A violência física e verbal nas escolas estaduais de Campinas cresceu neste ano em comparação com o mesmo período de 2024. O levantamento, feito pela produção da EPTV com base em informações da secretaria Estadual de Educação, mostra que entre fevereiro e agosto de 2024 foram registrados 3.689 casos, enquanto no mesmo período de 2025 o número subiu para 4.678 ocorrências, um aumento de 26,8%.
A professora da Faculdade de Educação da Unicamp, Telma Vinha, avalia que o aumento das agressões é resultado de múltiplos fatores, incluindo discursos de ódio presentes na internet e nas redes sociais.
Segundo ela, também há um foco excessivo em uma educação baseada apenas em resultados, sem considerar a escuta e o cuidado necessários com os alunos:
“Um dos fatores é justamente um aumento das violências. Além disso, o que se identifica é um foco muito grande em uma educação de resultados e nem tanto numa educação que o tempo atual demanda. O tempo atual demanda que as escolas sejam muito mais escolas de cuidado, de escuta dos adolescentes.”
Telma ainda ressalta que muitos estudantes sentem dificuldade em serem ouvidos pelos adultos, tanto na família quanto nas escolas.
Caso de estudante evidencia o problema
Os hematomas nas pernas foram resultado da agressão mais violenta sofrida por uma estudante, que prefere não se identificar. Ela relata que enfrenta agressões físicas e verbais há dois anos:
“Agressões verbais e não verbais, envolvendo chutes, bullying por causa do meu cabelo, meu peso, me chamam de gorda. Chegaram a me dar soco, chutes, puxão de cabelo, tapa.”
Após um chute na perna, a direção da escola adotou uma medida polêmica: “Simplesmente fez a gente fazer um trabalho sobre conscientização do lixo, junto com o agressor.”
A mãe da estudante, de 13 anos, contou que os abusos afetaram profundamente a vida da filha:
“Ela não tem mais vontade de viver na realidade, não só de ir pra escola. Bem complicado, está passando com psicólogo, psiquiatra. Mas pro ano que vem eu preciso que transfiram ela de escola porque não tem como ela continuar nessa escola.”
Observações de estudantes da Unicamp
Alunos da Universidade Estadual de Campinas apresentaram um trabalho sobre convivência e violência escolar, baseado em observações feitas em escolas de diferentes regiões da cidade.
Fabiana Cecília, estudante de Biologia, destacou que muitos alunos carregam uma carga emocional de casa, que se reflete no comportamento em sala de aula e nos intervalos. Segundo ela, isso pode levar a conflitos e brigas, especialmente em escolas de regiões periféricas:
“Tem casos de alunos que trazem uma carga emocional de casa e acabam expressando isso dentro de sala de aula. Atrapalhando aula de professor, conversando demais com os amigos. No intervalo, por exemplo, a gente vê situações de brigas entre os alunos, principalmente quando a gente fala de escolas de regiões mais periféricas.”
Gabriela Rodrigues Silva, estudante de Geografia, acrescentou que a ansiedade dos alunos tem aumentado recentemente, tornando difícil para eles se conterem durante as aulas:
“Eu percebo que recentemente, os alunos vêm ficando cada vez mais ansiosos. E essa ansiedade durante a aula eles acabam não conseguindo conter.”
As estudantes também comentaram sobre a proibição dos celulares nas escolas. Fabiana observou que, antes da restrição, os dispositivos faziam com que as crianças ficassem mais isoladas, mas com a proibição aumentou o contato físico e a interação entre os alunos:
“O celular acaba fazendo com que as crianças ficassem mais quietinhas, no canto delas, apesar de atrapalhar as aulas. Os alunos não se conectavam tanto entre si. Como agora, com a proibição do celular, a gente tem mais esse contato físico, essa conversa, isso acaba fazendo com certeza que eles acabem interagindo mais.”
Ambiente acolhedor é fundamental
Para Telma Vinha, políticas públicas precisam oferecer suporte aos profissionais da educação para criar ambientes com rodas de diálogo, assembleias e comunidades de apoio, transformando a cultura escolar:
“As políticas públicas precisam de fato, além de trabalhar com educação, dar suporte para esses profissionais dentro da escola para que eles consigam criar ambientes em que tenham rodas de diálogo, assembleias de alunos, comunidades de apoio entre eles. E que efetivamente transforme a cultura da escola. Então precisamos com urgência olhar para esses dados com a seriedade que eles merecem.”
O que diz a secretaria de Educação
A secretaria da Educação do Estado afirmou, em nota, que tem intensificado ações de combate à violência nas escolas. Entre as medidas adotadas estão:
- Integração do sistema de registro de ocorrências com outros órgãos estaduais, permitindo respostas mais rápidas e coordenadas;
- Reforço da Ronda Escolar;
- Ampliação do número de psicólogos nas escolas;
- Atualmente, a rede conta com 725 professores orientadores de convivência, responsáveis por mediar conflitos e apoiar a convivência entre alunos.
A secretaria ressaltou que cada caso de violência é acompanhado individualmente e que todas as medidas cabíveis foram adotadas no caso da estudante citada na matéria. Os responsáveis foram acionados e a unidade regional de ensino já efetuou a transferência da aluna para a escola solicitada, garantindo um ambiente mais seguro.
Além disso, a pasta destacou que mantém programas contínuos de formação para professores e equipes escolares, com foco na mediação de conflitos e na promoção da cultura de paz dentro das unidades de ensino.
*Com informações de Gustavo Biano/EPTV Campinas
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