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Bambuzal é herança de Barão Geraldo de Rezende no IAC

Plantação teria sido enfileirada ao lado de estrada para que o sol não incomodasse a filha albina do antigo barão

| ACidadeON Campinas

Plantação teria sido enfileirada ao lado de estrada para que o sol não incomodasse a filha albina do antigo barão. (Foto: ACidade ON Campinas)

A Fazenda Santa Elisa guarda muita história, além dos experimentos do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Quem passa sobre a ponte Dr. Guilherme Campos no cruzamento da Rodovia D. Pedro I (SP-65) com a Rodovia Milton Tavares de Lima, o Tapetão, consegue até hoje ver uma fileira de bambus plantados no século 19 nas terras da fazenda. Na época em que poucos barões de café dominavam a cena política e econômica do município, fatos se misturavam com os "causos", passados de boca a boca pelos moradores, e um deles é sobre a origem desses bambus.

Dizem que o bambuzal foi criado pelo Barão Geraldo de Rezende, dono da Santa Elisa e da extensa Fazenda Santa Genebra, para proteger do sol uma de suas filhas, supostamente albina, em seus passeios para o Centro da cidade. Na época, o local ainda teria lírios para tornar o passeio mais agradável.

O ACidade ON esteve no local e conversou com um dos funcionários mais antigos do IAC, José Fernando Vital, técnico em pesquisa tecnológica, sobre a origem dos bambus. Vital conhece as terras como a palma da sua mão: sabe onde fica cada pé café, seringueira ou planta exótica, e tem um carinho especial pelo caminho de bambus, tratados com muito cuidado.  



O bambuzal que começa perto da sede da fazenda e vai até as margens da D. Pedro, no distrito de Barão Geraldo, está intacto, cortando os 692 hectares da Santa Elisa. Há falhas em alguns trechos, mas a direção do IAC tem uma preocupação especial para mantê-lo íntegro.

A estrada que hoje fica entre as plantações, de café, soja, e feijão do instituto ainda é de terra, quase no mesmo estado de quando era utilizada nos anos 1800 pela família do Barão e pelas comitivas reais que passavam pelo local. O bambuzal sofreu diversos incêndios, foi danificado pela microexplosão, fenômeno que devastou parte da cidade em 2016, mas continua se regenerando.

Vital explicou que por essa estrada passaram diversas vezes D. Pedro II, amigo pessoal do Barão de Rezende, além de autoridades internacionais que ficavam na fazenda quando estavam em visita ao Brasil. "O Barão colocou os bambus para fazer a avenida sombreada. O que eu sei é isso: ele tinha uma filha com problema de pele e que não podia tomar sol. Então ela usava essa estrada para ir ao médico, fazer compras na cidade", disse Vital.

FATOS

Planta exótica da China, não há registros de como o Barão conseguiu o bambu, ou se ele realmente teve uma filha albina. Em seu livro "Um Idealizador Realizador", uma de suas filhas, Amélia de Rezende Martins, não cita o fato de ter tido um irmã com albinismo.

Outra estória é que o Barão teria feito a estrada com os bambus para não precisar cruzar com o conselheiro Albino José Barbosa de Oliveira, proprietário da Fazenda Rio das Pedras. Mas diversas outras publicações históricas relatam uma boa relação entre os dois.

O presidente do Instituto Histórico geográfico e genealógico de Campinas, Fernando Antônio Abrahão, afirmou que muitos boatos envolvendo a vida da família do Barão são passados de geração em geração, mas sem qualquer registro oficial. A da estrada do bambuzal é um deles. "A verdade é que não tem nada que comprove categoricamente que o Barão teve essa filha. Ele teve alguns filhos que morreram crianças, bebês... Agora em relação à inimizade com Albino José Barbosa de Oliveira, isso é realmente uma lenda sem fundamento", falou Abrahão.

Oliveira era primo de segundo grau e sogro do Barão Geraldo. "A população gosta de repassar as histórias que acham mais interessantes. E o Barão Geraldo é sem dúvidas uma fonte enorme de causos de Campinas, porque era um homem poderoso e dono de metade da cidade."

MORTE

Barão Geraldo foi um aristocrata com muita iniciativa e conexões políticas na cidade. Intimamente ligado a Dom Pedro II, foi contra a República e era escravocrata. Foi pioneiro no uso em nova tecnologias de colheita e produção de café no Brasil e figura fundamental para a construção da Estrada de Ferro Funilense.  

No entanto, suas realizações tiveram um custo e ele teve um fim amargo. A manutenção de um alto padrão de vida aristocrático, o desenvolvimento do maquinário da Santa Genebra e os investimentos na Companhia Carril o levaram a falência. A história oficial relata sua morte em 1907 por insuficiência cardíaca aos 61 anos. Mas há registros concretos que ele teria se suicidado com veneno, logo após vender a Santa Genebra a Lins de Vasconcelos. 


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