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CampinasBairrosDe estação história a ponto comercial: descubra como bairro Guanabara se transformou ao longo de três séculos

De estação história a ponto comercial: descubra como bairro Guanabara se transformou ao longo de três séculos

Onde os trilhos da estação marcavam encontros e partidas, hoje se veem feiras, clínicas e casarões convertidos em comércio

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Inaugurada em março de 1893 como parte da linha férrea da Companhia Mogiana, a Estação Guanabara — também conhecida pelos campineiros como “Estação da Mogiana” — teve um papel que ia muito além do transporte de passageiros. Seu amplo pátio chegou a abrigar dezenas de linhas, o que a tornou um ponto estratégico para o escoamento do café e de outras mercadorias de grande relevância econômica para o estado de São Paulo.

Entre os séculos XIX e XX, o café consolidou-se como o principal produto de exportação do Brasil, representando a maior fonte de riqueza do país e firmando-o como o maior produtor mundial, responsável por cerca de 40% da produção global

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Naquele contexto, a Estação da Mogiana se destacou como a mais importante de Campinas, simbolizando a força da economia cafeeira que impulsionou o desenvolvimento da região.

Com o declínio do transporte ferroviário urbano e regional, a Estação entrou em longo processo de abandono. Por décadas, parte dos armazéns e edifícios anexos sofreu ocupações e deterioração, o que transformou a área em um foco de vulnerabilidade social e insegurança para os moradores vizinhos.

“O que atrapalhou muito o bairro, por um período, foi o abandono da estação. Virou um centro de tráfico de drogas, onde usuários usavam a estação como ponto de encontro. Ficou conhecido como a favela da Mogiana”, lembra Dalton Costa, 70 anos, morador da região.

Ele recorda ainda a árvore centenária em frente à estação que foi incendiada em 2024, em um ato de vandalismo. 

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Árvore centenária incendiada em 2024 nos dias de hoje. Episódio que marcou o período de abandono em frente à estação (foto: Gustavo Seneme)

Logo depois do fim da estação, em 1980, a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) tentou a concessão do complexo junto à Prefeitura. Porém, somente após 10 anos, a estação finalmente teve seu direito cedido à universidade. 

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Apesar da concessão, assegurada em 1990, as obras só começaram em 2007, devido a problemas com a separação de verba através da Lei-Rouanet, quando a Unicamp, junto com a iniciativa privada, deu início ao que hoje é o Cis-Guanabara: um Centro Cultural de Inclusão e Integração Social.

Com a requalificação parcial para uso cultural, parte dessa paisagem mudou. É o que diz Selma de Carvalho, que vive no bairro há 43 anos: ”Eu já fui na estação depois da reforma para o centro cultural, em alguns eventos de gastronomia”

Para moradores mais jovens, como Gustavo Nogueira, as lembranças do trem e do movimento antigo são uma referência do que o bairro já foi: “Moro aqui há 20 anos, meu pai, há 50. Aqui era um bairro muito familiar, residencial, uma extensão do Cambuí antigo”, detalha. 

A feira: economia, afeto e preservação do espaço público

Se a estação representa a memória e a história do bairro, a feira de Artesanato Espaço Castelo das Artes, na Praça Silva Rêgo, é a área de lazer no cotidiano dos moradores do Guanabara.

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Coordenadora da feira há 22 anos, Sarita vende produtos artesanais para cães — coleiras, roupinhas e camas feitas à mão (foto: William Castro)

“Quando começou, a feira tinha de 8 a 10 barracas. Hoje em dia, temos 134 barracas”, disse a coordenadora da feira, Sarita Maccarini, que trabalha no local há 22 anos.

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“No começo, o parquinho estava todo largado, com brinquedos velhos. Não tinha o canto para a academia para idosos que criamos, não tinha o parcão que fizemos para os cachorros. Revitalizamos uma parte da calçada, cuidamos da questão de árvores que já haviam caído nas barracas, cuidamos da iluminação da praça pois de noite ficava muito escuro. Cuidamos de tudo, para melhorar a praça e a feira”, complementou. 

Sarita realiza ações sociais na feira há mais de 22 anos, sempre buscando melhorar o bairro do Guanabara e as pessoas que convivem nele. Graças a isso, há sentimento que ela e a feira estão cada vez mais inseridos na cultura local.

“O bairro está nos abraçando cada vez mais, tem muitos moradores daqui que vem e consomem. Estou aqui há 22 anos, fiz 80 na semana passada, e isso aqui para mim é maravilhoso. Eu gosto, eu cuido da feira”.

A coordenadora também comentou um pouco das ações sociais que fazem para os comerciantes:

“A maioria dos comerciantes daqui são idosos, e quando não vendem no dia eu dou cesta básica para todos, como um serviço social. A Cetec cobra 130 reais por mês para as barracas ficarem aqui na praça, quando vejo que a pessoa não vendeu, eu isento aquela barraca. Aqui na feira, tento fazer uma comunidade de um pelo outro, todos se ajudando. A maioria dos feirantes está aqui há muito tempo, não tem muitas mudanças”, afirma. 

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Roupas para cães feitas à mão, requisito obrigatório para vender produtos na feira (foto: William Castro)

Uma das grandes mudanças de característica do bairro ocorreu depois da pandemia de Covid-19, em 2020. Enquanto antes do contexto pandêmico o comércio local se resumia ao artesanato; atualmente, a feira abre espaço para alimentação e é o que garante a sobrevivência econômica do local.

