Publicidade

noticias

"De repente": a dor de quem perdeu familiares para a covid-19

Mortes, representadas por números e muitas vezes questionadas por autoridades, representam sofrimento real para quem convivia com as vítimas

| ACidadeON Campinas -

Cleuza Souza, Marcelo Alves, Marilyn Santos e Ana Lúcia Ferreira: vítimas de covid-19 em Campinas (Foto: arquivo pessoal)
Até este sábado (13), Campinas já registrou 148 vítimas da covid-19. A pandemia que assombra a vida, a economia e também a política do país está deixando cada vez mais cicatrizes. As perdas mais significativas não podem ser representadas apenas em gráficos e números, mas sim, na dor de muitas famílias campineiras.

Com as mortes - muitas vezes questionadas - as famílias das vítimas fatais relatam a dor da perda repentina, sem qualquer despedida, e o luto difícil de ser superado a cada novo noticiário. Esse é o caso de Lúcio Rafael Mansini, que teve a mãe como uma das primeiras vítimas fatais de covid-19 em Campinas.  

LEIA MAIS 
Covid-19: 3 meses após 1º caso, Campinas ainda não atingiu pico 
Covid-19: leitos de UTI municipais atingem 100% de ocupação

Ana Lucia Ferreira, de 58 anos, trabalhava como auxiliar de dentista no CS (Centro de Saúde) do DIC 1. Ela foi internada no dia 1º de abril em um hospital da rede privada de Campinas, e morreu 27 dias depois, após ficar entubada durante todo o período. Ana deixou três filhos e uma neta de 4 anos.

Lúcio conta que a sobrinha chama pela avó diariamente desde a morte, e que ainda é difícil explicar a perda da mãe.  

Ana Lúcia e os filhos gêmeos (Foto: arquivo pessoal)

"Eu choro todos os dias, tenho ataque de ansiedade porque eu quero ver a minha mãe. Eu procuro nem assistir mais jornal porque todo caso que eu vejo eu relaciono, lembro dela, ainda não dá pra acreditar", relatou.  



O sentimento de negação também assombra Marcela Adriana dos Santos Oliveira, que perdeu a mãe, de 68 anos, e a irmã, de 33, pela doença.

"Eu jamais imaginava passar por isso, a ficha não caiu e ainda não consigo acreditar que não vou ter mais minha mãe e minha irmã perto de mim, que não pude dar um abraço, segurar na mão, me despedir", declarou. 

Marcela perdeu a mãe, Cleuza Souza dos Santos, no dia 31 de maio, após ficar internada por 13 dias no Hospital Ouro Verde com confirmação de covid-19. Já a irmã, Marilyn Adriana dos Santos, morreu no dia 22 de maio, após passar mal com falta de ar, desmaiar e chegar ao hospital já sem vida. Marilyn ainda não teve o resultado da morte confirmada, mas havia tido contato com a mãe contaminada.   

Marilyn, Cleuza e Marcela (Foto: Arquivo pessoal)

MORTES REPENTINAS

Em todos os relatos dos familiares, o principal questionamento é da imagem passada pelas vítimas nas divulgações. Em meio ao sofrimento, a indignação, segundo eles, é que os dados oficiais criam uma imagem de vítima já com problemas de saúde e "debilitadas", o que nem sempre acontece.

Silmara da Silva Chaves, prima de Marcelo Alves da Rocha, técnico de enfermagem de 37 anos que morreu no último dia 6, diz que apesar da divulgação por parte da Prefeitura citar comorbidade, Marcelo não apresentava nenhuma doença, e morreu pela atuação na linha de frente da pandemia.

"Eles não sabem o que aconteceu. Falaram que Marcelo tinha doença e não tinha. Não tem que passar essa imagem em que as pessoas acham que só quem tem doença vai morrer. Ele era saudável, fazia academia, nunca bebeu nem fumou. Estava salvando vidas e acabou perdendo a dele", afirmou Silmara.  

O técnico de enfermagem Marcelo Alves da Rocha não tinha comorbidades, mas faleceu de covid-19 (Foto: arquivo pessoal)
Marcelo atuava em um hospital da rede privada, onde provavelmente se contaminou. O técnico de enfermagem ficou dez dias na UTI. Três dias antes da morte precisou ser entubado, acabou tendo uma parada cardiorespiratória e vindo a óbito.

