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O direito a educação e as habilidades socioemocionais

Uma reflexão sobre os novos caminhos da educação, o papel do educador e a importância da inserção do conteúdo socioemocional

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Neste final de ano, e durante todo o conturbado - processo eleitoral, muito se falou sobre indicadores de ensino e novas diretrizes. Não nego que as ações tomadas no âmbito educacional das últimas administrações, principalmente pela equidade, são valiosas. Mas falta um longo caminho para que as políticas educacionais sejam realmente eficientes para a sociedade. 

Há um problema fundamental com a continuidade das políticas educacionais e a politização do setor. Esta é a primeira mudança necessária. Não podemos recomeçar a cada governo um novo modelo, sem que haja profundo estudo e entendimento de cada erro e acerto das decisões anteriores. 
 
Em seu livro "Pensando educação com os pés no chão" a autora Tania Zagury, filósofa e professora há 50 anos descreve a experiência vivida em seus anos de docência e o impacto desse problema crucial: 

"Enquanto as decisões sobre educação repousarem sobre os alicerces da precipitação, seja na definição de métodos e modelos pinçados por modismos ou simpatias pessoais; enquanto as mudanças forem implementadas sem a necessária e cuidadosa avaliação das possibilidades concretas de sua implantação; enquanto não houver continuidade nos projetos e enquanto as decisões forem de cunho político-partidário e não técnico-pedagógica, continuaremos perdendo a batalha da educação de qualidades". 

A educação vai além do ensinar a ler e fazer cálculos básicos. Isso é essencial sim, mas compreender e interpretar os dados fará com que nossa sociedade avance verdadeiramente na qualidade educacional. É através do conhecimento que o aluno irá superar seus limites, se posicionar frente ao mundo, exercer com consciência seus direitos de cidadão (como a escolha sensata de seus representantes através do voto), decidir sobre a escolha de sua carreira e desempenhar com produtividade o seu trabalho esse último item vital para o avanço da economia brasileira. 
 
O mundo está mudando rapidamente, a tecnologia está modificando a forma de viver e produzir, as mídias sociais estão transformando as relações sociais, a globalização da economia está concebendo uma sociedade mais complexa. E é neste contexto que a escola tem sido afastada. É necessário que a escola considere as concepções sócio-histórica e cultural do aluno, além de preparar esse novo cidadão, que tem excesso de oferta de informações, para a identificação e compreensão dos conhecimentos relevantes ou significativos para ele enquanto formação humana ou profissional. 

O multiculturalismo 

Vivemos em um país continental e isso nos brinda com uma incrível diversidade natural, de culturas e uma composição bastante heterogênea da população. Infelizmente o ensino tradicional da história, de forma centralizadora, estática e com uma abordagem unilateral moldou muitos conceitos culturais de forma opressora. 
 
Apenas através do conhecimento iremos nos afastar do senso comum e dos preconceitos que confundem as analises. É preciso que a educação reconheça e enfatize as diferenças. Não é um processo de "aceitação". É preciso que os indivíduos sejam reconhecidos como diferentes, complexos e importantes, dentro de um conjunto de comunidades que formam a cultura brasileira, ou seja, a educação não pode ser um projeto para classes sociais, precisa ser um projeto de nação. 
 
A escola exerce uma das maiores influências na formação da identidade e ao abordar os assuntos polêmicos de frente praticaremos ao menos o exemplo comportamental de escutar o próximo, de entender outros pontos de vista, estimulando a empatia, e com o tempo incentivar a segurança na liberdade de expressão do aluno. 
 
Atualmente fala-se muito no mundo empresarial do Storrytelling, que é a arte de contar histórias memoráveis e relevantes, fazendo conexão com as pessoas, com o emocional. Essa prática pode levar o aluno a uma jornada de mudanças e transformações. Afinal, se há um aspecto que as redes sociais nos ensinaram é que as pessoas gostam de se conectar com pessoas, com histórias.  

Há alguns anos atrás um livro infanto-juvenil fez um enorme sucesso no mercado editorial abordando um tema pouco e trazendo vasto conteúdo para os jovens. Estou relembrando a famosa obra de Jostein Garden em "O Mundo de Sofia" com o ensino da filosofia e das ideias dos grandes pensadores. Na história o professor sabe instigar o pensamento investigativo, analítico e criativo da pequena Sofia. Não são conteúdos para memorização, mas é através de indagações e "dando asas a imaginação" com questionamentos como "quem é você?" ou "de onde vem o mundo?" que a curiosidade vai sendo construída.  

Esse é o ponto, é preciso encantar, unir o útil ao agradável, dar sentido ao conteúdo. Mudar o formato do monólogo, não prosseguir com o modelo de aula de um orador e seus ouvintes, mas sim praticar a arte da interação, dar desafios e provocar dúvidas e debates.  

Num mundo em constante transformação, a educação não pode ficar restrita a um conjunto de matérias e testes padronizados. O acesso à informação deixou de ser um problema, é preciso agora saber filtrar/lidar e entender o que se lê. Os estudantes precisam desenvolver habilidades socioemocionais, trabalhar em equipe e a capacidade de analisar criticamente. 

O ambiente 

Ao relatar as sugestões para a nova escola e o trabalho do docente não podemos ignorar certos aspectos da realidade. Temos sim uma sociedade que pouco valoriza o trabalho do docente. Um Estado que pouco investe. E, ainda mais grave, a convivência com a violência.  

