Quem passa pela Avenida Doutor Campos Sales, no Centro de Campinas, reconhece de longe a imponência do Palácio da Mogiana — o prédio centenário, de fachada eclética e detalhes neoclássicos, que há décadas testemunha a transformação urbana da cidade. Agora, depois de mais de 20 anos de tentativas, a Prefeitura de Campinas finalmente assumirá a posse definitiva do imóvel, tombado como patrimônio histórico e símbolo da expansão do café e do transporte ferroviário no interior paulista.
A autorização do prefeito Dário Saadi (Republicanos) para receber a doação do Governo do Estado de São Paulo foi publicada na edição de ontem (6) do Diário Oficial do Município. O despacho determina que a secretaria Municipal de Trabalho e Renda tome as providências legais para a transferência da posse do edifício, construído entre 1891 e 1910 para abrigar a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, empresa essencial para o escoamento da produção cafeeira da região.
A Administração municipal informou que iniciará estudos para definir a nova ocupação do local e buscar formas de financiamento para custear as obras necessárias. Atualmente, o palácio abriga o Cpat (Centro Público de Apoio ao Trabalhador) e a CDL (Câmara dos Dirigentes Lojistas de Campinas).
“O imóvel será destinado à secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, que está iniciando os estudos para definir com que serviço o local poderá ser ocupado, bem como meios de financiamento para custear as obras necessárias para o uso do palácio”,
informou a Prefeitura ao acidade on.
O Cpat deverá ser transferido em 2026 para o novo Palácio da Cidade, que funcionará no antigo Palácio da Justiça, reunindo cerca de 60 serviços públicos e 300 servidores, com expectativa de atendimento mensal de 30 mil pessoas. O CDL deve permanecer no imóvel até que o novo destino seja definido.
Palácio da Mogiana espera por restauro há anos
Apesar de sua relevância histórica, o Palácio da Mogiana enfrenta sérios problemas estruturais. Infiltrações e danos no telhado levaram ao fechamento do terceiro andar, e parte da escadaria lateral também está comprometida.
Projetado pelos arquitetos Rabelo Leite e Rene Reneud, o edifício foi erguido em etapas, com os primeiros pavilhões datados de 1891, e combina elementos ecléticos e influências neoclássicas.
De acordo com o arquiteto e especialista em urbanização João Verde, que estuda a história e o patrimônio arquitetônico de Campinas, a transferência da posse para o município abre uma oportunidade real de preservação — mas não é garantia de restauro.
“Estando na posse da Prefeitura, ela tem condições de fazer o restauro. Agora, precisa ver se vai haver o restauro mesmo. Aquele prédio está esperando há pelo menos uns 25 anos”,
disse.





‘Deram só um tapa na fachada’
O arquiteto critica a intervenção feita em 2009, muitas vezes citada como “restauração”. Segundo ele, não houve obras estruturais, apenas pintura de fachada.
“Na arquitetura a gente usa um termo assim: deram um tapa no prédio. Não foi restauro. O telhado não foi restaurado, foi uma simples pintura para embelezar a fachada”,
afirmou.
Ele lembra ainda de elementos ornamentais com ramos e frutos de café que decoravam o topo do edifício, em referência à ferrovia que impulsionou o transporte do grão.
“Esses detalhes, que antes eram pintados de verde e vermelho, desabaram com o tempo. Sol, chuva e falta de manutenção acabam destruindo tudo”,
completou.
Para o arquiteto, a prioridade deve ser a estabilização da estrutura, com reforma completa do telhado, revisão das infiltrações e restauro das peças originais.
“Tudo depende de manutenção. E se não há cuidado, o problema vai se agravando cada vez mais.”
Importância urbanística e simbólica
Do ponto de vista urbanístico, João Verde ressalta que a reativação do Palácio da Mogiana pode representar um impulso importante para o Centro de Campinas, área que concentra parte do patrimônio histórico mais expressivo da cidade.
“Esse prédio foi sede da Companhia Mogiana, que durante 60 ou 70 anos foi a maior empresa da cidade, a que mais empregava. É um edifício com enorme valor histórico e simbólico”,
destacou.
O arquiteto lembra ainda que o prédio foi estrategicamente construído fora do pátio ferroviário, afastado das oficinas e das áreas operárias, o que reflete a divisão social da época.
“Ele está ali na Campos Sales justamente para ficar próximo ao sistema bancário, às decisões administrativas, distante das reivindicações dos trabalhadores”,
explica.
Para ele, restaurar o prédio e mantê-lo ativo é uma forma de reconectar o Centro com sua memória ferroviária. “Todos os prédios históricos são importantes, mas precisam ser bem restaurados e utilizados. Não adianta fazer pintura e deixar trancado. A preservação só existe se houver uso”, afirmou.
Verde também faz um alerta: sem um uso definido e sustentável, o prédio corre o risco de repetir a história de outros imóveis públicos degradados.
“A utilização do prédio é que vai trazer a possibilidade de uma vida longa para ele. Se não tiver uso, vai estar fadado novamente a ter problemas de manutenção”, afirmou.
Ele cita o exemplo da Estação Cultura, outro patrimônio histórico de Campinas, cuja reforma do telhado foi paralisada há meses.
“Praticamente não temos banheiros decentes lá. É uma tristeza um prédio daquele não ter conforto nenhum para abrigar atividades culturais”,
criticou.
