No dia 24 de novembro de 2025, Daniel Lucas de Campos, de 32 anos, morreu na guerra da Ucrânia. O campineiro havia se alistado voluntariamente e não resistiu aos ferimentos depois de um ataque russo, com drones, a instalações energéticas ucranianas.
No Brasil, além de perder o amor de sua vida, Letícia Prado, esposa de Daniel, começou a enfrentar outro drama: a demora na repatriação do corpo do marido.
“O corpo dele está em Zaporizhia, ele chegou vivo no hospital de lá, mas não aguentou, faleceu. Ele ficou no necrotério e a dificuldade é a demora. Eles pediram autorização da autópsia na terça, até agora nada”, conta Letícia.
“Depois de tanto cobrar, hoje (sexta-feira) recebi uma mensagem que a autópsia seria realizada, eles iriam fazer uma homenagem lá e depois enviariam o corpo. Seria um processo demorado e minha única alternativa era esperar. Já são 12 dias”, acrescenta a esposa, que tem contato direto, pelo WhatsApp, com o Exército ucraniano.
Nesta sexta-feira (5), a família de Daniel Lucas pediu ajuda à Prefeitura de Campinas para a repatriação. O prefeito Dário Saadi (Republicanos) encaminhou ofícios pedindo apoio ao MRE (Ministério das Relações Exteriores) e ao embaixador da Ucrânia no Brasil. Nos documentos, a Administração municipal apela para que os órgãos auxiliem no trâmite para trazer o corpo de Daniel Lucas ao Brasil.
Letícia diz que não recebeu apoio do MRE. “Eles falaram que, como ele era voluntário, não tem como ajudar”, acrescenta a esposa de Daniel.
‘Meu marido tinha um sonho, não deu certo. Quero ele em casa’
Daniel sabia do risco que corria, mas foi à Ucrânia em busca de realizar um sonho. “A vontade de fazer dar certo sempre foi maior do que o medo. Eu sempre tive medo, ele não. Era o sonho, ele desejava aquilo. Servir, ajudar”, diz Letícia.
Ela também conta que o marido tentou entrar na FAB (Forças Armadas do Brasil), no alistamento obrigatório, aos 18 anos, mas foi dispensado. “Ele tentou a polícia, não deu certo, e se formou como bombeiro civil”, completa.
Segundo a esposa, Daniel era centrado, esforçado e um pai excepcional. Ele deixou dois filhos. “Sempre quis dar uma vida melhor à família”, conta Letícia.
Com ele na Ucrânia, o casal mantinha contato por videochamadas. “Sempre feliz e realizado. Domingo, antes de falecer, me ligou de vídeo e disse: ‘amor, estou no céu, é tudo que sempre quis’.”
Apesar da promessa de receber uma remuneração conforme as missões e a expectativa de que a família recebesse uma indenização em caso de morte, Letícia reforça que a principal motivação de Daniel foi a “emoção de fazer o bem”.
“Eu tentei não olhar”
A família recebeu apenas R$ 7 mil nos dois primeiros meses e depois não houve qualquer pagamento. A questão financeira desencadeou outro problema: as mensagens de ódio nas redes sociais.
“Eu tentei não olhar, mas amigos e familiares ficaram batendo boca. A maioria das pessoas não sabe o que é viver um sonho, com isso vem a frustração e as mensagens de ódio”, desabafa Letícia.
Vaquinha online
O MRE arca apenas com o translado entre Kiev e Brasília, segundo os familiares, e, para transportar o corpo até Campinas, parentes e amigos organizaram uma vaquinha online, que já arrecadou R$ 12 mil e segue aberta (clique aqui para acessar).
“Toda ajuda é bem-vinda. Eu só quero trazer o corpo do meu marido pra casa. Eu não consigo dormir, comer, só penso em trazer ele pra descansar”, conclui Letícia.
Guerra na Ucrânia
O conflito teve início em 24 de fevereiro de 2022, com a invasão russa ao território ucraniano. Segundo um estudo do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais), até junho de 2025, o Exército ucraniano tinha sofrido 400 mil baixas, com mortes entre 60 e 100 mil. Já as Forças Armadas russas tiveram 950 mil baixas, segundo o estudo, sendo até 250 mil mortes.
De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), mais de 14.300 civis perderam a vida e pelo menos 37.500 ficaram feridos.
Neste sábado (6), o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que está determinado a continuar trabalhando com os Estados Unidos para conseguir a paz com a Rússia.
Os três países seguem discutindo o fim da guerra, com reuniões marcadas para a próxima semana, inclusive com a participação do presidente francês, Emmanuel Macron.
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