Não se engane com o marketing digital em prol do leite de fórmula

O leite materno atua como a primeira vacina dos bebês. Se puder, amamente!

| ACidadeON Campinas -

A agência da ONU considera o aleitamento materno mais nutritivo e saudável do que os produtos substitutos. Foto: OMS/Sergey Volkov
Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou a extensão chocante da exploração da comercialização de leite de fórmula para recém-nascidos e virou notícia na ONU News, com o título "Marketing de fórmulas em redes sociais prejudica consumo do leite materno". É o segundo relatório de uma série detalhando práticas de marketing da indústria global de leite de fórmula, avaliada em cerca de US$ 55 bilhões.

Por isso, ações municipais precisam ser feitas para incentivar o aleitamento materno, já que, no Brasil, o Plano Nacional pela Primeira Infância estabelece que cada município precisa elaborar o seu próprio plano de ações para esta população. Em Campinas, o Programa Primeira Infância (PIF), da Fundação FEAC, formalizou em fevereiro deste ano uma cooperação com o Plano Municipal pela Primeira Infância de Campinas, o PIC (Primeira Infância Campineira), com o objetivo de ampliar ações voltadas a crianças entre zero e seis anos.  

O protocolo de intenções tem validade de dois anos. Um dos eixos do PIC é o aleitamento materno. O plano orienta que a amamentação seja exclusiva até os seis meses, e de forma complementar até os dois anos, seguindo a recomendação da OMS. Muitas mães, porém, apresentam dificuldade em continuar amamentando quando os filhos entram na creche. Por isso, a Prefeitura de Campinas entregou, em abril deste ano, cadeiras de amamentação para 97 creches municipais que atendem, em período integral, 15,6 mil crianças de até dois anos.   

Mãe amamentando seu filho em uma creche municipal. Foto: Prefeitura de Campinas

"As poltronas de amamentação representam uma quebra numa cultura de que, para que se pudesse matricular uma criança numa creche, precisava desmamar. Então, muitas vezes, as mães chegavam num centro de saúde e pediam para o pediatra a receita de uma fórmula para desmamar. Hoje, com essa ação integrada e fortalecendo a importância da amamentação, a gente mostra que não precisa mais desmamar para que a criança vá para a creche", explicou o coordenador do Plano Primeira Infância Campineira (PIC), Thiago Ferrari. 

Confira abaixo o depoimento de Ferrari sobre ação referente ao aleitamento materno.  

Relatório da OMS

A indústria global de leite de fórmula "está mirando nas novas mães com conteúdo personalizado nas redes sociais que muitas vezes não são reconhecíveis como publicidade", segundo a OMS. Este novo relatório, intitulado "Escopo e impacto das estratégias de marketing digital para promover substitutos do leite materno", foi divulgado em 28 de abril deste ano.  

E como as indústrias fazem isso? De acordo com a OMS, as empresas de leite de fórmula podem comprar ou coletar informações pessoais e enviar promoções personalizadas para novas gestantes e mães por meio de ferramentas digitais, como aplicativos, grupos de apoio virtual ou "baby-clubs", influenciadores pagos em redes sociais, promoções e competições e fóruns ou serviços de aconselhamento.

O relatório revelou que elas postam conteúdo em suas contas de mídia social cerca de 90 vezes por dia, atingindo 229 milhões de usuários; representando três vezes mais pessoas do que são alcançadas por posts informativos sobre aleitamento materno de contas não comerciais. Essa comercialização generalizada está aumentando as compras de substitutos do leite materno e, portanto, dissuadindo as mães de amamentar exclusivamente conforme recomendado pela OMS. 

Em fevereiro deste ano, o primeiro relatório, feito pela OMS e pelo Fundo da ONU para a Infância, com o título "Como a comercialização do leite de fórmula influencia nossas decisões sobre alimentação infantil", revelou táticas de exploração usadas pela indústria de leite para bebês. 

As mensagens que pais e profissionais de saúde recebem, de acordo com este relatório, são muitas vezes enganosas, cientificamente infundadas, e violam o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno (o Código) um marco do acordo de saúde pública aprovado pela Assembleia Mundial da Saúde em 1981 para proteger as mães de práticas agressivas de marketing pela indústria de alimentos para bebês.  

Novo relatório detalha práticas de exploração utilizadas pela indústria de fórmulas de US$ 55 bilhões, comprometendo a nutrição infantil e violando compromissos internacionais. Foto: Bradley Gordon/OPAS/Divulgação

A importância do aleitamento materno 

De acordo com a OMS, o aleitamento materno na primeira hora do nascimento, seguido de aleitamento materno exclusivo por seis meses e aleitamento materno continuado por até dois anos ou mais, oferece uma poderosa linha de defesa contra todas as formas de desnutrição infantil, incluindo o descuido e a obesidade. O aleitamento materno também atua como a primeira vacina dos bebês, protegendo-os contra muitas doenças comuns na infância. Também reduz o risco futuro de diabetes, obesidade e algumas formas de câncer.  

No entanto, globalmente, conforma ainda a OMS, apenas 44% dos bebês com menos de seis meses de idade são amamentados exclusivamente. As taxas globais de aleitamento materno aumentaram muito pouco nas últimas duas décadas, enquanto as vendas de leite de fórmula mais do que dobraram aproximadamente ao mesmo tempo. 

O aleitamento materno é um direito da criançaSegundo o artigo 9º do Estatuto da Criança e do Adolescente, é dever do governo, das instituições e dos empregadores garantir condições propícias ao aleitamento materno. Mais informações sobre o assunto podem ser obtidos no site da Sociedade Brasileira de Pediatria

A importância dos primeiros 1.000 dias de vida  

A Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas (SMCC) lançou um vídeo para reforçar a importância do cuidado, do carinho e da atenção dos primeiros 1.000 dias de vida do ser humano. O pediatra José Martins Filho explicou, por meio da assessoria de imprensa, que um bebê nasce com cem bilhões de neurônios e que 80% deles acabam desaparecendo à medida que ele vai se desenvolvendo até a idade adulta, sobrando apenas 20 bilhões. "E por que sobram só 20 (bilhões)? Tudo depende da maneira como, nesses primeiros 1.000 dias, essa criança é cuidada e da influência das relações dela com a sociedade, com a família, com os amigos, com os cuidadores." Ficou curioso e quer saber mais? Assista ao vídeo com o pediatra Martins Filho.