Aguarde...

ACidadeON

Voltar

cotidiano

De repente cego, jovem dá exemplo no Dia da Pessoa com Deficiência

Há pouco mais de um ano, Jefferson Rodrigues acordou sem poder enxergar. E usou sua deficiência como combustível para uma nova vida

| ACidadeON Campinas

Jefferson Rodrigues: "Até fui no psicólogo, mas disseram que eu estava ótimo" (Foto: Reprodução/Redes sociais) 

No dia 7 de junho do ano passado, um domingo, Jefferson Rodrigues estava dedicado ao seu trabalho de conclusão da faculdade de publicidade, na Metrocamp.

Empenhado naquele momento da graduação que enlouquece os estudantes, passou o dia revisando o trabalho. Ao acordar, na segunda-feira, não enxergava mais nada. Ficou cego. Cego, aos 22 anos, sem motivo aparente. Nenhuma doença em seu histórico. Era doador de medula, de sangue, fazia exames regularmente com resultados saudáveis. Trabalhava e estudava normalmente.

Desde aquela segunda-feira, a vida de Jefferson mudou. Mas mudou de perspectiva. Nada de depressão, tristeza ou medo de encarar a nova realidade. Correu atrás para garantir que todos os sonhos que tinha quando enxergava normalmente pudessem fluir. Jefferson foi atingido pela Síndrome de Devic, uma moléstia rara e, talvez, irreversível.

No Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, nesta terça-feira (3), Jefferson é um exemplo. Aprendeu a ler em Braille, fez curso de mobilidade para ter autonomia nas ruas e, agora, trabalha na produção de conteúdo para a Agência Mandinga da Favela, um coletivo que produz conteúdos nos mais diversos formatos, e do qual é um dos integrantes.

Morador do Parque Oziel, conseguiu terminar a faculdade. A festa de formatura foi no último mês de março. Fez todas as provas. Tirou 9,5 no TCC (Trabalho de Conclusão do Curso). Agora ele quer voltar para as aulas de inglês, escolher uma pós-graduação e fazer um intercâmbio internacional.

Para falar sobre diversos assuntos, inclusive a deficiência visual, Jefferson também criou um canal com muito humor no Youtube, o "Faz Isso Não". O nome surgiu antes de perder a visão.

"Eu sempre fui da periferia e sempre tive gente querendo me moldar dizendo: 'Faz isso não. Não se comporte assim. Não faça dessa forma'. Quando fiquei cego, isso piorou. Achavam que eu tinha que ficar deitado, dentro de casa", disse.

Em um dos vídeos, Jefferson responde dúvidas de um estudante de Minas Gerais sobre a deficiência. Uma delas é: Como um cego sabe que acordou? "Esse jovem colocou a pergunta em um grupo de deficientes na internet. Queria saber mais para fazer o seu trabalho da escola. Vi muitas críticas de pessoas cegas que se incomodaram com esses questionamentos. Mas eu acho que todas as perguntas são válidas e devem ser feitas. Só assim quebramos tabus e rompemos preconceitos".

A HISTÓRIA DE JEFFERSON

Quando vai explicar a sua história de vida, Jefferson ri e a compara a uma novela no estilo mexicano. Ele nasceu em Serra Talhada, em Pernambuco. Quando fez um ano, a mãe resolveu mudar para Campinas.

O pai já morava em Valinhos. Passaram a viver no Parque Oziel. Na época, a área tinha sido recentemente ocupada. O Parque Oziel já foi considerado a maior ocupação da América Latina.

Cresceu em uma área periférica de Campinas que só recentemente passou a ter o mínimo de atenção do poder público, com escolas, unidades de saúde e asfalto. A mãe, dona Marilene, nunca conseguiu estudar, mas sempre disse que os filhos não passariam por isso. "Minha mãe sempre falou: escolha qualquer coisa, mas você vai estudar, menino".

O resultado foi que ele entrou na faculdade aos 17 anos. Campinas não tem curso de publicidade em universidades públicas. Colocando na ponta do lápis, os gastos que teria para fazer o curso na Federal de São Carlos, por exemplo, seriam maiores do que tentar uma bolsa em uma universidade particular da cidade. E foi o que ele fez.