Temos professores fatigados e alunos estressados e, por isso, defendo a educação socioemocional como parte intrínseca da educação, sendo a psicologia um dos estudos mais importantes para essas mudanças. Por mais que as escolas e os planejamentos incluam esses profissionais (psicólogos), o conteúdo que é o estudo e entendimento de nossa base psíquica não é utilizado de forma prática, nem para o docente, nem para o aluno ou a comunidade.  

Há anos se fala sobre a inteligência emocional, mas ela não faz parte do dia-a-dia da sala de aula. Todos ganhariam muito ao entender o funcionamento da mente e perspectivas de cada um, gerando maior entendimento pessoal e empatia. Nem os professores, nem a escola precisa moldar o aluno, mas é necessário que essa instituição crie o ambiente para que todos os participantes possam se sentir seguros e empáticos.  

Há um ditado que diz "só amamos quem nos admiramos" e o formato do ensino hoje, que coloca o professor como o detentor do conhecimento e "acima" do aluno gera provavelmente, de forma inconsciente e involuntária, a rejeição. É preciso que o professor, um ser humano em constante processo de aprendizagem, seja visto como um modelo e um o condutor de formação desse novo ser, além de demonstrar ao aluno o interesse por ele e pelo seu aprendizado. Esse sentir terá um profundo impacto na construção social deste aprendiz.  

Zaguri (2018) sintetiza assim essa questão:  

"Criar adultos dignos tarefa prioritária da família e da escola depende basicamente de duas coisas: da maneira pela qual nós, adultos, vivemos o dia a dia, e da confiança que temos nos valores que guiam nossas ações. È essa confiança que permite a pais e mestres ter a segurança necessária para dizer "não" a atitudes antissociais sem medo de que tais interditos venham a constituir elementos que "possam baixar a autoestima". É necessário não só sermos íntegros, mas também não duvidarmos da força dos nossos princípios. Quando crianças e jovens percebem nos sues mais fortes modelos (pais e professores) segurança inabalável na retidão, na cooperação, na hota independente do que estejam fazendo os vizinhos , parentes e amigos -, muito provavelmente também acreditarão." 

E prossegue sobre a essência ou o real motivo do conflito que se enfrenta na sala de aula e na vida das novas gerações: 

"O perigo maior para os jovens não são as drogas é crer no futuro da sociedade. A falta de esperança, essa sim, é que pode levar a depressão, ao individualismo, ao consumismo exacerbado, ao suicídio, à marginalidade e às drogas. Já a convicção num caminho produtivo a ser trilhado faz com que os jovens progridam, estudem, realizem". 
 

Considerações Finais 

Existem diversas mudanças necessárias à educação que não podem ser resolvidas através de um ou dois projetos. Há sim que se focar na resolução dos problemas, implementar políticas inclusivas e outros projetos, mas essas ações, por si só, não irão moldar o novo cidadão. Para que a qualidade seja efetiva é necessário mudar a base da educação, seus conceitos. 
 
Essas políticas educacionais agregam mais atribuições aos professores, então é preciso que o Estado crie melhores condições para o trabalho do docente. Perfeito, mas vejo aí um impasse. Para que o Estado tenha real interesse na educação de qualidade é preciso que tenhamos representantes comprometidos, que são fiscalizados pelo povo em suas ações. Para termos bons políticos que lutem com afinco para a evolução da sociedade, precisamos de um povo que pense, que interprete. E esse povo só exercerá esse papel de cidadão com a educação. 
 
Trago para esse obstáculo a resposta de Marilena Chauí, a partir de Sartre, em seu livro Convite à Filosofia: 

"Conformar-se ou resignar-se é uma decisão livre, tanto quanto não se resignar nem se conformar, lutando contra as circunstâncias. Quando dizemos estar fatigados, a fadiga é uma decisão nossa. Quando dizemos estar enfraquecidos, a fraqueza é uma decisão nossa. Quando dizemos não ter o que fazer, o abandono é uma decisão nossa. Ceder tanto quanto não ceder é uma decisão nossa. O objetivo deve ser sempre a reflexão. Superar o senso comum, ter um pensamento mais sistematizado, uma atitude reflexiva e racional da sociedade e de seus valores" 

A construção desse novo mundo depende de nós. Como professores e educadores com grande influência sobre a nova geração a nossa responsabilidade é ainda maior. Parece muita responsabilidade para se colocar sobre a escola, sobre o educador, mudar nossa sociedade pela educação. É talvez uma tarefa complexa, que exigirá o melhor de nós. Exigirá que os esses profissionais doem sua competência, sua coragem e que acima de tudo amem a educação.  

Essa transformação pela educação significará com o tempo a inversão dos valores da sociedade, que passará a vislumbrar o papel crucial do professor para a sua formação e para o futuro da nação. Afinal, não se pode mudar o mundo sem mudar as pessoas. E não se pode mudar a educação renunciando seus ideais para atender um mercado de consumo ou político-eleitoral. Recitando a poetisa e professora Cecília Meirelles, em sua incrível sensibilidade, "ensinar é acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética, afetuosa e participante".  
 
Sugestão de literatura e livros citados: 
Convite à Filosofia - Marilena Chaui  - https://amzn.to/2Pilohq

Educação na Era Digital: A Escola Educativa - Ángel I. Pérez Gómez - https://amzn.to/2Udf2DX

Multiculturalismo: Diferenças culturais e práticas pedagógicas Vera Maria Candau e outros - https://amzn.to/2UkC1gu

Pensando Educação (com os pés no chão): Reflexões de meio século de sala de aula - Tania Zagury - https://amzn.to/2Pj2x6e

Filosofia e história da educação brasileira - Ghiraldelli Jr. Paulo - https://amzn.to/2UddHNr


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