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Negativa do Estado a reabertura em Campinas tranquiliza especialistas

Pesquisadores da PUC-Campinas, Unicamp e USP dizem que fim da quarentena planejada para a semana que vem seria "prematuro"

| ACidadeON Campinas

Mesmo com a maior parte das lojas fechadas há movimento de pessoas na Rua 13 de Maio. (Foto: Denny Cesare/Código 19)

A rejeição do Estado ao plano da Prefeitura de Campinas para flexibilizar o isolamento e permitir a reabertura de comércios e serviços a partir da próxima segunda-feira (4) tranquilizou especialistas em saúde pública, que temiam por um avanço da covid-19 na cidade. A reabertura é considerada prematura para o momento da pandemia. Até a manhã desta quarta-feira (29) Campinas somava 306 casos com 14 mortes pela doença.  

A reportagem do ACidade ON conversou com três especialistas de diferentes universidades, que analisaram o estudo elaborado pela Prefeitura e se opuseram ao plano.

Segundo a Prefeitura, a liberação da retomada do comércio e serviço para a próxima semana estaria baseada nesses estudos. E que a cidade está em um nível bastante tranquilo em relação as ocupações de leitos. Também até ontem Campinas contava com 680 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), deste total 400 estavam ocupadas uma taxa de 58,82% - a mais alta dos últimos dias. 
 
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O plano foi analisado pelo pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, Luiz Gustavo Góes; pela médica infectologista Raquel Stucchi, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, e com o professor Thiago Miranda da Silva, biólogo da Faculdade de Ciências Biológicas da PUC-Campinas.  

Para o pesquisador da USP, nenhuma cidade ainda está pronta para encarar a abertura e o reflexo da flexibilização no número de infectados e na necessidade de equipamentos e estrutura na saúde pública. Góes ainda criticou Campinas pela decisão, e diz ser contrário qualquer plano semelhante.  

"Eu fico muito feliz que isso tenha sido derrubado, e que o Estado tenha dado parecer contrário, mas ao mesmo tempo fico triste pelos municípios atuarem precipitando essa ideia de reabertura contra recomendações de órgãos da saúde", disse, citando que a doença passa por um crescimento nesse momento.  

"O Brasil está em plena ascensão da doença, e testando muito pouco. Essa pressão por retorno das atividades é tremendamente precoce e sem nenhum tipo de segurança epidemiológica. Nós ainda não temos ideia do número real de casos", afirmou.  

A infectologista Raquel Stucchi afirma que a decisão do Estado foi coerente e necessária para barrar o avanço no número de casos.  

"Me deu uma certa tranquilidade, mesmo entendendo que essa não vai ser uma medida definitiva, e o prazo deve ser ainda ser postergado. O Estado foi coerente e prudente, e tanto ele como a Prefeitura devem analisar os próximos dias", declarou a médica, que disse ser bom para a cidade ter um projeto para retomada, embora seja contra a aplicação neste momento.  

O PLANO  

Na opinião de Góes, os estudos elaborados para justificar a reabertura mesmo que gradual devem ser questionados, sabendo que há pouca testagem no país.  

"As medidas de abertura são superficiais, os estudos não levam em conta muitos casos subnotificados. Sabemos que testamos muito pouco a população, e a reabertura significaria um aumento extremamente rápido, diferente da maneira que estamos vendo por enquanto. É um risco de grande impacto no sistema de saúde", afirmou.  

A infectologista da Unicamp parabeniza a Prefeitura pelo plano, mas considera extremamente precoce a aplicação no momento.  

"É bom ter um plano, até acho bem estruturado, mas ainda é muito precipitado, e seria muito difícil a fiscalização do cumprimento das medidas de segurança. Com essa flexibilização teríamos a certeza de uma explosão nos casos", afirmou.  

O biólogo da PUC-Campinas analisa que o plano elaborado mudaria a forma de isolamento e causaria um grande risco na transmissão entre as pessoas.  

"Cancelar a quarentena agora seria um risco. A doença não está controlada e essa flexibilização nesse momento é muito perigosa, pode causar uma grave consequência para cidade e para a região", afirmou.  

Na opinião dos especialistas, desde o início a Prefeitura deveria respeitar e aguardar o governo do Estado, e a reabertura só deveria ser avaliada apenas a partir do dia 11.  

