A falsa médica que foi presa na noite de ontem (22) em Campinas, teve a prisão preventiva decretada na manhã desta terça-feira. A mulher atuava ilegalmente com atendimento domiciliar principalmente a idosos, prescrevendo exames e remédios, inclusive com receituários de controle especial.
Segundo a polícia, ela também era responsável por uma empresa de saúde, e usava há anos o nome e registro de uma dermatologista do Rio de Janeiro.
Simone Martins Ferreira, de 44 anos, tem formação em farmácia e usava o nome e registro profissional de Simone Abreu Salles, dermatologista que é formada a atua como professora há 32 anos na Universidade Federal Fluminense. Veja abaixo entrevista com a médica que teve o registro usado pela acusada.
A prisão da falsa médica aconteceu após investigações da DIG (Delegacia de Investigações Gerais). No momento da detenção, ela prescrevia uma receita, usando o nome da médica do RJ para um paciente (veja mais abaixo).
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VÍTIMAS
Uma moradora de Campinas contou que contratou serviços da suposta médica no ano passado. O pedido de exame entregue pela suposta médica tinha o carimbo com o registro profissional da dermatologista Simone Abreu Salles, de Niterói, mas estava com endereço de uma clínica da Vila Itapura, em Campinas. Com uma pesquisa, ela já suspeitou que o documento era fraudado.
“Eu recebi uma indicação de exame com carimbo, o CRM de uma médica chamada Simone Salles, que não é o mesmo nome da pessoa com a qual eu estava tendo contato. Não era a mesma pessoa que estava me passando a receita”, afirmou a vítima, que prefere não ser identificada.
“Eu vi que a doutora Simone Salles, do Rio de Janeiro, é uma pessoa idônea. Entrei em contato, vi a clínica que ela opera lá no Rio. E vi que realmente, a pessoa que estava tendo contato comigo não era essa verdadeira doutora que estava com o CRM no pedido de exame”, completou.
Ela conta como foi o atendimento: “Se apresentou como médica, mas nas vezes que ela deu orientações médicas foram coisas que qualquer pessoa poderia ter falado. Qualquer pessoa pode entrar no Google, fazer uma pesquisa rápida e ter algumas opiniões, como ela teve se passando por médica”.

Depois que descobriu a farsa, a vítima do falso atendimento conta que ficou preocupada. “A primeira coisa é o medo porque uma vez que a gente sabe que a pessoa não é quem ela diz, a gente pensa que ela é capaz de tudo”.
Segundo a polícia, outras vítimas também reconheceram e afirmaram ter sido atendida pela falsa médica, que chegou a ser contratada para acompanhar jogadores de futebol do Amparo Futebol Clube.
A VERDADEIRA E A FALSA
A verdadeira médica, Simone de Abreu Neves Salles, tem mais de 60 anos, é formada pela Universidade Federal Fluminense há cerca de 40 anos e dá aula na mesma universidade de medicina há 32 anos. Ela estava há anos tentando impedir o uso do nome e registro pela golpista.
Já a mulher que usava ilegalmente os dados da dermatologista é Simone Martins Ferreira, de 44 anos. As primeiras letras do nome são as iniciais da assinatura digital da empresa M&S LTDA, com CNPJ ativo, registrado em 2018 na cidade de Cassilândia, no Mato Grosso do Sul. No Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, Simone Martins Ferreira aparece como sócia administradora.
No Instagram, a conta da empresa oferece ambulância de UTIs novas e completas. O perfil é seguido pela conta “simonemssaúde”. Nela, Simone compartilhava fotos de viagens, festas, produtos para a pele e a última postagem tinha a logomarca da marca “M&S Saúde Home Care”.

