cotidiano

Especial coronavirus

Após três meses, quarentena segue sem previsão de término em Campinas

Segundo diretora do Devisa, a medida ainda deve valer nos próximos meses

| ACidadeON Campinas -

Movimento na 13 de Maio, no primeiro dia após novo fechamento (Foto: Denny Cesare/ Código 19)
 
A quarentena com as medidas de restrição para combate ao novo coronavírus completou três meses em Campinas nesta terça-feira (23). Na cidade, a medida começou a vigorar no dia 23 de março, quando ainda havia apenas nove casos confirmados da doença. Três meses depois, com quase 6 mil casos confirmados (hoje são 5.751 com 213 mortes) e ascensão dos números, ainda não há uma previsão certa para o término. 

Com altos e baixos, a quarentena passou por conflitos para sua flexibilização que começou, parcialmente, ainda no mês de abril. O prefeito Jonas Donizette (PSB) liberou o retorno das óticas no dia 22 de abril antes mesmo de completar um mês da medida, porém de forma reduzida com capacidade de atendimento para até 30%. Depois veio a liberação dos estacionamentos que funcionam no entorno de hospitais. Na sequência, já no mês de maio, veio a liberação das concessionárias, lojas de conveniência e serviços elétricos.  

Em Campinas, o início da quarentena chegou a ter o isolamento seguido por 60% da população, mas o resultado foi caindo ao longo das semanas. 

Em junho, com a liberação estadual para o retorno das atividades do comércio, a Prefeitura resolveu retardar por uma semana essa flexibilização por conta da ocupação dos leitos na cidade. Porém, no dia 8 de junho o comércio pode reabrir suas portas. Na primeira semana cerca de 325 mil pessoas circularam pela Rua 13 de Maio,  principal via do comércio popular, o que chamou a atenção das autoridades (leia aqui).  

Pouco mais de uma semana da reabertura do comércio de rua e dos shoppings, a ocupação de leitos na cidade atingiu nível considerado crítico. Depois de 15 dias houve o recuo e a Prefeitura decretou um novo fechamento das atividades por ao menos uma semana.  

Ontem (22), Campinas completou 10 dias sem vagas em leitos de UTI municipais para o tratamento da covid-19, e teve o dia com maior taxa de ocupação na rede privada, com cerca de 80% de lotação.  

Com a população cada vez mais cansada e desrespeitando as medidas de restrição, a previsão para o término da quarentena ainda está distante e indefinida, segundo a diretora do Devisa (Departamento de Vigilância em Saúde), Andrea Von Zuben.  

"É muito difícil dar uma previsão, mas acredito que até agosto vamos continuar com a necessidade de quarentena, talvez com melhora em setembro. Pode ser antes, pode ser depois, mas não consigo achar que antes de agosto vamos conseguir isso", afirmou.    


 

A responsável pelo Devisa afirmou que já era esperado um aumento de casos nesse momento, por causa das baixas temperaturas do período. 

"Nós esperávamos essa ascensão nesse momento. A gente tem como previsão a curva em crescimento até meados de julho, com base no histórico dos picos de doenças que Campinas já teve. O Inverno traz muitos fatores e aumento para propagação de doenças respiratórias", afirmou a diretora.  

LONGA DURAÇÃO  

Segundo Andrea, a duração longa da quarentena já era esperada pelas equipes de Saúde, ao contrário do imaginário que a população tinha no início da doença. 

"Já imaginávamos que duraria bastante. As pessoas tinham a impressão de que se ficassem em casa ia sumir, e a gente sabia que isso não ia acontecer rápido. É uma doença que veio para ficar, e enquanto não tiver vacina teremos que lidar com ela. A gente não pode mais ter uma ilusão de algo que vai passar rápido. Não existe mais o normal, esse é o novo normal e temos que ter cuidado", afirmou.  

A diretora do Devisa ainda atribuiu a piora nos números da doença dos últimos dias devido ao aumento da população na rua. Isso, segundo ela, afeta diretamente a circulação da doença e a duração da quarentena.  

"Infelizmente a população foi cansando, desacreditando, muito por falta de instrução do governo, que tem discurso diferente, e isso contribui para aumento de casos. Eu acho que a gente foi bem, estamos indo bem, mas poderíamos estar melhor se não tivesse acontecido o que aconteceu. Se as medidas fossem seguidas pela população, e se como em países de fora as pessoas tivessem o entendimento da doença", afirmou a diretora, ressaltando que a colaboração da população é crucial ainda mais nesse momento.  

"É um período crítico que estamos vivendo agora, e o que nos resta é cada um entender o risco de sair, de adoecer, ver que cada vez o sistema público está se esgotando e que ele tem capacidade finita, e se continuar assim não vamos dar conta" afirmou.   

EFEITOS POSITIVOS  

Apesar da longa duração, e da população desacreditar nas medidas impostas, Andrea afirma que o resultado é positivo, e ajudou para um crescimento linear, e não exponencial e com explosão dos casos.  

"A quarentena visava os efeitos importantes, que conseguimos. O principal foi preparar a rede de saúde, aumentando leitos, fazendo a compra de equipamentos, de testagem, contratando e preparando profissionais para momentos que estamos vendo hoje. Sabíamos que não ia evitar a propagação do vírus, mas diminuiu a circulação para conseguirmos essa preparação, com um efeito muito positivo para a Saúde", declarou. 

A diretora ainda disse que a medida chegou a ter efeitos consideráveis em meses passados, mas não foi possível manter por muito tempo.  

"A medida teve efeito de diminuir tanto que chegamos a ter momentos de curva para baixo, e período com UTIs vazias. Mas daí tem o paralelo, quando conseguimos ter resultados positivos, as pessoas desacreditam na doença. Quando dá certo a resposta seguinte não é boa porque as pessoas não acreditam", declarou. 

REABERTURA E LOCKDOWN 

Sobre a ascensão dos casos nas últimas semanas, a diretora do Devisa ainda não atribui a piora à reabertura do comércio, apesar de citar a reabertura como uma medida que "não deu certo". Segundo Andrea, houve preparação para a reabertura, mas os resultados não foram os esperados.  

"Foi algo planejado e bem organizado, se as pessoas tivessem seguido as regras os reflexos não seriam tão grandes, mas tivemos o oposto, acredito que pelo cansaço da população. Acabou que as pessoas lotaram as lojas nesses dias, sem seguir as orientações", declarou.  

Segundo a diretora, o reflexo da reabertura ainda não foi visto, e deve ser visto nas próximas semanas. Andrea ainda indica que a capacidade da saúde é limitada, e caso continue a ascensão de casos o lockdown pode ser necessário.  

"A pressão econômica é legítima, as pessoas precisam trabalhar. E a gente lida com a capacidade do sistema de saúde versus o adoecimento de pessoas. Tem um esforço para aumentar a capacidade, mas é finito, se não tiver sucesso e a balança pesar o lockdown pode ser preciso, por isso pedimos a colaboração", afirmou.

Mais notícias


Publicidade