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Crianças youtubers e influencers? Pode? Qual sua opinião?

Para a publicitária Mariana Favero, o uso das crianças em publicidade ou como influenciador é muito sensível e acaba expondo o menor a um capitalismo que pode não ser positivo

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Lara conta com mais de 1,1 milhão de seguidores no Instagram
Sim, existem crianças influenciadores digitais e youtubers mirins. E não são poucos. Cada vez mais encontrar um pequeno utilizando sua reputação em sites, blogs e redes sociais para alavancar produtos, serviços e eventos tanto na internet quanto fora dela. Para o psicólogo Roberto Debski, a novidade não é saudável para crianças tão jovens. Ele ressalta que além de expor a vida do menor publicamente pode acabar trazendo outros prejuízos como as críticas e principalmente, a frustração. "Na grande parte das vezes, isso é um sonho dos pais passado para as crianças. É um mundo e um cenário que nem adultos conseguem lidar com a complexidade sem danos. Imagina uma criança. Nem sempre ela vai ser famosa. Nem sempre vai conseguir campanhas publicitárias. E os danos que essa frustração pode causar?"

Para especialista em midialogia da escola Ctrl+Play, Ana Schilling, a vontade da criança é apenas um reflexo da sociedade porque ela está exposta a isso a todo momento e é bombardeada com oportunidades. "Acho que proibir nunca é o caminho. Isolar e bloquear o uso não vai afastar eles do mundo virtual. Vai apenas frustrar um sonho. Importante é saber lidar de forma positiva com isso e saber balancear essa exposição com boas práticas.  



Para a publicitária Mariana Favero, o uso das crianças em publicidade ou como influenciador é muito sensível e acaba expondo o menor a um capitalismo que pode não ser positivo. "A força da imagem deles nas outras crianças é enorme. Tenho um filho pequeno que gosta de videogame e que consome youtubers infantis. Ele é influenciado e induzido a consumir produtos. Acho que isso é algo que tem que ser visto e discutido com muito cuidado pela Vara da Infância e Juventude."

Debski lembra que Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é claro e proíbe qualquer forma de trabalho antes dos 14 anos de idade. Já a advogada especializada em Direito Digital, Daiille Costa Toigo, explica que o crime pode ser tipificado sob os responsáveis no Código Penal, caso o menor não tenha cuidados indispensáveis ou esteja sujeito a trabalho excessivo ou inadequado, fora do esquema de aprendiz. "Portanto, a legislação brasileira até admite o trabalho de adolescente menor de 14 anos, desde que a atividade não seja insalubre, penosa, perigosa ou realizada em horário noturno, visto que se considera que lugar de criança é na escola e não deve ser utilizada como mão de obra barata ou informal para determinadas empresas ou por profissionais".

A discussão é ampla, mas para Schilling, o mesmo já se discutiu no passado quando o assunto era as crianças que trabalham como atrizes e atores mirins seja com propaganda ou televisão. "Se falamos de uma criança bem educada, com informação e que sabe se apropriar da tecnologia e assuntos referentes a sua faixa etária não vejo problema ela entrar nesse ramo. Existem plataformas digitais com curadorias específicas como é o caso do YouTube Kids".

"Hoje em dia, os influenciadores digitais tem muito poder nas mãos. Não vejo como seres tão pequenos possam lidar com tamanha responsabilidade", acredita Favero.  



Para Toigo, é notado que com o avanço da internet, o número de pessoas que se dedicam e lucram com a divulgação de conteúdo digital e marketing utilizando os canais do youtube e das redes sociais esteja aumentando, todavia, não há qualquer regulamentação específica acerca da profissão de youtuber, instagramer ou influenciador digital. "Há um projeto Lei Nº 10938 de 2018 quer regulamentar a atividade de youtuber no Brasil, mas não há nada em concreto regulando essa profissão. Acredito que se um profissional é contratado como outra função como apresentador, editor de vídeo etc., deverá ter a obediência aos normativos da CLT e da legislação do trabalho. E se houver a contratação como autônomo, deverá ter a observância aos termos contratuais assumidos pelas partes. Cabe mencionar que A partir dos 14 anos é admissível o Contrato de Aprendizagem, o qual deve ser feito por escrito e por prazo determinado conforme artigo 428 da CLT", explica.

Uma das mais famosas influenciadoras do país é a pequena Lara (@diadalara), filha da também influenciadora digital Leydi Paranhos. Lara tem apenas 4 anos e já busca os holofotes com posts de roupas e de relatos de como foi sua rotina. A mãe, Leydiane ficou conhecida nas redes sociais por aparecer no instagram de também influencer, Carlinhos Maia.

Hoje Lara conta com mais de 1,1 milhão de seguidores no Instagram. A conta e a carreira da jovem estrela é acompanhada de perto por Leydi e seu marido. "O difícil é conciliar sua nova rotina às atividades corriqueiras e mantê-las feliz e leve", conta a mãe.  

 

Para Debski, mesmo com supervisão de um adulto, a vida digital de um jovem deve começar apenas com 13 anos. Ele ressalta que entende milhares de crianças já acessam as redes sociais, fato que mostra a falta de limites por parte de pais. "Os pais precisam entender que negar uma vontade do filho em ser youtuber ou instagramer não é acabar com um sonho ou vontade da criança e sim proteger ela"

Os pais de Lara dizem saber do que envolve e contam que tomam cuidado para deixá-la à vontade e que tudo é elaborado cuidadosamente, para que exista tranquilidade e segurança. Como é uma mini blogger, acreditam num mundo moderno mas frisam a importância de deixá-la ser criança e zelam por sua imagem, mesmo que pública.