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Vídeo de jovem autista cantando viraliza nas redes sociais

Matheus Cuelbas, de Campinas, foi diagnosticado com autismo aos 14 anos, e aos 20 impressiona com seu talento para música e escrita

| ACidadeON Campinas

Matheus viralizou após cantar "Baba ORiley", da banda britânica The Who (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Certa vez Beethoven (1770-1827), importante compositor alemão, disse que milhares de pessoas cultivam a música, mas que poucas têm a revelação dessa grande arte. Em outras palavras, são raros os artistas que produzem música de forma única e inspiradora, e que são capazes de despertar curiosidade e fascínio em seus ouvintes.  

Com base nos comentários, é bem provável que os milhares de internautas que avaliaram a performance de Matheus Cuelbas nas redes sociais o considerem parte desse seleto grupo citado pelo famoso compositor.  

O jovem de Campinas publicou um vídeo cantando "Baba ORiley", da banda britânica The Who, em sua página do Facebook, e viralizou em questão de dias. O "engajamento repentino", como classificou Matheus, foi motivado por uma publicação feita pela página "Rock Eterno", que divulga talentos da música. 

Acostumado com pouca repercussão, o jovem músico viu seu vídeo ser compartilhado por mais de mil pessoas e escutado por quase 1 milhão. "Não tinha criado qualquer expectativa com aquilo, foi algo que conseguiu juntar as palavras 'fantástico' e 'amedrontado' no mesmo ambiente", disse. 

Matheus se comunica por meio da música desde antes de aprender a falar, e aos 14 anos foi diagnosticado com TEA (Transtorno de Espectro Autista), o que explica o fato de que ele sempre se sentiu mais à vontade com as palavras escritas ou cantadas do que aquelas trocadas em conversas.  

O transtorno de desenvolvimento costuma aparecer logo nos primeiros anos de vida, comprometendo as habilidades comunicacionais e de interação social. No caso de Matheus, ele foi diagnosticado com síndrome de Asperger, a forma mais leve entre os tipos de autismo e que é três vezes mais comum em meninos do que em meninas. 

Normalmente, quem possui a síndrome conta com uma inteligência bastante superior à média e pode ser chamado também de "autismo de alto funcionamento". É comum ainda que pessoas diagnosticadas tenham extremas facilidades em áreas específicas. Matheus, por exemplo, demonstra facilidade com o universo da música. 

"Claro que o Asperger não se limita a isso (dificuldades nas habilidades de convivência), mas essa coisa das habilidades sociais foi o aspecto que mais me causou problemas. A música foi algo muito importante, já que o principal ingrediente de uma interação é justamente o repertório, algo que ajuda a evitar um diálogo monossilábico", comentou em entrevista ao ACidade ON Campinas. 

PRIMEIROS PASSOS 

Apesar de não se lembrar, Matheus conta que sua relação com a música vem desde os 2 anos, sob influência inicial de seu pai. "Quando eu tinha uns 2 anos, meu pai, com um gosto assustadoramente eclético, começou a colocar algumas coisas de MPB (Música Popular Brasileira), umas coisas de Legião Urbana. Quando ele colocou o disco "Heaven and Hell" do Black Sabbath fiquei louco, elétrico", revela. 

Mas a música só começou a fazer parte de fato da vida do jovem aos 14 anos, quando ele se encantou com Raul Seixas. "Após isso, conheci Legião que me levou para o rock internacional, já que Renato (Russo) sempre menciona essas bandas num livro de entrevistas que encontrei na casa da minha avó - o qual lia direto", acrescenta. 

Além de dominar o vocal, Matheus se mostra extremamente habilidoso em compor, atividade que começou a desenvolver aos 14 anos, também por influência de Raul e Legião. 

"Eu fazia letras de duas até cinco páginas. Era um pesadelo tentar colocar qualquer ideia melódica e harmônica. Eu também carecia muito de habilidades vocais e instrumentais, o que possa ter contribuído para essa dificuldade de compor", destaca.  

Matheus já demostrava interesse pela música desde os dois anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas somente dois anos depois de ter começado a escrever as próprias músicas foi que Matheus conseguiu dar vida a sua primeira composição estruturada: a canção "Nordeste Song", cuja letra ocupava quatro páginas. Já em 2017, o jovem se encontrou verdadeiramente ao compor em inglês, pois para ele as palavras da língua inglesa são "menos extensas do que as nossas". 

INSPIRAÇÃO 

Diferente de muitos artistas, que retratam críticas e problemas sociais em suas composições, o jovem se diz muito mais interessado em refletir si mesmo nas canções que cria.  

"O que aproximam minhas composições é o cunho pessoal, reflexivo e quase autobiográfico da maioria deles. Poucas têm um viés crítico, mostrando que o meu estilo de quando tinha 15 anos ainda está escondido em mim. Posso me definir como um arquiteto de tudo que encontro nos buracos que residem em meu ser, polindo os destroços pouco a pouco", pondera. 

Questionado sobre o que o inspira, Matheus deu uma resposta um tanto quanto inesperada: "Inspiração é algo bem misterioso. Já tive ideias de madrugada, no banheiro, enquanto fazia minhas necessidades fisiológicas, ou ao descobrir um novo artista, etc". 

Além da pinta de músico, Matheus também se expressa através de poemas e contos. "Antes da música entrar na minha vida, quem ocupava grande parte do meu coração era a escrita. Comecei a me aventurar nisso aos 11 anos e não parei mais", conta. 

E COMO VOCÊ SE VÊ DAQUI A 10 ANOS? 

"Essa é uma pergunta engraçada! Meu terapeuta propôs essa reflexão uma vez. Bom, me imagino morando sozinho e com uma situação financeira em que poderia dormir tranquilo. Se meus planos para 2024 se concretizarem, aos 30 anos estarei formado (ou quase) numa faculdade de letras (o que iria me agregar muito quanto escritor). Enquanto músico, terei progredido o suficiente para ter meu home studio e gravar de forma profissional. Quanto escritor, pretendo ter publicado uns 5 livros de poemas e uns 2 de prosa", respondeu.  

Além de cantar, Matheus também compõe desde os 14 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

"Já fui um sujeito absurdamente ambicioso: queria aparecer em livros de história, ser o artista mais revolucionário do século 21. Porém, hoje quero apenas sobreviver do meu trabalho (tanto no aspecto literário quanto musical). Quero publicar vários livros, concluir todas as estórias que tenho engavetadas. Seria muito legal passear pela livraria Cultura (por exemplo), avistar um amontoado de papel familiar e dizer: 'Caramba! É o meu amontoado de papel!'", finalizou. 

E se você ficou curioso e quer conhecer outros projetos de Matheus, você poderá o encontrar no Facebook, no Youtube, no Spotify, e em seu blog "Escritor Preguiça".

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