Em entrevista à EPTV, a verdadeira médica afirma a preocupação pela atuação da falsária, que usa o seu nome. “Eu fico muito triste e apreensiva com o que essa pessoa possa causar a um doente. É uma coisa muito séria, estamos lidando com a vida, que é o bem mais precioso das pessoas”.
A DENÚNCIA
Em 2021, o Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) recebeu denúncias que uma falsa médica usaria em campinas nome e registro profissional de Simone Salles.
A investigação começou após o pedido de uma empresa do ramo de saúde ocupacional com sede em SP, que em 2020, durante a pandemia, abriu vagas para a contratação de profissionais de saúde em todo o brasil. Entre os contratados estavam a “GS Consulting Consultoria e Treinamento Farmacêutico e/ou M&S Saúde LTDA”, representada por Simone de Abreu Neves Salles.
Usando o nome e registro da dermatologista do RJ, a falsa médica assinou contrato em abril de 2020, disse que morava em Campinas e teria se formado em medicina em 2004.
“Eu estranhei muito porque nunca exerci minha profissão fora da minha cidade ou fora do meu estado. Todos sabemos que ao exercermos a nossa profissão em outro estado devemos pagar o CRM desse estado, transferir ou pagar os dois, e isso não ocorreu”, contou a verdadeira médica.
Durante uma investigação interna, a empresa identificou inconsistência no cadastro da referida empresa da falsa médica, e com as divergências nos dados e encerrou o contrato com a suposta médica em 2021.
“Ela trabalhou nessa empresa por cerca de um ano, on-line, prestando serviços médicos, exames e uma série de outros procedimentos, utilizando a minha carteira do CRM falsa, com o nome dos meus pais errados e acho que isso foi um descuido dessa empresa”, desabafou a vítima.
Sabendo do uso ilegal do nome e do registro, a médica pediu explicações para a Delegacia Regional do Cremesp em Campinas, registrou um boletim de ocorrência e denunciou a estelionatária ao MPF (Ministério Público Federal).

A PRISÃO
A prisão de ontem (22) aconteceu após investigações da DIG (Delegacia de Investigações Gerais). Segundo a polícia, a mulher já tinha diversas denúncias e processos de estelionato. Ela chegou a ser presa em agosto do ano passado, na Vila Itapura.
Na ocasião, durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão expedido pela 4º Vara Criminal de Campinas, a golpista se negou a entregar a bolsa para passar por revista, sendo necessário o uso de força física. Com a falsa médica, os policiais apreenderam mais indícios de fraude, entre cartões de visitas, carimbos com nome da médica do RJ, blocos de receituário, de atestado médico, além de equipamentos e materiais hospitalares, como tubos de coleta, seringas e agulhas.
Ela foi presa em flagrante, mas acabou solta após pagar a fiança de R$ 1,3 mil, respondendo em liberdade por exercício ilegal da medicina. Mesmo após a prisão no ano passado, a golpista não parou de atuar de maneira ilegal, e tinha uma suposta empresa de home care, fazendo atendimento domiciliar para pessoas que estavam doentes. A polícia continuou a investigação após o recebimento de novas denúncias.
Segundo a DIG, a golpista atua como médica na região há dois anos. Apesar de já ter sido presa anteriormente, a polícia afirma que a nova prisão foi dificultada, já que a mulher mudava constantemente de endereço e adotou cautelas.
“Para a Polícia Civil, foi muito complicado identificar o local em que ela estava atendendo, porque ela mudava constantemente de endereço. Vários endereços foram checados e chegamos a acreditar que ela não atendia mais presencialmente. Ela foi presa em flagrante durante um atendimento”, explicou o delegado assistente da DIG, Luiz Fernando Dias de Oliveira.
Em revista, policiais encontraram com a falsa médica receituários de controle especial, equipamentos de exames e uma credencial da Federação Paulista de Futebol, se apresentando como médica. A polícia vai investigar se a credencial também foi fraudada.
O FLAGRANTE
O delegado explicou que o flagrante de ontem aconteceu após uma policial, que acompanhava um atendimento médico, suspeitar que a médica era a mulher já investigada pela falsa atuação na área.
“Uma mulher pediu acompanhamento de uma policial civil até a residência para atendimento ao seu pai. A policial civil acompanhando o atendimento, notou quando ela se apresentou e passou a qualificação. Sabendo das investigações, ela manteve contato com outros policiais civis, indagando sobre as investigações sobre a falsa médica. Os agentes receberam fotos e confirmaram a identidade da falsa médica e se deslocaram para o local. Ela encerrou o atendimento e recebeu voz de prisão em flagrante”, explicou.
“Ficou muito bem caracterizado. Ela se apresentou como médica, apresentou credenciais, prescreveu, aferiu pressão, e ao final receitou medicamentos e exames e acabou carimbando e assinando receituário. Ela também estava em posse de insumos, cartões, que levam a crer que ela atuava nesse ramo há um bom tempo”, completou.
A falsa médica foi encaminhada para a cadeia de Paulínia, e teve a prisão preventiva decretada pela Justiça após audiência de custódia.
Em nota, o Cremesp que informou que foi aberta sindicância, que está em andamento, e registro da verdadeira médica está regular. A polícia indica que possíveis pacientes que tiveram consulta com a médica procure a polícia para registrar um boletim de ocorrência e procure novo atendimento médico.