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Unicamp obriga família a devolver lanchonete após 30 anos

Casal está aflito com pedido de desocupação da "Natural Sucos"; cantina conhecida do Ciclo Básico I e onde eles estão desde 1989

| ACidadeON Campinas

Andréia, Leandro e Adilson: 30 anos de história vendendo sucos e salgados na Unicamp (Foto: Sarah Brito) 

Uma família que cuida e administra desde 1989 uma lanchonete no Ciclo Básico I, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), corre o risco de sofrer uma espécie de "reintegração de posse" após tentar por três anos manter-se no ponto. Conhecido como "Natural Sucos", o local é famoso entre alunos e professores, tendo o próprio reitor, Marcelo Knobel, como um dos clientes famosos.

Andréia Verissimo Delcaro, de 49 anos, e Adilson Aparecido Delcaro, de 54, estão aflitos com a situação. Tudo começou em 2016, quando foram notificados pela universidade a devolver o ponto que compraram em 89. Na época, era permitida a negociação.

O problema é que, 30 anos depois, é preciso regulamentar o uso do solo público, o que não ocorre no comércio há pelo menos 15 anos. Cientes disto, o casal conta que chegou a procurar a Unicamp para mostrar interesse no ponto.

"Mas eles dizem que o TCE (Tribunal de Contas do Estado) quer uma nova licitação. E isso significa que podemos perder o ponto para alguém que oferecer R$ 100 a mais pelo contrato. Sem experiência alguma. E isso aqui é a minha vida, faz parte da nossa história. Criamos nossos filhos aqui", disse Andréia.

O comércio fica em frente ao IF (Instituto de Física) da Unicamp. Nesta semana, o caso ganhou repercussão após o filho Leandro, de 22 anos, postar no Facebook a história dos pais e o fechamento a qualquer momento da lanchonete. "Eu não imaginava que ia dar essa repercussão. Mas mostra o quanto eles são queridos", disse. Além de Leandro, o casal ainda criou outro filho, de 15, com o trabalho da lanchonete.

A mãe se emociona ao falar da "Natural Sucos", que hoje emprega ainda cinco funcionárias e é aberta das 8h às 19h pelo marido. "A gente sabe que vai ter que sair, mas é muito dolorido. Nosso advogado levou o máximo que pôde. Todos os comentários que vi na postagem são de gente que gostam da gente e vêem que fazemos um bom trabalho", disse.  

OUTRAS LANCHONETES

O casal conta que muitos outros pequenos comerciantes que tinham lanchonetes na Unicamp também passaram pelo mesmo processo nos últimos anos. O problema, segundo eles, é que muitos pontos comerciais continuaram fechados. Apesar da nova licitação, alguns dos novos donos optam por mantê-las fechadas.

"É um negócio difícil. São três meses de férias por ano, com feriados prolongados, além de que a gente, por exemplo, fica ao lado de uma feirinha que traz opções de comidas duas vezes por semana. É complicado gerenciar tudo isso, sem contar o aluguel caro", disse Adilson.

O ponto da "Natural Sucos" custa em torno de R$ 2 mil por mês, mas há locais que somam mais de R$ 20 mil o custo mensal de locação. O casal explicou que desde que a ação começou, a Unicamp não aceitou mais o pagamento de aluguel, água e luz dos dois. "A gente pediu para pagar, mas eles não querem. Estamos guardando o dinheiro, pois uma hora vem de uma vez", disse.

Além da preocupação financeira, o casal ainda teme que a possível reintegração de posse seja feito com uso de policiais. "Pode ser a qualquer hora", disse a proprietária.  



O PONTO

Com filas para consumir a coxinha e as opções de suco natural feitos na hora, a lanchonete é frequentada por alunos de vários cursos.

"É um dos vazios da minha graduação. Na minha faculdade, a gente não tem cantina. E, mesmo quando tinha, a gente já vinha aqui. É um local de encontro dos amigos. Eles fazem coisas gostosas em um espaço tão pequeno, com um capricho e uma limpeza que não tem na Unicamp", disse o estudante de física Lucas Nascimento, de 21 anos.

Já os professores da Química, Marco Aurélio e Maria Isabel, também costumam parar na lanchonete para tomar um suco natural e conversar após o expediente. "A gente vem sempre que possível. Quando estou com sede, eu peço suco de melancia. Se estou com fome, é laranja com amora. E como um salgado também. Recomendamos muito", disse o professor.

OUTRO LADO  

A Unicamp comentou o caso em nota oficial. De forma geral, confirmou que notificou a empresa a sair e pediu reintegração de posse do imóvel. A Unicamp não comentou sobre a possibilidade de uso de força policial para tirar os comerciantes da "Natural Sucos". 

A Universidade alegou ainda que pediu o ponto de volta, de fato, por conta de um pedido do TCE, devido a necessidade de licitação dos pontos comerciais. Hoje, existem 15 lanchonetes funcionando na Unicamp, de um total de 24.

Leia a nota na íntegra:

"A propósito do fechamento da Casa de Sucos, a Unicamp esclarece que, em atendimento à uma determinação do E. Tribunal de Contas do Estado de São Paulo TCESP, no sentido de que a exploração de uso dos espaços físicos seja formalizada mediante processo licitatório, nos termos da Lei Federal n.º 8666/93, a empresa foi notificada, em 04/08/2016, para desocupar o imóvel em pauta no prazo de 90 dias. Em razão da inércia da mesma em atender à determinação de desocupação, a autorização de uso daquele espaço foi revogada em 23/01/2017. Mesmo após tomar conhecimento da revogação da autorização de uso, a empresa insistiu no funcionamento do ponto comercial, o que levou a universidade a buscar judicialmente a reintegração de posse do imóvel, processo esse que se encontra em fase de cumprimento de sentença.

Cabe informar, ainda, que de 2009 a 2011 a Unicamp foi notificada pelo TCESP, através dos processos TC-002728/026/09, TC-001746/026/10 e TC-000196/026/11, sobre a necessidade de realização de licitação para exploração de pontos comerciais dentro dos seus campi. Ainda em 2009, a universidade deu início aos trabalhos para regularização desses pontos comerciais através de realização de licitações objetivando a autorização de uso dos seus espaços físicos a título precário.

Dos vinte e quatro estabelecimentos comerciais de alimentação existentes atualmente, quinze estão funcionando normalmente, um está em fase de instalação, seis estão em processo de licitação e dois estão fechados em razão dos prédios não atenderem às normas vigentes.

Importante destacar que a Unicamp instituiu um grupo de trabalho para tratar da temática. O estudo, além de buscar soluções para mitigar os problemas atualmente enfrentados, pretende oferecer novas alternativas no ramo de alimentação para a comunidade universitária".

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