraquarenses relatam racismo em situações do cotidiano

Por Fernanda Manécolo 

"Filho, se você achar que alguém está desconfiado de você, atravessa a rua". A orientação foi dada pela jogadora de basquete Silvia Gustavo, de 38 anos, ao filho Luís Fernando Gustavo Rocha, 14. 

Eles moram no bairro Vila Harmonia em Araraquara e recentemente, o menino foi levado para a casa por policias que receberam uma denúncia anônima.  

"Um menino negro rondando o bairro de classe média, esse é o crime? É por isso que meu filho foi trazido para casa pelos guardas?", questiona a mãe. 

Este é um dos inúmeros atos racistas que a família vivenciou. No começo do ano, o filho da prima de Silvia, único garoto negro de sua sala em uma escola particular de Araraquara, teve a mochila revistada. O motivo era o sumiço de uma figurinha. Só ele teve a mochila revista. Porquê? Porquê?, conta.  

"Nós mães negras temos medo pelos nossos filhos, medo de não conseguir protegê-los. Eu já falei para o meu filho, se alguém desconfiar de você, atravessa a rua e vem pra casa", afirma Silvia. 

Parece um soco no estômago, mas os relatos não param por aí. Tem gente que foi abordada pela polícia enquanto esperava atendimento médico ou ainda um jovem negro preso dentro do seu local de trabalho acusado de furto. A vítima tinha dito que o acusado era um menino de cor. 

VÍTIMAS DIARIAMENTE
"Até que ponto a cor da sua pele influência a ação de outras pessoas, diz Fabio Apolinário, técnico de basquete, de 32 anos. Minha filha de 12 anos foi chamada de neguinha por colegas em uma escola particular, perguntaram se o cabelo dela tinha piolho", diz ele 

A jornalista Regina Oliveira, 50, tem muitos relatos. Em um deles, uma senhora a abordou quando ela sai de sua casa, no bairro Vila Xavier, e perguntou se ela era faxineira. "Eu respondi: não, eu moro aqui. Mas na cabeça dela, isso não tem nada de mal, ela só me fez uma pergunta, afinal eu sou negra, deveria ser faxineira". 

NÚMEROS QUE ASSUSTAM
No Brasil, o racismo é um fenômeno facilmente expresso em números. Pretos e pardos representam 56% da população. Mesmo assim, são minoria nos espaços de decisão: ocupam pouco mais de 29% dos cargos de gerência nas empresas brasileiras. Entre os mais pobres, os negros são muitos: dentre os 10% dos brasileiros com menor renda familiar mensal, 75% são negros. Entre os que morrem, eles são maioria: uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio que uma pessoa branca. 

Desde o começo da semana temos assistido manifestações em todo o mundo contra o racismo. A morte de George Floyd, um negro, por um policial nos Estados Unidos foi o estopim para as pessoas irem para as ruas e gritarem por um basta.

A situação no Brasil também é desesperadora. Na semana passada, João Pedro, um garoto de 14 anos foi morto dentro da casa de sua tia, em uma favela no Rio de Janeiro, por policiais. O menino estava com amigos, cumprindo a quarentena. 

"Precisamos nos unir pela liberdade da vida, as pessoas querem permanecer vivas. Estes casos de racismo não são isolados e temos que legitimar essa luta", diz a turismóloga Erica Alexandre, 32. 

LEI
A lei enquadra uma série de situações como crime de racismo, por exemplo, recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residenciais e elevadores ou às escadas de acesso, negar ou obstar emprego em empresa privada, entre outros. 

Também tem o crime de injúria racial que consiste em ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Injúria pode gerar reclusão de um a três anos ou multa.  

Injúria racial e o crime de racismo são crimes diferentes, previstos para a prática de condutas diferentes, mas ambos têm como escopo a tão almejada igualdade estabelecida em nossa Carta Magna, procurando a lei, coibir todas as formas de discriminação, preconceito e intolerância, presentes em nossa sociedade.

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