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Cesárea ou parto normal: de quem deve ser a escolha?

Projeto de lei que tramita na Alesp deve gerar "boom" de cesáreas na rede pública de saúde

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A deputada estadual Janaína Paschoal (PSL) (Foto: José Antonio Teixeira/Alesp) 

Um projeto de lei que tramita na Assembleia Legislativa de São Paulo pode mudar a forma como hoje é feito o parto no Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado. A deputada Janaína Paschoal (PSL) quer que a mulher escolha entre a cesárea e o parto normal.

O projeto de Janaína, uma promessa de campanha, estabelece que a mãe pode optar pela cesariana mesmo sem a indicação clínica a partir da 39ª semana de gestação.

Atualmente, a rede pública realiza, em média, 30% de cesarianas - a maioria dos bebês nasce de parto normal. Em 2017, na rede pública e em convênios de Campinas, foram realizados 15.432 partos. Desses, 9.707 foram cesarianas e 5.722 normais.

Os índices de cesáreas ainda são altos no Brasil. O aumento do parto normal no SUS pode até parecer importante, já que as complicações são menores do que na cirurgia, há benefícios para os bebês e as mães se recuperam mais rápido.

O problema está na forma como os partos são conduzidos. Muitas mulheres são vítimas da violência obstétrica.

A proposta da deputada Janaína pode ser votada na próxima semana e gerou um debate intenso na Alesp no final do primeiro semestre. Isso porque uma ala defende que o parto seja o mais natural possível, mas humanizado, com cuidados especiais para mães e bebês.

Uma lei já aprovada pelos parlamentares garante essa humanização mas, na prática, ela não funciona.

O grupo acusa Janaína de ter interesses em incentivar a cesárea. Do outro lado, a parlamentar se defende e diz que a escolha deve ser da mãe. "Não estou impondo nenhum tipo de parto a quem quer que seja. Estou tentando impedir que uma das vias de parto seja imposta. Não posso generalizar, mas a maioria das pessoas que tenho ouvido simplesmente não ouve. O diálogo que elas querem é que eu desista. Nem a pau!", disse a deputada em seu Twitter ao defender o projeto.

Uma das deputadas que faz frente ao projeto é Beth Sahão (PT). Em audiências públicas ela defendeu a humanização. "A cesárea pode salvar vidas quando mães e bebês estão em risco. Mas é comprovado cientificamente que o parto natural é mais saudável para os dois", disse.

A parlamentar defende que seja incentivada a humanização, com mais recursos para a contratação de equipes especializadas e com o aprimoramento do pré-natal.  

Cesárea x parto normal
VIOLÊNCIA

A violência obstétrica pode estar presente durante a cesariana e no parto normal. Foi o que aconteceu com a professora de meditação Paula Ribeiro. O primeiro filho veio de cesariana, apesar da vontade e do empenho para que fosse normal.

"Na minha primeira gravidez fui atendida pelo convênio médico. Queria o parto normal. Fiz toda a preparação, mas no dia do nascimento, depois de 7 horas de trabalho de parto, fui informada que teria que passar por uma cesariana. Mais tarde soube por uma especialista que eu não precisaria ter feito o procedimento e que meu filho tinha todas as condições para nascer de parto normal. Foi uma violência", disse.

Na segunda gestação, Paula optou por fazer todo o pré-natal no SUS e continuar no seu esforço para que o parto de sua filha fosse normal. Ela conseguiu, mas também foi vítima de violência. "O trabalho de parto foi rápido. Levou umas duas horas. Mesmo assim, foi traumático. Não me deixaram ficar na posição que eu gostaria, que era de cócoras. Pedi anestesia e não fui atendida".

Paula teve sua filha sem o acompanhamento da médica que fez o atendimento do pré-natal. "Só tinha estagiários comigo. Minha médica estava de folga. Foi horrível. Um desrespeito, uma violência. Você pede a anestesia e não é atendida. Eu tinha combinado isso previamente com a minha médica. É um momento de muita dor para a mãe. Você não tem forças para insistir com a equipe", disse.

CULTURA DA CESÁREA

Um estudo publicado no ano passado com dados do Fundo das Nações Unidas para Infância e da Organização Mundial da Saúde coloca o Brasil em segundo lugar no ranking dos países que mais realizam cesáreas no mundo. O indicado pela OMS é 15%. O Brasil registra 57%.

O alto número de cirurgias é atribuído a equipes médicas menos competentes para acompanhar os partos, facilidades de agendamento de cesarianas e a vantagens econômicas.

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