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Motoboys fazem protesto em condomínio de acusado de racismo

Hoje cedo o grupo, com cerca de cem entregadores, fez um buzinaço em frente ao residencial, que fica no bairro Chácaras Silvania

| ACidadeON Campinas

Protesto de motoboys em frente a condomínio de Valinhos. (Foto: Luciano Claudino/Código 19)

Um grupo de motoboys de Campinas e Valinhos se reuniu hoje (8) cedo para fazer um protesto em frente ao condomínio do homem que fez ofensas racistas a um motoboy que estava fazendo uma entrega em sua casa em Valinhos. O caso ocorreu no final de julho, mas o vídeo com as ofensas viralizou ontem nas redes sociais. A vítima fez um boletim de ocorrência na Polícia Civil.

Hoje cedo o grupo, com cerca de cem entregadores, fez um buzinaço em frente ao residencial, que fica no bairro Chácaras Silvânia. A manifestação durou cerca de 30 minutos e foi pacífica.

Ontem, o delegado responsável pelo caso, Luis Henrique Apocalypse Joia, disse que pedirá à família do acusado o laudo médico atestando que ele sofre de esquizofrenia. A informação da doença mental consta no boletim de ocorrência do caso. "A polícia não tem o documento de esquizofrenia. Mas constou no boletim que o pai teria exibido o documento. Vamos solicitar assim que houver representação por parte da vítima", explicou. Segundo Joia, o motoboy tem seis meses para representar criminalmente seu agressor, o que fará com que seja aberto um inquérito policial.  



Caso isso ocorra, o crime de injúria racial - como foi tipificado - será investigado e o agressor pode pegar até 3 anos de prisão, além de ter de pagar multa. Como é réu primário, o delegado disse que isso pode significar uma pena em liberdade. Caso comprovada a esquizofrenia, seria aplicada uma medida de segurança.

ENTENDA O CASO 

Quando Matheus Pires Barbosa, 19, falou para os outros colegas entregadores do IFood o endereço da próxima entrega que faria, em um condomínio de Valinhos, no dia 31 de julho, ouviu: "Boa sorte". O cliente que receberia o pedido era conhecido por alguns deles por exigir que caminhassem até a porta da casa com a entrega, enquanto a maioria das pessoas costumava esperar junto ao portão da residência. Matheus resolveu então comentar com o cliente, em tom de brincadeira, a impressão que ele havia deixado nos outros trabalhadores. O nome do acusado é Mateus Almeida Prado.

Um vídeo registrado por uma testemunha, da discussão aberta entre eles a partir disso, viralizou nas redes sociais nesta sexta-feira (7), com o homem chamando o entregador de lixo e inferindo que ele teria inveja da pele branca.
O caso foi registrado como injúria racial na delegacia de Valinhos ainda no dia 31 de julho.  

No boletim de ocorrência, Pires diz que o homem começou a ofendê-lo, depois dos comentários, dizendo coisas como: "preto, favelado, pobre, olha seu tênis furado".  

Durante o depoimento que prestou às autoridades, o agressor confirmou o uso dos termos favelado e pobre, mas negou ter feito ofensa com relação à cor do entregador. O registro da ocorrência, porém, afirma que ele voltou a repetir as ofensas diante dos policiais.  

A discussão começou, segundo o cliente, porque o entregador afirmou que ele seria mal falado entre os motoboys. Ele alega ainda que o entregador teria investido contra ele.  

No vídeo de um minuto e meio, o homem declara ao entregador: "Aqui não vai acontecer nada. Com você, lá para a frente, não sei, morou? Você sabe o que vai acontecer no futuro? Desempregado, você trabalha de motoboy, filho".  
 

 


Ele chama Matheus de lixo, semianalfabeto, diz que ele tem inveja das famílias que vivem no condomínio e aponta para o próprio braço, dizendo que o jovem teria inveja também da sua pele branca.  

O entregador questiona o que sua profissão tem a ver e oferece seu telefone para que o homem veja no aplicativo quanto ele recebe com seu trabalho.  

"Eu tenho uma vida fora daqui", diz Matheus. "Eu posso ter a mesma coisa que o senhor. O senhor conseguiu por quê? Por que o seu pai te deu ou por que você trabalhou?".  

Outro homem que também aparece nas imagens pergunta por que eles vão seguir a discussão e Matheus responde que está esperando a viatura da Guarda Civil Municipal, para que o homem não volte a fazer aquilo com outras pessoas.  

O vídeo foi publicado nas redes sociais pela mãe de Matheus, Maria Pires, 43, nesta quinta. Criada por uma mulher negra, ela diz que o filho, que teve o nome inspirado na Bíblia, nunca tinha passado por isso.  

"Não é por dinheiro, não é por nada. É por justiça. Isso tem que parar de acontecer, porque é todo dia um caso assim", afirmou à reportagem.  

"Para mim é a pior coisa do mundo ver meu filho passar por uma situação daquelas, porque a maneira que eu criei meu filho e fui criada, eu aprendi a ter respeito pelo ser humano, não importa classe social ou cor da pele".
Em nota, o IFood diz que baseado nos termos do aplicativo, descadastrou o agressor como usuário e que irá oferecer apoio jurídico e psicológico a Matheus.  

A plataforma também diz que recomenda que haja registro de boletim de ocorrência em casos como este e que se faça contato com a empresa enviando uma cópia.  

"Racismo é crime. O IFood condena qualquer forma de preconceito ou discriminação e por isso presta solidariedade e apoio ao entregador Matheus, vítima do crime racial praticado por um consumidor", diz o texto.
O presidente da República, Jair Bolsonaro, também comentou o ocorrido. "Independentemente das circunstâncias que levaram ao ocorrido, atitudes como esta devem ser totalmente repudiadas", escreveu, em uma rede social. "A miscigenação é uma marca do Brasil. Ninguém é melhor do que ninguém por conta de sua cor, crença, classe social ou opção sexual".  

Até a publicação deste texto, a reportagem não conseguiu contato com o homem que aparece no vídeo ofendendo o entregador.

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