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Especialistas explicam "surto" em sorveteria de Campinas

Vários fatores podem colaborar para a perda de controle das ações, incluindo o cenário de pandemia

| ACidadeON Campinas

Homem ficou furioso após discutir com dona de sorveteria (Foto: Reprodução de vídeo)

Um ataque de raiva. Essa pode ser uma das explicações para o comportamento explosivo do administrador de empresas Rodrigo Ferronato, filmado quebrando cones e agredindo verbalmente a dona de uma sorveteria no último sábado (12), em Campinas. Mas o que leva uma pessoa a manifestar comportamentos como esse mesmo diante das câmeras? 

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Apesar de não ter como afirmar que Rodrigo foi vítima de um surto ou se aquele era um comportamento comum dele, a psicóloga Florença Justino explica que a falta de controle das ações podem sim estar relacionadas a episódios de fúria. Ela acrescenta que eles ocorrem quando a pessoa está no limite ou sendo pressionada por outras razões.

"É como se fosse uma jarra praticamente cheia, que transborda quando você acrescenta mais conteúdo mesmo ela já estando no limite. Os ataques de raiva podem acontecer com qualquer pessoa. Pessoas que estejam muito pressionadas, frustradas e até mesmo que não saibam se comportar para resolver determinadas situações", comenta.

Já a psicóloga clínica e professora da PUC-Campinas, Dra. Diana Tosello Laloni, destaca que a raiva é uma reação emocional diante de uma ameaça sentida como um ataque. De acordo com ela, o comportamento explosivo é aprendido ao longo da vida, como uma forma de defesa ou ainda de alívio das repostas de ansiedade diante dos estímulos aversivos.

"As pessoas não precisam ter um distúrbio para explodirem, a intensidade e a frequência da situação aversiva é que vai determinar a explosão. Alguns têm o "pavio mais curto" em função da sua história de vida. O sentimento de raiva em geral surge diante de uma estimulação aversiva, geralmente produzida por outra pessoa ou quando estamos privados de reforçamento positivo", acrescenta.

Mesmo podendo ocorrer em casos isolados, isto é, em pessoas que não possuem algum tipo de distúrbio, a psicóloga Florença reforça que esse tipo de comportamento é comum em quem sofre de Transtorno Explosivo Intermitente, também conhecido como Síndrome do Hulk. "Uma das características desse transtorno é a dificuldade para controlar a raiva. As pessoas portadoras agem de forma impulsiva e agressiva", explica.

Além da agressividade, outras características da doença são suor, formigamento e tremores musculares; aumento dos batimentos cardíacos; ameaças verbais ou agressividade física a outra pessoa sem um motivo que justifique essa atitude; danos aos próprios pertences ou os dos outros; e sentimento de culpa e vergonha após os episódios.

Florença ainda ressalta que os ataques podem gerar um ciclo, já que eles não afetam somente as pessoas que praticam as ações descontroladas, como também os que recebem ou aqueles que presenciam. "Todos que se relacionam e convivem com ela serão diretamente impactados pelos efeitos que o ataque de raiva tem. No vídeo, por exemplo, a gente vê que as pessoas ficaram nervosas também", exemplifica.  



CULPA DA PANDEMIA?

E a pandemia, será que ela tem colaborado para comportamentos explosivos? A psicóloga Diana Laloni explica que o isolamento social, protocolos a serem cumpridos e a insegurança no trabalho que estão sendo vividos há mais de seis meses favorecem sim as reações emocionais, já que podem ser consideradas situações aversivas.

"Além disso, a falta de consenso nas regras a serem cumpridas estimula o não cumprimento das regras. A situação é confusa desde o início, e os comportamentos de seguir as regras para alguns foram instalados e para outros não, pois não há consequência imediata para segui-lás", pondera.

Em um relatório divulgado em maio, a ONU (Organização das Nações Unidas) já alertava que a pandemia resultaria em uma crise mundial de saúde mental. De acordo com a organização, o isolamento, o medo, a incerteza, e a turbulência econômica são fatores que, desde o início, já alarmavam para uma eclosão de problemas psicológicos.

HOMENS SÃO MAIS EXPLOSIVOS QUE MULHERES?

A professora da PUC-Campinas, Diana Laloni, não acredita que homens podem ser mais explosivos que as mulheres, e vice-versa, já que pra ela o que determina a explosão é a situação do ambiente, bem como a história de vida de cada um. "Mulheres explodem com comportamentos diferentes dos homens, porque assim aprenderam", complementa.

Apesar de a psicóloga Florença Justino também acreditar que os comportamentos se diferenciam de um sexo para outro e que fatores culturais contribuem para isso, ela argumenta que as reações explosivas são mais comuns em homens.

"Acredito que isso se deve ao fato de os homens serem ensinados a guardar as emoções. Como não aprendem a demonstrar consequentemente não sabem o que fazer quando a emoção aparece", destaca.  



É PRECISO PROCURAR TRATAMENTO?

Tanto para Florença quanto para Diana, a necessidade de ajuda profissional deve ser avaliada de acordo com a duração e intensidade dos ataques de raiva. No entanto, elas destacam que a terapia com um psicólogo sempre é bem vinda, uma vez que pode ajudar a pessoa a aprender a lidar com os próprios sentimentos e emoções.

"Eu costumo dizer que uma avaliação profissional é sempre importante, mesmo que seja para descartar a necessidade de tratamento. Neste caso do vídeo, precisaríamos entender como é o padrão de comportamentos dessa pessoa com aquelas que convivem com ela no dia a dia para avaliar a necessidade de um acompanhamento profissional", complementa Florença.

Outra dica que a especialista dá para que os ataques de raiva possam ser controlados, é entender o que faz com que eles aconteçam. Para tanto, ela ressalta que é preciso gerenciar o estresse do dia a dia.

"O gerenciamento do estresse pode ser feito por meio de uma atividade física, realização de atividades prazerosas e até mesmo por meio de um sono adequado. É preciso identificar quais são os fatores estressores e o que pode ser feito para amenizá-los", finaliza. (Com supervisão de Luís Fernando Manzoli)

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