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Lutar pra ficar em casa ou ir à luta: uma questão de sobrevivência

Comparação mostra que avanço dos casos de coronvírus no Brasil é bem pior que na Itália

| Especial para ACidade ON

Representação do coronavírus (Imagem: TheDigitalArtist / Pixabay) 


Como pesquisador na área de Virologia desde o ano de 2005, tenho acompanhado de perto, em meu cotidiano, o surgimento do novo Coronavírus desde seu epicentro em Wuhan, na China, no final de 2019. Por ironia do destino, minha iniciação científica e no meu mestrado, trabalhei com vírus respiratórios e, no meu doutorado, numa visão mais ampliada de saúde pública, com foco em Saúde Única (tradução literal do inglês, One Health), trabalhei com vigilância epidemiológica ativa, estudando Coronavirus em morcegos.  

Nos últimos dias, o Brasil tem vivido novamente um enfrentamento entre apoiadores e não apoiadores do governo federal. Essa briga invade os noticiários, as redes sociais e até mesmo os almoços de domingo de muitas famílias brasileiras. Dado minha formação acadêmica e diante desse impasse entre a tomada de decisões de estados e municípios, Ministério da Saúde e pronunciamento do presidente, decidi elaborar uma comparação com dados da Organização Mundial da Saúde sobre a situação epidêmica entre Brasil e Itália relacionado ao número de infecções por SARS-CoV-2 (do inglês Severe Acute Respiratory Syndrome Related Coronavirus Type 2), o vírus causador da COVID-19 (do inglês, Coronavirus Disease), que amedronta e assola o mundo.  

Escolhi a Itália pelo fato do mundo ter se sensibilizado inicialmente pelo grande número de mortes. Não querendo buscar dados para justificar o número de mortos na Itália, apenas me detive a comparar a evolução no número de casos (figura 1 Brasil, linha verde; Itália, linha vermelha) e de mortos (figura 2) nos primeiros 32 dias depois do primeiro registro de SARS-CoV-2 em cada país. Os dados são assustadoramente piores no Brasil.

Gráfico 1
Gráfico 2 


Embora a Itália seja somente a segunda em número de casos positivos, "perdendo" somente para os Estados Unidos, podemos observar o impacto sofrido pelo país diante da doença. Um grande número de reportagens e elevado número de vídeos e publicações circulam nas redes sociais sobre a elevada taxa de mortalidade naquele país. No entanto, minhas análises demonstraram que atingimos um exponencial tanto para o número de casos quanto para o número de mortos muito antes que a Itália.  

Vale ressaltar que a China, dado sua grande contribuição científica sobre o tema, vem alertando desde meados de janeiro, que o ideal seria uma tomada rápida de decisão para inviabilizar o aumento exponencial no número de casos. Infelizmente, alguns países, seja por parte de suas populações e de seus governos, baseados em teoria da "conspiração" ou até mesmo na preocupação relacionada a fragilidade de suas economias, pareceram não levar muito a sério e, ironicamente, são aqueles que mais têm sofrido em números de casos e de mortes. 

A Itália, por exemplo, decidiu colocar o país em quarentena somente depois que o caos havia se instalado, cerca de um mês após o primeiro registro da doença. Os Estados Unidos, que teve também ações descentralizadas e um embate político-filosófico sobre a severidade da doença, decidiu optar por medidas profiláticas mais severas somente em meados do mês de março, quase dois meses depois do registro do primeiro caso. Um ponto positivo é que estes países estão no hemisfério norte e estão saindo de seus períodos de sazonalidade das infecções respiratórias, como a estação do vírus Influenza, por exemplo.  

Mas, e o Brasil? Sabe-se que o vírus já apresenta uma transmissão comunitária. Ainda, no próximo mês, teremos o início dos registros de quedas na temperatura, momento em que começarão a recircular os vírus respiratórios sazonais. Esses vírus (o HRSV (Vírus Sincicial Respiratório Humano), HMPV (Metapneumovirus Humano), HBoV (Bocavirus humano), HRV (Rinovirus humano), dentre outros alfa e betacoronavirus humanos), todos os anos, são velhos conhecidos dos brasileiros, uma vez que são responsáveis pelos resfriados comuns na maior parcela da população, mas também leva a hospitalização e morte aqueles indivíduos da população de risco. Isso sem falar do Influenza, causador da gripe!  

Diante desse cenário, poderemos sair a luta? Sim, claro, se tivermos as respostas claras, por parte de todas as esferas do governo, de algumas questões chave:  

1.Teremos atendimento suporte para TODOS que procurarem, possivelmente AO MESMO TEMPO, os serviços de saúde, sejam eles PÚBLICOS ou PRIVADOS? Em outras palavras, temos leitos de enfermaria, respiradores, leitos de UTI para uma parcela significativa de nossa população, que sofre de comorbidades como hipertensão, diabetes, cardiopatias, problemas respiratórios, e que possivelmente terão um quadro clínico mais severo da doença?  

2.Teremos testes moleculares e rápidos e também apoio técnico disponibilizado para TODOS que necessitarem ser diagnosticados?
3.Há alguma MEDIDA ALTERNATIVA, por parte dos detentores do poder econômico, para SUBSIDIAR A ECONOMIA e a população menos favorecida economicamente, sendo que esta também contém os mais altos índices de indivíduos considerados de risco para infecção grave?
4.Quais são os planos de contingenciamento de circulação do vírus caso a quarentena não seja efetivamente implementada para todos os indivíduos da população brasileira?
5.Quais são os ACORDOS FINANCEIROS oferecidos pelo Banco Central e pelos bancos no Brasil para APOIAR AS EMPRESAS, para EVITAR DEMISSÕES EM MASSA de seus trabalhadores (aviação civil, entretenimentos, trabalhadores informais, comércio e indústria em geral, por exemplo)?
6.Quais são os planos de suporte para a população mais carente efetivamente "NÃO MORRER DE CORONAVÍRUS NEM DE FOME"?

Enfim, é chegada a hora de somar esforços, em todas as esferas governamentais, para não virarmos manchetes nos jornais internacionais, como aconteceu com a Itália e tem acontecido com os Estados Unidos. Sendo assim, daqui poucos meses, com nossa população viva e saudável, TODOS, JUNTOS, enfrentaremos o próximo leão da vez. Afinal, brasileiro vive assim, matando um leão por vez!

PhD Paulo Vitor Marques Simas é biólogo, mestre em Microbiologia e Doutor em Genética e Biologia Molecular. Atualmente é Pesquisador Associado do Laboratório de Patologia Aviária, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Nacional Mayor de San Marcos, Lima, Peru e Pesquisador Colaborador do Laboratório de Virologia Animal, do Instituto de Biologia da Universidade de Campinas.

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