"O certo seria aguardar uma posição oficial do Estado, e isso acontecer depois do dia 10, com uma ideia melhor no número de casos. O governo do Estado tem uma visão maior do que a Prefeitura, e analisa não só Campinas, mas a região. Era necessário esperar uma nova posição do governo e observar os casos nesse período, para assim tomar uma decisão", afirmou Silva.  

FALSA REDUÇÃO
 
Entre as justificativas para a retomada do comércio, a Prefeitura citou a diminuição no número de casos da doença na cidade, o que deve ser visto com cautela, segundo a médica da Unicamp. A infectologista considera que os números na cidade sejam muito maiores do que os apresentados.  

"A Prefeitura trabalha em uma porcentagem menor dos confirmados. Ainda há pacientes internados em hospitais sem resultados de exame. Além disso, os números ainda são uma falsa ideia, feitos em sua maioria em pacientes internados. Temos que multiplicar esse número por 10 para ter um resultado mais próximo da verdade" disse Raquel.  

Segundo o biólogo da PUC, apesar da Prefeitura lidar com baixo número de casos, o número de ocupação em leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) em Campinas deve ser considera alto.  

"A taxa de ocupação perto de 60% em leitos de UTI ainda é alta para uma cidade que lida como se a doença estivesse baixando. Temos que lembrar que é um vírus que se transmite muito rápido, e esse relaxamento no isolamento iria aumentar a transmissão, isso é muito perigoso", declarou.  

CONTRAMÃO
 
A infectologista da Unicamp afirma que Campinas devia olhar para São Paulo e para o aumento de número de mortes do Brasil, antes de pensar em afrouxamento das medidas.  

O Ministério da Saúde anunciou ontem que subiu para 5.017 o número de mortes pelo coronavírus no Brasil 474 óbitos confirmados nas últimas 24 horas, maior número registrado no período desde o início da pandemia. Com os dados atualizados, o país ultrapassou a China, que registra oficialmente 4.643 mortes por conta da covid-19.

Em pouco mais de duas semanas, o número de mortos confirmados pela covid-19 mais do que triplicou na cidade de São Paulo, enquanto os novos casos suspeitos de infecção quadruplicaram. Na cidade de São Paulo, o total de mortos confirmados vítimas do coronavírus passou de 422 no dia 9 de abril para 1.337 na segunda-feira (27). Somando-se os casos suspeitos, o salto no total de óbitos foi de 1.110 para 3.030.  

"Mesmo que a Prefeitura acredite que está havendo uma redução de registros, é só olhar São Paulo, que está em número crescente de casos, óbitos e em ocupação de leitos. Essa proximidade não dá nenhuma tranquilidade, não dá para pensar que somos uma ilha", afirmou.  

Segundo o biólogo, Campinas tem que ser pensada como uma cidade com fluxo tanto para a Capital como para cidades vizinhas, e qualquer medida deve ser tomada com cautela.  

"Estamos próximos de São Paulo, e essa flexibilização tem que ser pensada no sentido de poder aumentar o fluxo de pessoas entre a Capital e aqui, e como isso afeta a cidade e o controle de toda a região. Campinas como uma cidade grande tem papel essencial para impedir a propagação da doença, e esse não é o caminho", afirmou.  

APRESSADOS
 
Como consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel ainda criticou a divulgação do plano pela Administração, e as consequências que isso pode ter no isolamento.  

"A checagem com o Estado deveria ter sido feita antes do anúncio da Prefeitura, que tem que pensar antes de divulgar qualquer medida. As pessoas já se sentem no direito de sair, muitas lojas já resolveram abrir, isso interfere na saúde num todo. A gente entende que é uma situação difícil, mas estão vislumbrando um dia de sol no meio de uma tempestade", declarou a médica.  

Segundo o biólogo, além de aumentar a ânsia pela retomada da normalidade, a medida poderia ter graves resultados, como aumento da resistência e desobediência nas recomendações.  

"A partir do momento que a Prefeitura relaxa, flexibiliza e anuncia isso, depois o fechamento enfrenta uma resistência enorme, e não é mais respeitado. A tendência é aumentar os casos, e ao mesmo tempo a medida não ser levada mais a sério", comentou.  

"O isolamento cansa, a gente sabe, mas não podemos esquecer que é uma doença, e pessoas estão morrendo. As pessoas se preocupam com o agora, o prazer, mas não se importam com o que essa exposição causa, acabam só sentindo quando atinge alguém que amam", declarou.

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