Segundo o arquiteto, o Palácio da Mogiana precisa ter uma função que o mantenha vivo e que o torne acessível à população.
“É importante restaurar aquele prédio, mas também é essencial contar à população o que ele significa. Muitos prédios em Campinas não explicam sua história, e as pessoas passam sem saber sua importância.”
‘Marco da requalificação do Centro Histórico’
A arquiteta e urbanista Maria Rita Amoroso, doutora pela Unicamp e ex-diretora de Patrimônio do IAB-Campinas, também destaca o papel simbólico do edifício na paisagem urbana campineira.
“O Palácio da Mogiana é um marco importante da história da nossa cidade principalmente quando se refere a urbanização pois sofreu uma perda significativa de uma parte importante do prédio quando da implantação do Plano de Avenidas de Prestes Maia. Hoje ele continua se mantendo majestosamente junto ao principal eixo urbano do Centro Histórico, a Av. Campos Sales”,
afirmou Maria Rita, que atualmente integra o Projeto LAB-Campinas (Laboratório de Preservação Arquitetônico e das Áreas Urbanas)
Segundo ela, o edifício continua sendo uma referência da preservação e “um marco da requalificação do Centro Histórico”.
Maria Rita lembra ainda a importância de se usar os marcos históricos como motores de transformação urbana, citando o arquiteto Jaime Lerner:
“Os centros históricos de nossas cidades devem fazer intervenções urbanas se utilizando desses marcos históricos como motor das mudanças e fortalecendo pontos estratégicos de desenvolvimento.”
‘Complexo que conta a história de Campinas’
A arquiteta Ana Villanueva reforça a importância urbanística do restauro dentro de um contexto mais amplo do Centro.
“Do ponto de vista urbanístico e para a requalificação do centro é muito importante. Existe um conjunto arquitetônico histórico que vai desde o Largo do Rosário, com o antigo Palácio de Justiça que agora está sendo utilizado e restaurado pela Prefeitura, o antigo Hotel Vitória que já foi o Centro Cultural Evolução nos anos 90, a Catedral de Campinas, o Palácio dos Azulejos e na avenida Andrade Neves, com a Estação Cultura, o Museu da Cidade e a Escola Orozimbo Maia”,
destacou.
Segundo ela, “todo este patrimônio juntamente ao Palácio da Mogiana formam um grande complexo que contam a história de Campinas através da arquitetura”.
‘Uso correto irá protegê-lo para as futuras gerações’
Para Maria Rita Amoroso, garantir o uso sustentável passa por planejamento técnico cuidadoso.
“Na verdade, o que ele deve fazer é um projeto de estudo multicriterial com profissionais habilitados em conservação e restauro para saber o real destino do prédio para depois iniciar o projeto de restauro propriamente dito”,
afirmou.
Ela ressalta que “o uso correto irá protegê-lo para as futuras gerações e poderá incentivar outras intervenções no Centro Histórico”.
A arquiteta também defende que o poder público aja com rapidez e clareza após assumir a posse:
“Caberá ao Município verificar suas metas para quando receber essa posse agir rapidamente e ter vontade de intervir de forma adequada. Buscar verbas para o restauro e fazer a Reabilitação do Palácio da Mogiana valorizando sua história desde sua fundação e mostrar que a luta para obter essa transferência valeu a pena.”
Ana Villanueva também reforça a necessidade de definir um uso que garanta vitalidade ao prédio sem comprometer sua estrutura original.
“A garantia de um uso importante para a cidade que traga um fluxo de pessoas mas que ao mesmo tempo respeite as estruturas originárias do edifício. Estes princípios estão presentes na Carta de Veneza, de 1964, que estipulou os critérios para intervenção em edifícios de interesse histórico”,
afirmou.
Símbolo da era ferroviária
O Palácio da Mogiana é um dos últimos marcos da era ferroviária que moldou Campinas no final do século XIX. A Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e Navegação foi a primeira ferrovia a atingir a fronteira entre São Paulo e Minas Gerais, responsável por impulsionar a ocupação do norte paulista e do sul mineiro.
Em 1872, antes da Mogiana, a cidade já havia recebido a Companhia Paulista de Estrada de Ferro, que construiu as primeiras oficinas e estações onde hoje fica a Estação Cultura, a apenas 650 metros do palácio.
Essas duas companhias foram pilares do desenvolvimento urbano e econômico de Campinas, transportando o café que alimentava o porto de Santos e a economia do país.
Próximos passos
A Prefeitura de Campinas informou que iniciará estudos técnicos e financeiros para viabilizar a restauração do Palácio da Mogiana e definir novos usos para o espaço, que pode abrigar equipamentos culturais, turísticos ou administrativos.
Quer ficar ligado em tudo o que rola em Campinas? Siga o perfil do acidade on Campinas no Instagram e também no Facebook.
Receba notícias do acidade on Campinas no WhatsApp e fique por dentro de tudo! Basta acessar o link aqui!
Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre Campinas e região por meio do WhatsApp do acidade on Campinas: (19) 97159-8294.
LEIA TAMBÉM NO ACIDADE ON PIRACICABA
Unidades de saúde fecham as portas em Piracicaba e moradores ficam desassistidos
Cinco idosos são resgatados de clínica clandestina na região