Aguarde...

cotidiano

Covid-19: Unicamp identifica fatores de contágio inicial

Estudo da universidade de Campinas analisou dados de 126 países para entender como o novo vírus se espalhou tão rapidamente

| ACidadeON Campinas

Estudo da Unicamp analisou dados antes da epidemia de 126 países para entender avanço de covid-19 (Foto: Denny Cesare/Código19) 

Entre os fatores que mais contribuíram para a disseminação do novo coronavírus no mundo estão a temperatura baixa do local, maior proporção de idosos e maior número de turistas internacionais nos primeiros dias de epidemia. Isso é que constatou estudo da Unicamp, de Campinas, que levantou dados de 126 países para entender com a covid-19 se espalhou tão rapidamente no mundo. Somente em Campinas, a covid-19 matou 277 pessoas e infectou mais de 7 mil.

A análise, com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), analisou os dados da fase inicial da epidemia, ou seja, antes que fossem adotadas políticas públicas para conter o contágio.

Além dos fatores citados no ínicio, também foram importantes a maior prevalência de câncer de pulmão, de câncer em geral e de DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica); maior proporção de homens obesos; maior taxa de urbanização, maior consumo de álcool e tabaco; e hábitos de saudação que envolvem contato físico, como beijo, abraço ou aperto de mão.

"Escolhemos como ponto de partida de nossa análise o dia em que cada país registrou o 30º caso de COVID-19 e analisamos os dias seguintes [entre 12 e 20 dias, dependendo do país]. O objetivo era entender o que ocorreu na fase em que a doença cresceu livremente, de forma quase exponencial", explica à Agência FAPESP Giorgio Torrieri, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW-Unicamp) e coautor do artigo divulgado na plataforma medRxiv, ainda sem revisão por pares.

Segundo o pesquisador, a proposta era aplicar análises estatísticas geralmente usadas na área de física entre elas a regressão linear simples e o cálculo do coeficiente de determinação para tentar entender o que ocorreu no início da pandemia. Os dados usados nas análises vieram de fontes diversas boa parte de um repositório público conhecido como Our World in Data.

"A ideia era avaliar o seguinte: caso não fosse feito nada para conter a doença, com qual velocidade o vírus se espalharia nos diferentes países ou nos diferentes grupos sociais? Fatores como temperatura, densidade demográfica, urbanização e condições de saúde da população influenciam a velocidade do contágio?

FALTA DE DADOS CONFIÁVEIS

Alguns estudos sugerem que a vacina BCG, contra tuberculose, pode ter algum efeito protetor no caso da COVID-19. As análises feitas pelos pesquisadores da Unicamp e da Universidade de Barcelona indicam a existência de uma correlação fraca entre as duas variáveis (taxa de imunização contra tuberculose e taxa de contágio pelo SARS-CoV-2). Segundo Torrieri, porém, é possível que o resultado tenha sido prejudicado pela falta de dados confiáveis em países onde a vacinação não é obrigatória.

Entre os fatores analisados que não apresentaram correlação com o contágio (nem positiva e nem negativa) estão: número de habitantes; prevalência de asma; densidade populacional; cobertura vacinal para poliomielite, difteria, tétano, coqueluche e hepatite B; prevalência de diabetes; nível de poluição do ar; quantidade de feriados; e proporção de dias chuvosos. No caso do PIB (Produto Interno Bruto) per capita, como explicou Torrieri, a correlação se mostrou positiva apenas em valores acima de 5 mil euros.

"O PIB está relacionado com a qualidade da infraestrutura pública. Quanto maior é o PIB per capita de um país, melhor é a infraestrutura de saúde e de moradia, por exemplo. Mas abaixo de 5 mil euros não fez diferença provavelmente porque a infraestrutura é de baixa qualidade", avalia o pesquisador.

Embora seja impossível para os países alterar algumas das variáveis estudadas, como o clima, a expectativa de vida e a proporção de idosos, por exemplo, sua influência na disseminação da doença deve ser levada em conta na formulação de políticas públicas, ajudando a definir estratégias de testagem e de isolamento social, defendem.

Outras variáveis, segundo os autores, podem ser controladas pelos governos: testagem e isolamento de viajantes internacionais; restrição de voos para regiões mais afetadas pela pandemia; promoção de hábitos de distanciamento social e de campanhas visando reduzir o contato físico enquanto o vírus estiver se espalhando; e campanhas voltadas a estimular na população a suplementação de vitamina D, a redução do tabagismo e da obesidade.

Mais do ACidade ON