Por que a democracia é atacada em tantos lugares diferentes?

Das Filipinas ao Alabama, do Brasil à Hungria, a extrema direita se apresenta como solução para todos os problemas do globo

| ACidadeON Campinas -

A extrema direita vem ganhando espaço em vários países desenvolvidos (formando o chamado Ocidente) e subdesenvolvidos de colonização europeia (como o Brasil e as Filipinas). São movimentos políticos que organizam seu discurso ao redor de sentimentos favoráveis à ordem e à uniformidade social e sentimentos desfavoráveis à modernidade e à pluralidade. Estão em países muito diferentes entre si, enfrentando contradições sociais específicas e conflitos econômicos particulares. Como são países muito diferentes, eles deviam estar procurando soluções singulares para cada um. A gente deveria ver, portanto, uma enorme variedade de políticas públicas e de maneiras de organizar a economia. Mas não é isso que acontece. Este artigo sugere que os motivos para esta onda tão grande começaram com a globalização.

A palavra "globalização" apareceu no final da década de 1980 e tomou força durante os anos 90. Dá nome à uniformização de gostos e cultura, à crescente concentração do poder econômico e ao alinhamento das finanças nacionais aos sistemas financeiros centrais. Todos os países da Terra (cuja forma de globo era universalmente aceita, à época) estavam ficando mais integrados financeira, econômica e culturalmente. O modelo de organizar a economia dos países era o Consenso de Washington (aqui tem um texto acadêmico sobre o assunto e aqui, um leigo).

Depois a gente volta para a globalização. Agora vamos entender um pouco a democracia, que ganha legitimidade com a ideia de que as pessoas têm alguma influência nas decisões políticas. Os grupos sociais organizados acham que podem interferir nestas decisões, negociando seus interesses com outros grupos que se imaginem ser afetados. Pode haver grupos mais eficazes, outros menos e, em geral, pouquíssima eficácia política de pessoas isoladas e sem grandes recursos. Mas a democracia traz consigo a expectativa de que as pessoas com maior poder (político, social ou econômico) ou melhor organizadas vão conseguir alguma vantagem na criação das políticas públicas e das leis. Se as pessoas com menor poder se organizarem políticamente, elas vão conseguir também influenciar na criação das regras que formam os jogos econômicos e sociais. Quem aceita a democracia não está apaixonado por uma ideia abstrata, mas pela possibilidade real de ver seu peso político se transformar em algum benefício para vida dos que estão se manifestando democraticamente. O trabalhador quer melhores salários e leis que o protejam da ganância; os religiosos querem proteção ao seu credo; todos querem um ambiente melhor para viver; os muito ricos querem continuar muito ricos e assim por diante. A democracia promete que eles serão ouvidos.

Do final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, até o final da década de 1970, a democracia fez enorme sucesso na maioria dos países ricos (do Ocidente). Nos EUA, os negros passaram a ter seus direitos humanos reconhecidos, no movimento por civil rights. Na Europa cresciam e melhoravam todos os serviços públicos, como saúde, educação, transporte, segurança, moradia e cultura. No Japão, políticas desenvolvimentistas criavam empregos e bem-estar para todos. No geral, a previdência social e os direitos trabalhistas tiveram seu ápice neste período. As pessoas votavam em partidos que trabalhavam para melhorar suas condições de vida.

Porém, da década de 1990 em diante, em quase todos aqueles países, desenvolvidos ou não, a gerência da globalização fez com que as decisões políticas fossem ficando todas muito parecidas. Os trabalhadores votavam em partidos que destruíram a previdência social e os direitos trabalhistas. Os ambientalistas votaram em partidos que aceitaram o envenenamento do solo e das águas, além da destruição de grandes biomas. Os empresários votaram em partidos que quebraram seus negócios e favoreceram apenas as gigantes multinacionais. Os servidores públicos votaram em partidos que privatizaram as organizações nas quais trabalhavam. Apesar do seu voto, as pessoas viram fortunas do orçamento público, que antes era usado para o povo, serem desviadas para o pagamento de juros para os grandes credores do Estado.

Com essas medidas as pessoas deixaram de confiar na democracia e passaram a duvidar da sua legitimidade. Elas foram deixando de votar ou dar atenção às eleições, sendo o voto obrigatório ou facultativo, tanto na Europa quanto nos outros países que nos interessam, inclusive o Brasil. Neste cenário, começou a ficar difícil manter as políticas econômicas da globalização financeira. As constituições democráticas começaram a impor limites inaceitáveis para os grupos organizando aquelas decisões. Os governantes já não tinham a confiança do povo e não conseguiam criar as condições políticas para mais reformas e medidas contrárias aos interesses dos seus eleitores. A democracia já não garantia legitimidade mínima para a continuação das privatizações, desindustrialização, quebra direitos de trabalhadores, consumidores ou mesmo pequenos empresários, ataques aos orçamentos e destruição de serviços públicos.

Voltando à extrema direita, vamos lembrar que ela perdeu muito com o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. A maneira dela criar paz e harmonia social foi mostrada ao mundo quando os exércitos dos EUA e da URSS chegaram a Dachau, Auschwitz, Treblinka, Balzec ou Chelmo. Mas a memória do povo não é ilimitada em nenhum país. As decisões democráticas do bem-estar social (até a década de 1970) tinham deixado alguns grupos sociais insatisfeitos. Aos poucos, eles foram se organizando em novas manifestações da extrema direita. A cada nova decepção democrática, durante as décadas seguintes, os extremistas ganhavam mais eleitores e apoiadores graúdos. Hoje, oferecem a sua maneira de dar legitimidade ao modelo da globalização. No lugar da democracia, servem-se aqueles sentimentos de ordem e uniformidade social. Quem os apoia não espera satisfazer algum interesse material, como diminuir a corrupção, apoia porque se identifica com aqueles belos sentimentos de paz e harmonia social.

As redes sociais podem ser instrumentos muito importantes, mas quem ditou o fim da democracia não foram elas. Muito menos o tiozinho do WhatsApp.

Luiz Marcello de Almeida Pereira escreve às quintas. É advogado, mestre em Direito Constitucional e professor da disciplina. Visite Lextra para mais informações ou envie mensagem para marcello@lextra.com.br em caso de dúvida, crítica ou sugestão.