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Covid-19: recuperados relatam sobre a doença e a nova vida

A reportagem do ACidade ON Campinas conversou com pessoas que, em suas particularidades, passaram pela doença

| ACidadeON Campinas

Thiago e sua família já estão curados (Foto: Arquivo Pessoal) 

A pandemia do novo coronavírus mudou a rotina e a vida de praticamente todas as famílias. Para muitas, a doença virou sinônimo de tristeza, com pessoas queridas que perderam a vida. Para outras, porém, houve um novo significado e como encarar a vida a partir de agora. Muitos não sabem dizer ao certo em qual momento se infectaram, mas encaram a cura como uma superação e uma mudança de vida.

A reportagem do ACidade ON Campinas conversou com pessoas que, em suas particularidades, passaram pela doença, tiveram momentos difíceis, e hoje estão recuperadas.

Vale lembrar que a cidade nesta semana atingiu a marca de 50 mil infectados da doença. Até hoje (3), são registrados 50.393 casos com 1.466 mortes por covid-19. Por outro lado, a cidade soma 48.584 pessoas recuperadas da doença.

Patrícia precisou ficar internada por 13 dias (Foto: Arquivo Pessoal)
INTERNAÇÃO

A auxiliar administrativa Patrícia Alessandra Oliveira Silva, de 34 anos, contou que a doença agiu de forma muita rápida no seu corpo e a internação se fez necessária.

"No começo, eu tive tive diarreia e mal estar e eu não associei que poderia ser covid-19. Depois veio a dor no peito e, de um dia para o outro, ela vai piorando bastante. Isso foi ocorrendo até eu não conseguir levantar mais", contou.

Ela, então, foi ao hospital, onde passou 13 dias internada. "A melhora era bem devagar. Fiquei no oxigênio o tempo todo", continuou.

Segundo Patrícia, até hoje, apesar da cura, a vida não é a mesma. "Fui tendo melhora e voltei pra casa. Já faz seis meses que sai do hospital e ainda sinto um pouco de cansaço, dor nas juntas e minha memória foi afetada", finalizou.  

Frederico Cunha Claro Lück ficou doente em dezembro (Foto: Arquivo Pessoal)
 
TODOS EM CASA

O professor Frederico Cunha Claro Lück, de 38 anos, teve a doença, junto com a esposa, no final de novembro. Ele também, no começou, pensou que se tratava apenas de uma gripe.

"Os sintomas começaram no dia 23 de novembro. Tive coriza, olho lacrimejando e um cansaço. Uma fadiga permanente. Depois de quatro dias, eu estava até melhorando, mas veio uma piora e o cansaço aumentou", relatou.

Por conta da doença, Fred, sua mulher, que também se infectou, e as duas filhas, tiveram que ficar isolados na própria casa.

"A gente ia se virando como podia. Fazia compras por delivery ou minha mãe vinha deixar as coisas na porta de casa", explicou.

Fred contou que começou a tomar toda a medicação e foram cinco dias que os sintomas realmente começaram a melhorar. A esposa levou cerca de dez dias para começar a melhorar.

"Hoje, se eu faço bastante esforço, sinto bastante cansaço e controlando a respiração isso passa. Não foi fácil, me pegou de surpresa e eu fiquei muito mal. Tive bastante medo, principalmente por conta da falta de ar", disse Fred.  

Thiago e sua família (Foto: Arquivo Pessoal)
 
FAMÍLIA ISOLADA

O caso do almoxarife Thiago Francisco Assumpção da Cunha Abreu, de 32 anos, foi parecido com o de Fred. Ele e a esposa se contaminaram e todos, junto com os dois filhos, ficaram isolados no apartamento.

"A gente se contaminou no começo do mês de setembro. A gente teve o mesmo sintoma. Depois de uns três dias, eu me recuperei, ficando somente a perda de olfato e paladar. A minha esposa ficou um pouco mais ruim. Ela teve sintomas por uns sete dias", disse.

A família deixava sempre tudo higienizado e contava com ajuda de parentes e amigos com as necessidades diárias.

"Os nossos filhos não tiveram sintomas, mas é provável que tiveram também. Hoje a gente tem uma vida normal com relação à doença", contou.

Thiago ainda brinca que o isolamento trouxe outro problema. "A gente engordou um pouco", finalizou. 
 
SINTOMAS CONTINUAM POR MESES   

Mesmo depois de um mês da fase aguda da covid-19, parte dos pacientes que tiveram casos leves ainda relata sintomas persistentes, entre eles a dor de cabeça frequente, fadiga, sonolência, alteração de memória e perda de olfato.  

Dados preliminares de um estudo em andamento na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) feito com 80 pessoas que já tiveram a doença -das quais apenas três precisaram de internação- mostra que cerca de 30% dos recuperados da Covid-19 ainda afirmam sentir fadiga e dor de cabeça frequente por um período que pode passar de dois meses após o diagnóstico da doença.    

Desses ex-pacientes, aproximadamente 20% relata alteração da memória e sonolência. Somente 25% dos participantes dizem estar com a saúde como era antes da infecção.  

O estudo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (BRAINN) conta com o apoio da Fapesp e a colaboração de um grupo multidisciplinar composto por neurologistas, psicólogos, enfermeiros, físico, técnicos de radiologia e biólogos.  

