Aguarde...

cotidiano

Sem doações, moradores de rua ficam sem conseguir pagar comida

Ainda segundo o responsável pelo Bom Prato em Campinas, os talheres descartáveis também estão sendo custeados pela administração do restaurante

| ACidadeON Campinas

Moradores em situação de rua comem após conseguirem marmitex no Bom Prato em Campinas. (Foto: Luciano Claudino/Código 19)

Com o comércio fechado e a medida de confinamento para o combate  ao coronavírus que tem deixado grande parte da população em casa, moradores em situação de rua quase não conseguem doações nas vias da cidade e assim estão sem condições de pagarem pelo próprio almoço no serviço Bom Prato em Campinas.

Lá, o restaurante foi fechado e a refeição passou a ser servida em marmitex. Para que eles não fiquem sem a alimentação a entidade responsável em administrar a unidade de Campinas passou a bancar e desembolsa R$ 1 por prato para dar sustento a essa população de rua que vai até o local. Além disso, não há talheres descartáveis cedidos pelo Estado, o que também é arcado pela entidade.

Segundo o gerente do COF (Centro de Orientação Familiar), entidade responsável pela gestão da unidade na cidade, Reuber Luiz Boschini, o próprio restaurante começou a pagar pelo almoço, percebendo que as pessoas não estão conseguindo doações. 

"Com o comércio do Centro fechado e a quarentena na cidade, essas pessoas não estão tendo para quem pedir dinheiro, estão chegando aqui com fome e sem nem R$ 1. A entidade está arcando com os custos, mas a demanda é alta e financeiramente está ficando complicado", contou o gerente.  

De acordo com a entidade, após a medida de distribuição de marmitex, cerca de 2,1 mil unidades estão sendo entregues por dia, número que era o normal antes da pandemia, e é considerável alto.  

Ainda segundo o responsável pelo Bom Prato em Campinas, os talheres descartáveis também estão sendo custeados pela administração do restaurante, como alternativa para viabilizar a alimentação. "O projeto não contempla descartáveis, e também é um custo para a entidade, para não deixar que essas pessoas comam usando as mãos".  

A aposentada Aparecida Dias Bazile, de 72 anos, faz parte dos moradores em situação de rua no Centro. Ela recebe auxílio do governo, mas que não é o suficiente para comprar remédios e conseguir pagar aluguel.
Aparecida conta que está na rua desde 1997, quando seu marido morreu, e com a pandemia está passando dificuldades.  

"A gente ficou ainda mais abandonado, não tem pessoas no Centro para pedir ajuda, e a fome está aumentando, e a fome dói", disse a idosa.  

PÚBLICO DE RISCO
 
Em Campinas, 60% do público do Bom Prato é formado por idosos ou aposentados. Grande parte utiliza o serviço por depender somente da aposentadoria, que na maioria das vezes não dá conta de bancar remédios e alimentos essenciais. Mesmo sendo grupo de risco para o coronavírus, os idosos continuam se reunindo próximos na fila, sem ligar para as recomendações de saúde.  

A maioria dos frequentadores vivem sozinhos e veem no restaurante popular, além de uma forma de sobrevivência alimentar, a oportunidade de criarem laços de amizades, que continuam mesmo sem o almoço dentro do restaurante, enquanto esperam a distribuição.  

A restrição de entrada e a distribuição do almoço por meio de embalagem descartáveis foram decididas após os usuários ignorarem as medidas de prevenção.  

Entrevistados pelo ACidadeON, muitos consideram a prevenção contra o coronavírus em segundo plano. A pensionista Maria das Graças Ramos, de 67 anos, diz que a população menos favorecida está "pagando as consequências" por ações de outras pessoas.  

"[O coronavírus] é doença de rico, que vem trazida pelo navio, pelo avião", comentou a idosa. Além de pertencer ao grupo da 3ª idade, a aposentada também desenvolveu sinusite ao longo da vida, trabalhando como faxineira, e enquadra-se duplamente no grupo de risco mais elevado para contração da doença.  

No entanto, as medidas que ela toma como prevenção são as mesmas que já realizava cotidianamente, antes do surto da covid-19. "Quando a gente está lavando roupa, já lava as mãos, mas isso faz parte da vida", brincou.  

HIGIENE E SEGURANÇA
 
Na fachada do Bom Prato após o almoço é possível ver algumas embalagens jogadas e restos de comida. Por causa da distribuição, unidade também faz a limpeza após as refeições, lavando a calçada e retirando os lixos espalhados.  

Outra complicação é em relação à segurança. Segundo o gerente, por causa do fechamento do Centro muitos dos moradores de rua que são dependentes químicos não estão conseguindo acesso às drogas, o que deixa mais agressivo.  

"Tá tudo fechado, e como não conseguem comprar ficam em abstinência, a gente lida com alguns mais agressivos, é um cuidado que temos que tomar pra não gerar confusão".

Mais do ACidade ON