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Coletivo de Campinas ajuda mulheres na maternidade solo

Reuniões visam formar rede de apoio para mães que enfrentam criação de filhos sozinhas

| ACidadeON Campinas -

Grupo se reúne para formar rede de apoio (Foto: Egle Veríssimo)


Há pouco mais de três anos um grupo de mulheres se reúne em Campinas formando uma rede de apoio para mães que enfrentam a árdua tarefa de criar os filhos sozinhas. 

Chamado de Coletivo Mães Sol, o grupo visa o acolhimento e troca de auxílio entre mulheres que enfrentam a maternidade solo - quando o desempenho da parentalidade é exercido somente pela mãe. 

Entre separações amorosas, pais ausentes, cobranças, choros, idas à escola e médicos e responsabilidades a se perder de vista, o grupo de cerca de dez mulheres (às vezes mais, às vezes menos), se junta para tentar amenizar a sensação de solidão, que é elevada a níveis exorbitantes quando se tem a função criar um filho. 

"Eu comecei desde o primeiro dia, eu recebi de uma amiga por rede social, fui na reunião, não sabia muito bem o que seria, mas sentia necessidade de compartilhar, de um espaço em que as pessoas pudessem compreender o que eu estava passando, as mulheres em geral são muito solitárias ao cuidar dos filhos", contou a assistente social Débora Batista de Moraes, que está no grupo desde o início. 

No começo deste ano, a reportagem do acidade on Campinas mostrou o alto número de crianças nascidas em Campinas sem registro de pai. No ano passado, foram 677 crianças só com o nome da mãe na certidão de nascimento. De janeiro ao começo de março, já eram 130. Mas a maternidade solo não se limita somente a casos de abandono desde o nascimento. 

"Quando iniciamos uma integrante até era casada, o que mostra que maternidade solo não é só mãe solteira, aquela que teve filho sozinha, ela pode ser separada ou até mesmo ser casada com um marido que não apoia, e se vê sozinha na criação dos filhos", explicou.  

Débora, integrante do coletivo, com os dois filhos (Foto: Arquivo Pessoal)

IDEALIZAÇÃO 

O coletivo foi idealizado pela terapeuta Egle Verissimo Darin e pela doula e enfermeira Ketib Kelian. 

"O grupo surgiu em conversa com uma amiga que também é mãe solo. Eu tinha acabado de me separar, e vi que muitas coisas que achei que seriam fáceis não eram. Precisávamos ser informadas sobre como é ser mãe solo, para nos preparar. Então fizemos esse grupo para ser apoio, trocar informações, experiências, ajudar nesse processo difícil", contou Egle. 

"O nome Mães Sol é não só porque sol lembra solo, de maternidade solo, mas também porque ser mãe sozinha muitas vezes é ser como o sol, que brilha sozinho. Muitas vezes o tempo está nublado, mas o sol está lá, e a maternidade é isso, tem dia que estamos ofuscadas, mas não podemos apagar", disse. 

O coletivo deixou de se reunir por causa das dificuldades enfrentadas na pandemia, mas agora está retomando os encontros, que acontecem sempre no último domingo do mês. 

"Nós já fizemos muitas reuniões com especialistas, profissionais de educação, já tivemos psicólogas, analista financeiro, advogado, terapeutas dando dicas porque muitas precisam se reerguer e nem sabiam por onde começar, mas agora também percebemos que a gente precisa ter um tempo para conversar, focar no autocuidado, então estamos focamos para que as coisas sejam leves e benéficas", explicou. 

"No grupo chega a mulher que o pai do filho abandonou, até tem o pai que cumpre visita, mas o abandono parental é muito comum. É interessante criar esse vínculo para que a mulher também não se sinta abandonada, criar um vinculo e se sentir acolhida, pertencente a algo", conta. 

Segundo ela, atualmente o grupo se reúne na casa de uma integrante, mas o coletivo está em busca de um lugar cedido para as reuniões. 

RESPONSABILIDADE DE SER MÃE SOZINHA
 

A maternidade sozinha traz acúmulos de responsabilidades para mulheres que precisam criar os filhos sozinhas. Esse é o caso de Lucineia Aparecida Pires, de 47 anos, que há quatro anos cuida sozinha da filha Heloísa Maria Pires, que tem síndrome de Down. O pai da filha não chegou a registrar e assumir a paternidade. 

"Foi muito pesado tudo. Com 36 semanas fui internada no Caism, ela nasceu de parto de emergência. Ficou na UTI enquanto eu perdi o útero. Passei por muitas coisas, tive hemorragia, ela depois passou por cirurgia no coração, e todas tomadas de decisões que tinham até risco de vida era só minha responsabilidade. Não tive ninguém pra dividir o peso, pra apoiar, eu fiquei praticamente sozinha", contou ela, que também integra o grupo.

A assistente social Débora, que é separada e hoje tem os filhos já adolescentes, conta que a responsabilidade ainda é grande. 

"Hoje meus filhos já estão maiores, mas as responsabilidades continuam. A gente vive numa sociedade que tem o mito do amor materno, que é muito negativo, ele diz que toda mulher nasceu pra ser mãe, romantiza a maternidade, coloca que ser mãe é um mar de rosas. Maternidade é trabalho braçal. É uma coisa boa, mas não pra todas. Tem que ser discutida sem o véu, sem romanização, porque dura muito tempo e consome. Esse encargo é muito grande, e a gente aprende a ser mãe no processo. Ninguém nasce sabendo ser mãe, a gente se torna, aprende", acrescentou.  

"No grupo encontramos saídas para viver isso de forma mais fortalecida, nos damos apoio, acolhimento, compartilhamos os perrengues, e as vezes reunimos para estar junto, o que é importante, porque precisamos de pessoas que nos entendam", disse.  

"É muito bom saber que existem outras mulheres que passam pelas mesmas questões. O objetivo é uma fortalecer a outra, buscar soluções", finalizou. 

Lucineia Aparecida Pires é mãe solo e cuida sozinha da filha Heloísa, de quatro anos (Foto: Luciano Claudino/ Código 19)

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