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Coronavírus: campineiros na China relatam medo e confinamento

O surto de coronavírus, originado na China, acendeu o alerta e já espalha medo pelo mundo

| ACidadeON Campinas


Os estudantes Luis Filipe e Cleyton Lino: momentos de medo na China (Foto: Arquivo Pessoal)

O surto de coronavírus, originado na China, acendeu o alerta e já espalha medo pelo mundo. De acordo com números atualizados pela Comissão Nacional de Saúde da República Popular da China e divulgados nesta terça-feira (28), mais de 4 mil pessoas já foram infectadas, e ao menos cem morreram desde o início do surto, em dezembro do ano passado.  

Campineiros que vivem e estudam na China relatam medo, insegurança, cidades desertas e situação de confinamento. "A situação diária é de reclusão. Conforme os dias vão passando, eles aumentam a necessidade de nos deixar dentro de casa o maior tempo possível", afirmou Luis Filipe Broleze, estudante de 26 anos que mora no alojamento de uma universidade na China desde setembro do ano passado. 

O alojamento fica na província de Fuzhou, distante cerca de 700 quilômetros de Wuhan, cidade que originou o surto de coronavírus. Apesar da distância entre as cidades, e dos poucos casos da doença registrados na área são cerca de 30 casos confirmados em Fuzhou - a orientação recebida pelo estudante é para evitar sair de casa.   

Luis Filipe Broleze, estudante de 26 anos, mora na China desde o ano passado (Foto: Arquivo Pessoal)

CONFINAMENTO
 
O jovem que em Campinas morava no distrito de Barão Geraldo e se mudou para o país depois de ser selecionado em um programa de bolsas de estudo da Prefeitura de Campinas em parceria com a Universidade de Minjiang em setembro do ano passado. Ele afirmou que ainda está em período de férias do curso. "É difícil ficar dentro do quarto, só esperando o tempo passar", disse. 

Assim como ele, Cleyton Lino, também estudante do mesmo programa da Prefeitura, segue o mesmo isolamento no país. "Não vemos ninguém na rua. Ontem, peguei ônibus com uma amiga, passamos por sete estações e ninguém entrou. Era só a gente no ônibus, foi estranho", disse.  

Eles contam que a orientação é para que não saiam de casa. Caso não consigam evitar, devem sempre usar uma máscara de proteção. "Quem não veste a máscara é impedido de entrar no transporte público", explicou Cleyton. 

A necessidade de confinamento e a distância da família pesam ainda mais na situação. "Tem notícia o tempo todo, mas são 12 horas de diferença no fuso com o Brasil. Então nem sempre respondo na hora, o que acaba preocupando minha família", explica Cleyton. "A gente tenta acalmar. Mesmo porque que a situação está bem controlada."  
 
A Prefeitura de Campinas informou que tem mantido contato com os estudantes da cidade e que solicitou informações à universidade e Prefeitura de Fuzhou sobre quais as providências estão sendo tomadas em relação aos estudantes de Campinas (leia nota abaixo).

MAIS RESTRIÇÃO
 
Os estudantes contaram que hoje a necessidade de confinamento se intensificou. "A universidade fez a primeira entrega de alimentos e produtos aos estudantes. Pediram que fizéssemos uma lista com os itens que precisávamos e a universidade foi comprar para a gente", afirmou Luis. 

"O que começou como algo para se evitar, passou a precisar de autorização: a universidade controla quem entra e sai do campus. A recomendação atual, inclusive, é que quem sair não volte até o retorno das aulas", enfatizou Luis.  

Outra recomendação da universidade, também divulgada nesta terça-feira (28), é que aqueles que saírem do campus evitem retornar até o dia 16 de fevereiro, quando a universidade pretende ter uma data para divulgar o retorno das aulas. "É uma recomendação que soa muito como uma imposição", afirmou o estudante. 

MUDANÇAS DE PLANOS
 
A intenção dos estudantes era aproveitar o período de férias do curso para viajar e conhecer o país. "É impossível sair para fazer passeios turísticos ou visitar outras cidades. Todos os passeios para Xangai e Pequim foram cancelados. Teve gente que chegou a ir até estes lugares e precisou voltar, pois todos os lugares estavam fechados para visitação", disse Cleyton. 

Isolado no quarto e sem certeza do futuro do curso, Cleyton não pretende abandonar o programa, mas planeja sair da China nas próximas semanas, ainda durante o período de férias. "Minha ideia é passar essas semanas na Coreia do Sul até que a situação volte ao normal", disse. Segundo ele, muitas pessoas do curso planejam fazer o mesmo. 

Luis também pretende sair da China. "Vou para a Tailândia dia 4 e fico lá até dia 13. Caso a universidade chegue à conclusão de que a volta do semestre demore pelo menos mais um mês, eu volto para o Brasil", disse. 

Nenhum dos dois quer interromper o curso. Mesmo Luis, que planeja voltar ao Brasil caso a situação se estenda por ainda mais tempo, pretende voltar à China para terminar o curso. "Voltaria pra dar continuidade. Seria muito desperdiço de semestre não voltar", disse.  


 

O CURSO
 
Em janeiro de 2019, a Prefeitura de Campinas anunciou um programa de bolsas de estudos na China. Gratuito, o curso recebeu inscrições de moradores de Campinas formados em qualquer curso. A formação tem duração de dois anos e oferece 12 cursos especializados, como gestão de projetos, análise de negócios, economia gerencial e estudo da língua chinesa, entre outros. Além destas, estarão disponíveis seis matérias eletivas, entre elas "Inovação do Modelo de Negócios" e "Mercado Empreendedor e Capital de Risco". 

Em setembro do mesmo ano, depois de diversas etapas de um processo seletivo, oito candidatos foram selecionados. Eles se mudaram para a província de Fuzhou, na China, com direito a moradia no alojamento da universidade, além de uma bolsa mensal de 2 mil iuanes, a moeda chinesa, equivalente a cerca de R$ 1.100.  
 
PREFEITURA DE CAMPINAS
 
Por meio de nota a Prefeitura de Campinas informou que tem mantido contato com os estudantes da cidade, aprovados pela Universidade de Minjiang, em Fuzhou, e buscado responder seus questionamentos. A Prefeitura também solicitou informações à universidade e Prefeitura de Fuzhou sobre quais as providências estão sendo tomadas em relação aos estudantes de Campinas. 

A nota ainda afirma que a orientação aos estudantes, por parte da Prefeitura, é que eles sigam as instruções do governo local de Fuzhou e das autoridades da saúde pública chinesa.  

NO BRASIL  

O Ministério da Saúde confirmou hoje (28) o primeiro caso suspeito de coronavírus no país e elevou o nível de atenção para alerta de perigo iminente para a presença do vírus no país. De acordo com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, uma estudante de 22 anos que esteve na China está internada, em Belo Horizonte, em observação.  

"O que muda é o grau de vigilância nessa fase. Aumenta a nossa vigilância de portos e aeroportos, triagem de pacientes, o uso de determinado equipamentos de proteção, mas o nosso foco principal nesta fase é a vigilância", disse Mandetta, em entrevista coletiva para falar sobre as medidas tomadas pelo governo para evitar a entrada do vírus no país. 

"Nessa fase a gente tem um olhar com muito mais atenção para dentro do país, para identificar se o vírus está circulando em território nacional, e outro [olhar] muito presente em informações técnicas e científicas a respeito do comportamento do vírus", disse Mandetta.

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