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Estudo da Unicamp sugere que Youtube contribui com fake news sobre vacinas

Pesquisa afirma que plataforma se beneficia com a disseminação de vídeos negacionistas

| ACidadeON Campinas

Estudo da Unicamp analisou vídeos sobre vacinas no Brasil (Foto: Reprodução)

Um estudo realizado por uma estudante da Unicamp evidenciou a necessidade de monitoramento de desinformações transmitidas através da plataforma YouTube- principalmente no que se trata de assuntos relacionados à vacinação.  

A pesquisa, realizada por uma aluna de doutorado do DPCT (Departamento de Política Científica e Tecnológica) do Instituto de Geociências ,foi repercutida pela revista Science no começo deste mês, ressaltando os riscos que esse problema oferece para a população.  

Segundo Dayane Machado, responsável pela pesquisa, o estudo visava verificar se o site estaria combatendo as desinformações sobre vacinas conforme vinha declarando nos últimos meses.  A divulgação do trabalho na revista obrigou a um até mesmo posicionamento do YouTube sobre o artigo. 
 
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Recentemente, a empresa tem sido alvo de uma série de escândalos devido ao seu sistema de recomendação, que privilegia conteúdos extremos e negacionistas, como materiais de extrema direita, terraplanismo, teorias da conspiração, entre outros.  

Segundo um artigo publicado no final de outubro na revista Frontiers, apesar de declarações de comprometimento do YouTube em relação ao combate a desinformações perigosas, aquelas relacionadas a vacinas continuam sendo disseminadas em vídeos em português, gerando lucro para produtores de conteúdo e para a própria plataforma.  

METODOLOGIA  

A pesquisa foi orientada pela professora Leda Gitahy, da Unicamp, e também foi assinada por Alexandre Siqueira, da Universidade de Califórnia, nos Estados Unidos.  

No estudo, o grupo desenvolveu uma metodologia que tentasse simular o comportamento de um usuário que navegasse normalmente pela plataforma, para identificar o que o público possível mente encontraria sobre o tema.  

Para especificar quais desses vídeos continham desinformação, foram criadas seis categorias principais de análise, analisando quesitos de segurança, efetividade, saúde alternativa, moralidade, teorias da conspiração e outros (como liberdade de escolha e apelo emocional).  

A amostra inicial continha 158 vídeos. Desse total, os estudiosos identificaram 52 vídeos em 20 canais com desinformação sobre vacinas. A coleta dos dados foi feita por Alexandre, que integra o Grupo de EDReS (Estudos da Desinformação em Redes Sociais) da Unicamp, do qual a professora Leda é uma das coordenadoras.  

Segundo eles, os vídeos foram salvos em um banco de dados, pois alguns deles poderiam ser derrubados da rede por conta de seu conteúdo. Em seguida foram analisados em cima dos critérios e das propagandas inseridas.

RESULTADOS 

Segundo o grupo, resultado do estudo sugere que o YouTube não tem feito o suficiente para combater a circulação de desinformações sobre vacinas e de certa forma incentiva a produção desse tipo de material através da monetização de conteúdo.  

"Apesar da plataforma já ter se posicionado sobre o combate a conteúdos danosos, vídeos com desinformações sobre vacinas continuam sendo divulgados em português porque há interesses em não retirá-los", afirma Leda Gitahy.  

Segundo a docente, o modelo de negócio da plataforma é movido por cliques e propagandas, o que indica não seria vantajoso para os sites retirarem esses conteúdos do ar.  

De acordo com um relatório recente do Centro de Combate ao Ódio Digital (CCDH) estima, que o Facebook, Instagram, Twitter e YouTube lucram até 1 bilhão de dólares por ano graças ao movimento antivacinação.  

Segundo Dayane, que é a primeira autora do artigo, as principais desinformações encontradas na análise coincidem com as mais populares entre as comunidades de oposição a vacinas: afirmações de que os imunizantes contêm ingredientes perigosos; mito de que vacinas causam doenças; teorias da conspiração e a alegação de que causam efeitos colaterais severos.  

No mês passado, o ACidade ON conversou com um especialista sobre as principais fake news sobre as vacinações (leia mais aqui).

LUCRO 

O artigo da Unicamp revelou também uma parceria entre os canais que disseminam mentiras com os que promovem serviços de saúde alternativa.  

"Essa colaboração ocorre através da reprodução de vídeos de canais associados ou através do apoio a criadores de conteúdo que fazem parte da rede. Os canais espalham desconfiança em relação a instituições tradicionais, como organizações de saúde pública, médicos, cientistas e imprensa para promover a si mesmos como fontes confiáveis e lucrar com a venda de serviços de saúde alternativa", destacou Dayane.  

Segundo a doutoranda, esses canais usam diferentes estratégias financeiras para obterem ganhos, como a venda de cursos, livros e tratamentos alternativos, solicitando doações por meio de plataformas de arrecadação e depósitos em contas bancárias e até mesmo de grandes empresas, por meio de anúncios no YouTube.  

Na análise, os pesquisadores identificaram anúncios de 39 marcas em 13 vídeos. "Apesar de o Programa de Parceiros do YouTube, ser uma fonte de renda importante, os canais da amostra usam estratégias econômicas variadas para garantir o lucro mesmo que seu conteúdo seja identificado como impróprio e desmonetizado pela plataforma", afirmou.  

Segundo Leda, apesar de o YouTube dizer que controla o conteúdo, em português isso não ocorre, porque o moderador algorítmico não identifica quando os conteúdos de desinformação adaptam o tema.

PANDEMIA
 

A disseminação de mentiras e desinformações que atacam a segurança e a eficácia de vacinas se tornam ainda mais prejudicais no momento de pandemia.  

Segundo a autora, a circulação dos vídeos com desinformações atacam a segurança e a eficácia das vacinas e questionam a legitimidade das instituições oficiais associadas a elas.  

"É extremamente preocupante nesse contexto de pandemia. E é especialmente problemático que os produtores de conteúdo associados a esse tipo de material estejam sendo premiados e incentivados a criar esse tipo de vídeo", criticou.  

Segundo a aluna, há estudos mostrando que a exposição excessiva a desinformações e teorias da conspiração sobre vacinas pode influenciar, por exemplo, na tomada de decisão das pessoas de não se vacinarem, e isso pode interferir na percepção da população em relação a uma vacina contra covid-19 e até no imaginário das vacinas de forma geral.  

De acordo com a pós-graduanda, o próximo passo da pesquisa é investigar o papel do YouTube na disseminação de desinformações sobre a covid-19.  

"Queremos entender como e se as mudanças nas políticas de uso da plataforma vêm sendo implementadas no Brasil, além de identificar quem está por trás desse tipo de conteúdo", disse.  
 
OUTRO LADO 
 
Em fevereiro de 2019 o Google, ao qual o Youtube pertence, divulgou um documento sobre a forma como a luta contra a desinformação em que afirma estar implantando medidas para que seus "sistemas" não divulguem conteúdos capazes de "desinformar os usuários de uma maneira nociva", especialmente em assuntos relacionados com "a ciência, a medicina, as notícias e os acontecimentos históricos".

O Google, também afirmou que "o YouTube tem políticas publicitárias rigorosas que regem onde se permite que os anúncios apareçam" e oferece aos anunciantes ferramentas para "descartar o conteúdo que não se alinhe com sua marca".


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