"Eles falavam que estava tudo bem. Ele já tinha ido antes no hospital e tido alta, porque não era do grupo de risco. Quando voltou foi internado. Foi de repente, não dá para entender", declarou.

Entre as outras famílias, apesar de doenças prévias, os parentes também citam que a saúde e a vida das vítimas eram normal, e por isso a morte é difícil de ser digerida.

"Minha mãe tinha doenças sim, mas era uma mulher forte. Vivia a vida normal, era uma pessoa muito ativa", afirmou Lúcio.  

Gráfico mostra evolução dos casos de coronavírus em Campinas (Foto: Divulgação)

SONHOS ENTERRADOS

Marcelo é citado por Silmara como uma pessoa que ajudava toda família. Abandonado pela mãe, foi acolhido pela avó, pela tia e pelo pai de Silmara. Marcelo se inspirou nela, enfermeira, quando decidiu fazer o curso de técnico de enfermagem - antes disso, era vigilante. Jovem, deixou muitos sonhos para trás.  

"Ele queria casar, ter filhos, estava fazendo curso para ser bombeiro e pensando em comprar um apartamento. A gente tem origem muito humilde, mas ele era muito batalhador, tinha prazer de ajudar todo mundo. Agora, aqui está todo mundo aos prantos", disse a prima.  

Silmara e Marcelo durante uma celebração (Foto: arquivo pessoal)

Já a filha Marcela cita que a mãe era conhecida em todo o bairro, no Jardim São Pedro, tinha muita força e as duas faziam planos para os próximos anos.

"Minha mãe era uma mulher muito forte, foi presidente de bairro, foi da associação das mulheres, ficou à frente de lutas, ajudando, guerreira, o que podia fazer pelas pessoas, ela fazia. A gente tinha muitos planos pros próximos anos, é difícil de aceitar".

Lúcio, ao falar sobre a mãe, se emocionou ao lembrar que a possível contaminação foi em uma viagem de férias que era planejada há muitos anos.

"Ela fez a viagem que queria fazer há anos para ver a nossa família. Passou muito tempo trabalhando pra ir, e lá (em Fortaleza) ou no aeroporto acreditamos que ela acabou se contaminado, porque chegou e já começou a ter os sintomas, foi tudo muito rápido", afirmou.

A FALTA DE DESPEDIDA

Entre a grande ausência que a morte por covid-19 trouxe às centenas de famílias que perderam familiares na cidade, há ainda uma lacuna que dificulta ainda mais a superação: a falta de despedida. Entre a maior parte dos óbitos estão pessoas que ficaram internadas, muitas vezes entubadas e isoladas da família, que não teve um momento de adeus.

"Dói muito. O último dia que eu vi minha mãe foi pelo portão da casa dela, quando fui levar comida porque ela estava já com sintomas. Ela queria que eu entrasse, queria me abraçar, mas eu me mantive longe para proteger ela. Depois não tive como me despedir, como pegar na mão dela, dói muito", declarou Marcela.

Lúcio conta que durante a internação, em um dos últimos dias, o hospital autorizou a família ver Ana de longe, como forma de tentar a melhora da paciente, mas ele não imaginava que seria aquele o último momento em que veria a mãe viva.

"Chegamos a uns quatro metros de distância dela, não podia chegar mais perto. Cantamos um louvor e percebemos que o batimento dela ficou acelerado. Foi muito rápido, eu não acreditava que aquela seria a despedida. Depois disso fui o único a ver ela morta antes de ensacarem, foi uma sensação horrível", disse Lúcio.

Essa ausência é ainda mais acentuada durante o enterro, que por medidas de segurança são em tempo e número de pessoas reduzido.

"O cemitério deixou apenas cinco pessoas entrarem. Foi a família toda na frente, que mesmo sem entrar quis estar lá para tentar um último adeus. O caixão estava lacrado e todos nós distantes, fazendo revezamento para estar mais perto. Foi tudo muito rápido e muito triste", disse Silmara.

No caso relatado por Luís Fernando Arroyo de Melo, a tia, Ruth Lima de Melo, de 72 anos, provavelmente se contaminou no velório do marido, que morreu por parada cardíaca.

"Meu tio estava com muito medo de tudo, acho que grande parte da morte dele foi pelo medo da doença, e isso acabou levando minha tia também. Acreditamos que no velório ela tenha se contaminado, e depois que ficou internada se entregou. Por causa disso o dela não teve velório. Foi direto sepultamento e acabamos não tendo nenhuma despedida", declarou.

Publicidade