Os resultados iniciais apontam para os efeitos do novo coronavírus no sistema nervoso, desencadeando complicações neurológicas, segundo a neurologista Clarissa Lin Yasuda, professora na Unicamp que lidera a pesquisa.  

A covid-19 pode deixar consequências em diversas partes do organismo como pulmão, coração, vasos sanguíneos e rins. A perda de olfato, sintoma comum durante a doença, também pode durar por meses, e os especialistas não descartam perda definitiva da função, ainda que a possibilidade seja baixa. Como se trata de uma doença nova, não se sabe ao certo por quanto tempo esses efeitos podem permanecer.  

"Não há ainda uma resposta definitiva, mas sabemos que o Sars-CoV-2 tem mais afinidade para atacar o sistema nervoso central do que os outros coronavírus conhecidos", afirma a cientista. 

Autópsias de pessoas mortas pela covid-19 comprovam que o vírus é encontrado no cérebro. A principal hipótese dos especialistas é que o invasor entra nas células do sistema nervoso usando o receptor ECA2, ao qual se liga com a proteína em forma de espinho que possui; o receptor é abundante no sistema nervoso. Como as vias respiratórias são a principal entrada do patógeno no corpo, a proximidade do cérebro facilita a invasão do vírus, segundo Yasuda.  

No início de agosto, pesquisadores de instituições chinesas demonstraram que o cérebro de pessoas recuperadas da covid-19 teve mudanças micro-estruturais que podem estar relacionadas ao novo coronavírus. Os cientistas compararam exames de imagem do cérebro de 60 pessoas que tiveram a Covid-19 com exames de participantes que não tiveram a doença.  

Os resultados foram divulgados na revista científica EClinicalMedicine, publicado pelo The Lancet, um dos periódicos de maior prestígio na área médica.  

Para os pesquisadores, o achado sugere uma relação entre a infecção pelo Sars-CoV-2, as alterações no cérebro e a persistência de alguns sintomas. De acordo com o artigo, os participantes do estudo foram infectados nos meses de janeiro e fevereiro, mas em maio, quando os exames foram feitos, cerca de 55% dos ex-pacientes ainda tinham algum sintoma neurológico.  

Para Yasuda, a carga viral encontrada no cérebro pode ser considerada baixa para justificar todos os sintomas encontrados nos pacientes. "O mais provável é que esses efeitos sejam fruto da combinação entre a ação do vírus e a reação inflamatória que ele desencadeia no corpo", afirma a neurologista.  

As dores de cabeça parecem ser o sintoma persistente mais comum entre os recuperados da Covid-19. Segundo Yasuda, pessoas que já tinham o problema relatam piora, e pessoas que não tinham as dores com frequência agora sofrem com os episódios mais numerosos.  

Os pesquisadores ainda tentam caracterizar os tipos de cefaleia nesses ex-pacientes, mas já há relatos de tipos raros, que podem causar até alterações visuais devido à pressão no nervo óptico. "São manifestações neurológicas raras que limitam gravemente o paciente", afirma Yasuda.
Para a neurologista, quando sintomas persistentes são notados é necessário buscar acompanhamento com um médico para evitar a piora do quadro ou o abuso de remédios como os analgésicos, que podem agravar as dores de cabeça crônicas em alguns casos.  

De acordo com a cientista, os resultados preliminares da pesquisa também apontam para o surgimento de lentidão e problemas motores nessas pessoas. Segundo ela, muitos dos recuperados da Covid-19 podem ter cansaço acima do normal e, assim, apresentar rendimento menor no trabalho.  

"A maioria dessas pessoas deve se recuperar dentro de algum tempo, mas existe um grupo que ficará com sequelas permanentes", afirma Yasuda.  

As consequências da doença em pacientes mais graves têm impacto ainda maior para a qualidade de vida. Um estudo conduzido por pesquisadores de instituições italianas com 143 pessoas que foram internadas com a Covid-19 mostrou que 55% dos pacientes ainda tinham três ou mais sintomas persistentes cerca de dois meses após o período agudo da infecção. Os sintomas mais comuns foram a fadiga e a dispneia (dificuldade para respirar).  

O artigo com os resultados foi publicado em julho na revista científica Journal of the American Medical Association.  

Mesmo crianças, que geralmente têm sintomas mais leves da Covid-19 ou são assintomáticas, podem experimentar efeitos mais duradouros.   

Uma das consequências mais graves é a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (Sim-P), que aparece dias ou semanas após a infecção pelo Sars-CoV-2 e traz sintomas como febre e dor abdominal. No Brasil, pelo menos 140 casos da síndrome já foram registrados.  

Segundo o infectologista pediátrico Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), há casos muito raros de manifestações e consequências mais graves em crianças no Brasil, como o relato de um caso de hemiplegia (uma paralisia parcial do rosto causada por derrame) que pode estar ligada à covid-19.  

"Em quadros respiratórios ou urinários mais severos, que precisam de intubação ou diálise, existe a possibilidade de que fiquem sequelas respiratórias ou renais", afirma o médico.  

"Mas são casos raríssimos. São poucas as publicações e relatos anedóticos desses casos em crianças, precisamos de mais tempo para termos uma ideia mais precisa do que são essas manifestações. Se fossem mais frequentes já teríamos uma documentação mais robusta", conclui Sáfadi. (Com informações da FolhaPress)


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