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Mães na quarentena relatam desafios durante o 1º ano dos filhos

Após darem à luz em 2020, mães contam como foi passar um ano em isolamento com os filhos, longe da família e sem os clichês da maternidade

| ACidadeON Campinas

Bruna Mozer e o pequeno Leo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Era 20 de abril de 2020 quando a jornalista Bruna Mozer, de Campinas, deu a luz ao Leonardo. O sentimento infinito da mãe que admirava o filho recém nascido nos braços era acompanhado das incertezas que o período de pandemia proporcionava. Ela precisaria ser forte para lidar com a saudade da família e o desejo de apresentar o mundo para o filho - que naquele momento não era possível realizar. 

No último Dia das Mães, quando Bruna falou com o ACidade ON sobre os desafios de ser mãe na pandemia, ela acreditava que no ano seguinte o isolamento e o medo do vírus ficariam só na lembrança. Um ano se passou, e a sensação é de estar revivendo tudo de novo.  

Acontece que nesse meio tempo, nasceram os primeiros dentinhos do Léo e hoje ele já se arrisca pelo chão da casa. E com o papel de "ser mãe", vem também a vontade de mostrar para o mundo, em especial às pessoas mais próximas e queridas, as primeiras realizações do filho. E disso Bruna sentiu, e muito, a falta. 

"Essa questão do contato sempre foi uma coisa muito delicada, porque nós tínhamos a expectativa de que ficaríamos em isolamento dois ou três meses, e não foi o que aconteceu. Eu comecei a ficar muito mal pelas pessoas não poderem conhecer ele e elas começaram a ficar impacientes também. Eu sofro bastante pelo bebê não poder ver os meus parentes", conta.  

Leonardo ensaia os primeiros passos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Enquanto o isolamento persiste, Bruna e o esposo revezam as obrigações. "Eu sou jornalista, trabalho em casa e meu marido também. Nós revezamos em turnos, ou quem está mais livre no momento cuida da criança. Não temos ninguém para nos ajudar, babá ou familiar. Nem mesmo temos como colocar em escolinha". 

INFECTADOS
 
E eles até tentaram amenizar o problema da distância. Em agosto do ano passado, os índices de contaminação e mortes haviam caído em Campinas e região, o que fez com que Bruna flexibilizasse a quarentena e permitisse que a família visitasse o pequeno Léo. Mesmo tomando todos os cuidados, eles acabaram se infectando com a covid-19, e tiveram que recuar nas saídas de casa.  
"Tivemos sintomas leves e o Leonardo não apresentou sintoma nenhum. Precisei utilizar máscara pela casa, inclusive para amamentar ele. Depois que pegamos covid, voltamos a nos isolarmos para evitar qualquer risco. Foram dois ou três meses sem eu e o Léo vermos meus pais. Mas mesmo sem sair até para comprar no mercado, meu marido teve reinfecção de covid", relembra.   

Bruna e o Leo. (Foto: Arquivo pessoal)

CUIDADO REDOBRADO
 
Se ter um filho já requer cuidados, ter um filho em meio a uma pandemia que já vitimou milhares de pessoas demanda cuidados em dobro. E, como reflexos da situação pandêmica, os esforços em manter Léo seguro acabam o privando de algumas descobertas. 

"O Leo nunca foi ao supermercado, a gente mal sai com ele. Os únicos lugares que fomos é ao ar livre. Ele não participa da rotina que qualquer criança deveria ter, como fazer coisas com um adulto. A gente sente que faz falta para ele. Quando consegue ver crianças ou cachorros, fica todo empolgado".  

Mesmo com tantas limitações, Bruna e o esposo tentam proporcionar um desenvolvimento saudável ao filho. Nessas horas, vale o improviso e a criatividade.  

"Moramos numa casa onde tem grama para o Leonardo brincar. Também comprei areia para ele conhecer as texturas. Às vezes damos uma ao ar livre na rua. Quando percebemos que a situação está mais leve, o levamos para ver pelo menos os primos. E percebemos que ele se solta muito com isso e que quanto mais ele cresce mais precisa dessa interação". 

AMOR INFINITO
 
O sonho de Bruna e de toda mãe de comemorar o primeiro aninho do filho com uma bela festa temática e cheia de criançada precisou ser colocado de lado, bem como a desejo de ver o filho todo de branco durante o batizado.
 
"Praticamente ninguém acompanhou o crescimento dele de perto. Quando você tem um bebê se sonha com visitas da família e tudo mais". Mas seja dentro ou fora de casa, tem algo que nunca acaba e que a pandemia não pode abalar: o amor de mãe.
 
"Eu até escrevi um texto no primeiro aniversário dele. Nele dizia que, quando ele nasceu, eu estava tão focada em fazer as coisas darem certo por causa da empolgação. Mas hoje percebo que esse amor não é nem um décimo que sinto e só cresce. Nada mais é tão importante. Nenhum projeto, conquista financeira ou material se compara ao seu filho. É uma descoberta diária do quanto pode crescer esse amor e do quanto se pode amar alguém. Dá trabalho, dá muita preocupação, mas ele deixa minha vida muito mais leve e feliz".  

MAIS MUDANÇAS

Recieli Knoner Gorski é mãe da Lieta, de 1 ano, e do Rael. Ela, assim como Bruna, deu à luz na pandemia e tem acompanhado o desenvolvimento dos filhos dentro de casa. As mudanças no desenvolvimento de Lieta com relação ao primeiro aninho do filho mais velho foram inevitáveis. 

"A principal diferença na rotina de mãe na pandemia entre a Lieta e o Rael é com relação a saídas com ele. A gente visitava os zoológicos, o parque e o sítio. Mas com ela ficamos restritos em casa. Vamos no máximo ao mercado uma vez no mês e durante a semana na feira", conta. 

Recieli com Lieta e Rael. (Foto: Arquivo pessoal)


Recieli relembra que foram muitos os planos que precisaram ser cancelados. "No primeiro aninho dela a gente planejava visitar os parentes nos EUA, mas não fomos. As festinhas dela fizemos só com o pessoal de casa. O 1 aninho dela nós revezamos, entre a casa dos meus pais e a dos pais do Rodrigo [esposo]. Até as consultas nos pediatras diminuímos para evitar realmente sair de casa". 

A vacinação contra a doença, iniciada esse ano, foi uma aliada da família durante os encontros e visitas aos entes queridos. "Quanto aos parentes, tem uns avós e uns bisavós que moram na mesma cidade. Então o contato continuou o mesmo. A gente via eles nos finais de semana, mas sempre em locais abertos. As visitas se intensificaram quando as minhas bisavós tomaram a vacina".  

Família de Recieli. (Foto: Arquivo pessoal)

Neste domingo, o almoço em família já está garantido, com direito a uma viagem estendida, onde Recieli comemorará a alegria que é ser mãe durante mais um ano. "Nós somos muito caseiros, então é um almocinho em casa mesmo. Dessa vez decidimos passar o Dia das Mães com a minha mãe em Cascavel, no Paraná. Seria uma viagem de bate e volta, mas por causa da pandemia vamos ficar quarenta dias por lá".


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