Além de quesitos econômicos, Sarita traz em pauta seu papel social.  “A feira não apenas gera renda, mas também práticas de solidariedade com os comerciantes. Existe a isenção de mensalidade, para quando alguém não conseguir vender, e distribuição ocasional de cestas básicas”, diz.

Vera Lúcia, 82 anos e feirante há 26, emociona-se ao falar do impacto comunitário: “O que ela faz pela gente não tenho palavras, tenho vontade até de chorar”, conta.

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Deize e Edson, casal que mantém a banca de incensos na feira e fortalece a tradição do comércio local (foto: William Castro)

Deize Aparecida, feirante desde o início, destaca a relação de proximidade com os clientes: “É muito importante para os moradores do bairro, pois foi a única que se manteve por tanto tempo. Temos cliente que vem toda semana, criamos relação de amizade com muitos deles, de visitar casa. Eu amo de paixão essa feira”, elogia.

Moradores reconhecem a feira como espaço de convívio e consumo local. Elizabeth Grillo, que mora no bairro há 5 anos, a define como “um ponto de encontro” que incentiva as pessoas a saírem de casa e fortalece laços entre vizinhos.

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Elizabeth, moradora há cinco anos, frequenta a feira como ponto de encontro e consumo de produtos locais (foto: William Castro)

“Aqui na feira eu sempre faço novas amizades e converso com muita gente. Além da questão principal das vendas, se você comparar em termos de preço e qualidade, aqui a gente consegue achar trabalhos manuais que carregam um carinho diferente em relação aos produtos industrializados. A gente comprar aqui é estimular a existência da feira, que é fundamental para o bairro”, detalha.

De casarões a consultórios e restaurantes: o novo rosto do bairro

Caso um morador tenha saído do bairro Guanabara na década passada e retornado hoje, ele irá encontrar um público diferente. Houve uma mudança significativa no perfil habitacional do local.

Com a modernização, cresceu o número de apartamentos, casarões viraram consultórios e ruas anteriormente vivas à noite ficaram silenciosas. O feito trouxe serviços aos moradores, mas também significou o fim de certas convivências que definiam o perfil do bairro.

Um relatório da Secretaria Municipal de Urbanismo de Campinas apontou que, entre 2015 e 2025, o número de apartamentos na cidade subiu de 112.813 para 155.644 — um crescimento de cerca de 38%. Já o número de casas subiu modestamente: de 159.878 para 171.654, de aproximadamente 7,3%.

Thomaz Andrade, gerente do restaurante Pé na Praia, conta que muitos imóveis foram convertidos em comércio. “As pessoas pegam as casas antigas e transformam em comércio. O próprio Pé na Praia é exemplo disso, onde o restaurante era um casarão bem antigo”, relata. 

O resultado é um bairro com forte movimento diurno, especialmente na hora do almoço, puxado por trabalhadores de empresas próximas: “É um ótimo bairro para se ter um comércio. Há muitas empresas na região da Avenida Brasil, com muito movimento”, afirma Thomaz. 

À noite, contudo, com ruas consideravelmente mais calmas. “O comércio no bairro é somente de dia. De noite, fica bem deserto”, afirma Dalton. 

Convivência

Para alguns moradores, essa mudança significou perda da convivência que existia quando as famílias ainda ocupavam as calçadas: 

“Temos que evoluir, acompanhar a modernidade, se não fica para trás. Sou da época em que as famílias colocavam a cadeira na calçada e ficavam conversando até a noite com os vizinhos. Era mais gostoso quando havia muitas casas. à noite, a rua não ficava tão deserta, havia famílias nas ruas”, lembra Selma. 

Moradores novos também valorizam o bairro por sua localização e arborização. “Acho o bairro ótimo, pois está perto de tudo. Está perto do Centro, das estradas ou qualquer lugar da cidade. Outro ponto positivo é a arborização do bairro, acho que nesse quesito é muito bom, há muitas árvores por aqui”, afirma Gustavo. 

O bairro Guanabara passou por muitas mudanças nos últimos anos. As alterações impactam na construção cultural e trazem um diálogo entre passado e presente – tanto em elementos do bairro quanto no perfil dos moradores. 

A Estação Mogiana lembra um tempo em que trilhos e armazéns definiram o ritmo da cidade. Já a feira sustenta uma economia de vizinhança, além de práticas de cuidado coletivo. As clínicas, restaurantes e novos empreendimentos redesenham a rotina e o uso do espaço público, trazendo modernidade e qualidade de vida para moradores.

Vozes da Nossa Gente Campinas

O projeto multimídia “Vozes da Nossa Gente Campinas” é um projeto multimídia de conteúdo, desenvolvido pela redação do acidade on e pela Faculdade de Jornalismo e curso de Mídias Digitais da PUC-Campinas. A parceria de jornalismo hiperlocal contará a história de dez bairros da metrópole em reportagens, imagens e vídeos.

Esta matéria foi feita pelos alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas: Gustavo Frizzo Seneme, João Pedro Belvedere, Leonardo Périco, Marcos Rossi  e William Castro, para o componente de Projeto Integrador VIII, sob supervisão da professora Maria Lúcia e edição de Leandro Las Casas.


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