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Moradores de rua na pandemia: "A gente faz como pra comer?"

Em meio ao abandono, os moradores reclamam de falta de assistência e dizem ter medo de ficarem doentes

| ACidadeON Campinas

Moradores em situação de rua no Centro de Campinas. (Foto: ACidade ON Campinas)

Com comércios fechados em meio à quarentena por causa da pandemia de coronavírus, moradores em situação de rua assumiram as fachadas das lojas e as ruas do Centro de Campinas, onde buscam ajuda para se manter em meio ao isolamento social - situação já experimentada por eles, mas em outro contexto e intensidade. Em meio ao abandono, os moradores reclamam de falta de assistência e dizem ter medo de ficarem doentes.

As ruas normalmente tomadas por consumidores se tornaram abrigo para essa população, que com colchões e cobertas se aglomeram em grupos. Em meio aos grupos há idosos e cadeirantes, que afirmam não terem sido contemplados com nenhum auxílio da Prefeitura. No último balanço divulgado pela Prefeitura, Campinas somou nove casos confirmados e está com 253 suspeitos. 
 
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Esse é o caso de Aparecida Dias Bazile, de 72 anos. A aposentada diz que recebe auxílio do governo, mas que não é o suficiente para comprar remédios e conseguir pagar aluguel. Ela conta que está na rua desde 1997, quando seu marido morreu. A idosa afirma que não consegue abrigo nos serviços assistenciais e que não recebeu muita informação sobre o novo vírus.

"A gente não sabe muito bem sobre a doença, o que a gente sabe é o que o pessoal da Prefeitura falou, mas ao mesmo tempo não deram nenhuma solução ou cuidado pra gente. Nos albergues só conseguimos ficar por alguns dias. É uma situação que a gente vê de falta de humanidade, porque se isso chega até aqui, quem morremos somos nós", disse.

Aparecida afirma que grupos da Prefeitura foram até o Centro nos últimos dias, mas não há álcool em gel nem máscaras para a população nas ruas.  



"As equipes até vêm, mas eles não têm equipamento para oferecer. O que a gente consegue de higiene é no Samim tomando banho, e agora são quatro pessoas por vez, então demora ainda mais. Precisa de higiene mas a gente não tem água nem pra tomar", contou.

O cadeirante Julio César, de 38 anos, vive na rua há dez anos e conta que mesmo deficiente e já tendo tido dois AVCs (Acidente Vascular Cerebral), não consegue vaga em abrigos, e teme a fome no meio da pandemia.

"A gente tenta o albergue, mas não pode ficar fixo lá. Agora com isso (o coronavírus), a Prefeitura proibiu as igrejas de nos ajudar, e o Centro está vazio, a gente que vive de esmola faz como pra comer? De cuidado com a doença, o que a gente tem de máscara a gente achou na rua, de resto mais nada", contou.

PROSTITUIÇÃO

Uma das moradoras em situação de rua, Erica Tablas, conta que há 12 anos está na rua e o medo da doença é atenuado pelo medo de não conseguir se manter. Usuária de drogas, Erica conta que fazia cerca de cinco programas por dia, com valores entre R$ 30 e R$ 50, mas hoje o máximo que consegue é dois, com clientes oferecendo R$ 10.

"A gente não tem como se cuidar não, é difícil porque a gente não sabe da onde a pessoa é, o que tem, mas a gente precisa comer, precisa se manter", contou, afirmando que não tem recursos para prevenção da doença.

OUTRO LADO

O prefeito Jonas Donizette (PSB) afirmou nesta segunda-feira (23) que vai encaminhar à Câmara Municipal um projeto de lei para autorizar a ampliação do Cartão Nutrir de 8 mil para 26 mil beneficiados, distribuídos para a população em situação de rua para auxílio na compra de alimentos.

Segundo o prefeito, além de aumentar o número de cartões como forma de auxílio, será autorizada a compra de produtos de higiene a partir deste meio. A Secretaria de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos também deve intensivar as ações para orientação de higiene a esse público.

Em nota, a Prefeitura informou também que a partir desta segunda-feira, vai assumir a distribuição noturna que era feita pelos grupos voluntários no entorno da Catedral Metropolitana de Campinas, no Centro, e que a alimentação será distribuída neste período emergencial, no Centro Pop, localizado na Rua Regente Feijó.

A Administração ainda informou que os estádios do Guarani e Ponte Preta podem ser requisitados para oferecer estrutura para receber moradores em situação de rua. "O objetivo é tirar o máximo de moradores das ruas para cuidar da saúde deles", afirmou o prefeito.

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