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Monumentos de Campinas ignoram personagens femininas

Cidade é a segunda do país com mais monumentos por habitante, mas apenas dois homenageiam mulheres

| Especial para ACidade ON

Mãe Preta é uma das figuras femininas homenageadas em Campinas (Foto: Luciano Claudino/Código 19) 

Campinas é a segunda cidade do Brasil com o maior número de monumentos por habitante, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro (RJ) - mas apenas dois deles homenageiam figuras femininas.

Um levantamento do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Cultural do município (Condepacc) aponta que são cerca de 150 estátuas, marcos e outras estruturas espalhadas pela cidade. Mas as mulheres são representadas apenas na figura da "Mãe Preta", no Largo São Benedito, e no Monumento do Bicentenário de Campinas, na Praça Antônio Pompeo.

Há ainda uma estátua da pianista e cantora lírica do século 19 Maria Monteiro, mas ela é apenas coadjuvante no monumento em homenagem a Carlos Gomes, e está abaixo dele, na Praça Bento Quirino.

A coordenadora do Condepacc, Daisy Ribeiro, explicou que o que a escassez de mulheres em monumentos, e até logradouros, é reflexo de séculos de uma sociedade patriarcal, onde as mulheres estavam à sombra da vida política e social dos municípios.

"Mesmo no Cemitério da Saudade, são raríssimas as esculturas com figuras femininas. Durante muito tempo, eram os homens que editavam a história e, em Campinas, não é diferente", disse.

Daisy falou que mesmo em documentos históricos da cidade, as mulheres são citadas apenas como esposas de figuras importantes ou de fazendeiros e, de vez em quando, são mencionadas como professoras.

"Há muitas histórias ligada a mulheres em Campinas que não estão documentadas. E acho que permanece assim até hoje. Cabe a nós, mulheres, realmente jogarmos luz a essa questão e mudarmos essa cultura."  

Monumento do Bicentenário de Campinas (Foto: Luciano Claudino/Código 19)
MEMÓRIA

A pesquisadora do Centro de Memória da Unicamp, Maria Silvia Duarte, é uma das responsáveis por um vasto acervo histórico da cidade. Lá, é possível encontrar informações sobre diversas moradoras que influenciaram pessoas e marcaram época em Campinas. Maria Silvia explicou que a não valorização das mulheres em monumentos faz parte de uma visão conservadora que privilegia a presença de figuras masculinas em postos de poder.

"O desenrolar da nossa história produz também estratégias de esquecimento, onde as figuras femininas estão em um limbo. Mas se tivermos um olhar mais cuidadoso e amplo, percebemos muitas e muitas mulheres que se destacaram em seu espaço de atuação na cidade."  



NOTORIEDADE

Maria Silvia disse que a cidade tem centenas de mulheres que poderiam receber homenagens em pontos importantes da cidade, e citou algumas.

Entre educadoras famosas no município, estão Carolina Florence, esposa do fotógrafo Hércules Florence, que montou um colégio para meninas na segunda metade do século 19, e Amélia Pires, ícone da renovação educacional no Brasil na década de 60 e criadora da Escola Comunitária.

Maria Luíza Pinto de Moura, bibliotecária do Centro de Ciências Letras e Artes, foi uma das figuras mais significativas para os pesquisadores de Campinas e região pelo cuidado que ela teve com o acervo e documentação histórica da cidade.

Famosa pela luta do direito das mulheres e perseguida pela Ditadura Militar, Laudelina de Campos Mello formou o primeiro sindicato de empregadas domésticas do Brasil em Campinas, em 1961. 


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