Conseguiu uma bolsa parcial, trabalhou como jovem aprendiz, pagou os estudos e hoje tem o diploma. Dona Marilene também merece destaque nessa história. Ela nasceu no Sítio da Onça, no Piauí. Quando tinha 7 anos, foi sequestrada e vendida para uma família em Serra Talhada. Nunca mais teve notícias da sua família biológica.

"Daí eu fiquei cego. Tinha bastante tempo ocioso e intensifiquei as buscas pela família da minha mãe. E não é que achamos? Encontramos os seus seis irmãos e a minha avó. Eles estavam morando em São Paulo também. Encontramos pelas redes sociais, perguntando para várias pessoas até conseguir achar. Eles sempre procuraram pela minha mãe, mas como a certidão de nascimento dela tinha sido falsificada, eles não conseguiam encontrar. Promovemos esse reencontro que foi cheio de emoção", disse Jefferson, como que para comprovar que ganhou também novos olhos - e muito eficientes.

"Não entrei em depressão quando fiquei cego. Até fui no psicólogo. Queria deitar no divã e conversar sobre a minha vida. Mas disseram que eu estava ótimo. Então, fui direto aprender coisas que pudessem facilitar o meu dia a dia", ri o publicitário.  



OS DESAFIOS DA INCLUSÃO

Jefferson continua vivendo no Oziel, com dedicação aos projetos da agência. Um dos focos é falar sobre os jovens e o mercado de trabalho. Já aprendeu a ler pelo sistema Braille e usa com facilidade as ferramentas de inclusão para realizar seus trabalhos.

Sempre foi apaixonado por vídeos, fotos. Continua a sua caminhada, enxergando todas as oportunidades e pedindo luz para novas saídas. Ele critica a falta de estrutura da cidade para os deficientes e está no processo para conseguir o seu cão-guia de uma ONG de Sorocaba. Jefferson concorre com outros 390 candidatos.

A DOENÇA

Naquela segunda-feira de junho do ano passado - quando acordou sem conseguir enxergar nada -, para não preocupar a mãe, Jefferson disse que estava com dificuldades na vista e pediu para ir ao médico. Fez uma longa consulta até ouvir que poderia ter uma síndrome rara. Foi encaminhado ao Hospital de Clínicas da Unicamp. Ficou 30 dias internado, até que veio o diagnóstico: Síndrome de Devic.

"Essa síndrome pode causar diversas doenças. No meu caso, atacou o nervo óptico. Imagina uma lanterna que está funcionando normalmente e então, um fio se rompe. O fio, nesse caso, é o nervo óptico. A ciência hoje até consegue tratar nervos musculares, mas ainda não existe solução para o meu problema. Nem com um transplante", conta Jefferson.

Em outubro do ano passado, houve uma nova reviravolta na família. Dessa vez, foi com dona Marilene. A mãe de Jefferson acordou sem movimentos do pescoço para baixo. Também tinha a doença. Mas no caso dela, após um tratamento, ela se recuperou.

"Os nervos musculares são mais resistentes. É possível que mais gente da família tenha a doença. Minha mãe ficou dois meses na Unicamp, mas já está recuperada".

A síndrome de Devic ou neuromielite óptica é uma doença inflamatória que ataca o sistema nervoso central, principalmente os nervos ópticos e a medula espinhal. Ela causa a diminuição da visão e dificuldade para andar, dormência nos braços e nas pernas.

É uma doença autoimune ou de autoagressão, em que o organismo produz anticorpos que atacam componentes de seus próprios tecidos. Hoje, mãe e filho realizam tratamentos e estão com a doença controlada. 

O DIA  

O Dia Mundial da Pessoa com Deficiência é comemorado anualmente hoje, dia 3 de dezembro. A data tem o objetivo de informar a população sobre todos os assuntos relacionados a deficiência, seja ela física ou mental. 

Além disso, busca também conscientizar as pessoas sobre a importância de inserir as pessoas com deficiência em diferentes aspectos da vida social, como a política, a econômica e a cultural. 

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas, aproximadamente 10% da população mundial tem alguma deficiência.
A principal ideia desta data é refletir (e pôr em prática) os melhores métodos para garantir uma boa qualidade de vida e dignidade para todas as pessoas que sofrem com algum tipo de deficiência.

Comentários

"O site não se responsabiliza pela opinião dos autores. Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do ACidade ON. Serão vetados os comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. ACidade ON poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios deste aviso."

Facebook

Mais do ACidade ON