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Projeto inclui moradores de rua no mercado de trabalho

Em três anos, Mão Amiga conseguiu emprego para sete moradores de rua de Campinas, por meio de empresas parceiras

| Especial para ACidade ON

Moradores de rua em Campinas (Foto: Denny Cesare/Código 19) 

Campinas não tem uma contagem oficial de moradores de rua desde 2016, mas não são necessários dados oficiais para constatar que o número aumentou muito nos últimos três anos. A última informação da Prefeitura é de que são 623 pessoas nessa situação e um novo levantamento está sendo feito pela Secretaria de Assistência Social. Mas a Pasta admite que provavelmente houve um crescimento de cidadãos vivendo nas vias, calçadas e sob os viadutos do município, e tem trabalhado formas de amenizar os impactos deste problema social. 

Um deles é o Mão Amiga, com o objetivo de reduzir danos do vício e reinserir moradores de rua na sociedade. Em atividade desde 2016, o projeto seleciona pessoas para acompanhamento médico, psicossocial e para aulas de qualificação profissional. Hoje, o programa já conseguiu recolocar sete ex-moradores de rua no mercado de trabalho, com o apoio de empresas parceiras. 

Edinaldo Alves da Silva, de 48 anos, disse que agradece todos os dias ao acordar pela oportunidade de trabalhar novamente. Depois de oito anos em situação de rua, passou pela reabilitação no Instituto Padre Haroldo e fez as aulas de jardinagem do Mão Amiga.  

"Foi um divisor de águas na minha vida. Tive muito conhecimento e aprendizado no programa. Fiz escolhas ruins no passado. Mas aprendi a ser um cara responsável e de respeito com o programa. As aulas não abordam apenas a capacitação profissional, mas resgatam a nossa autoestima."  

Ele soube do Mão Amiga em um dos abrigos municipais em que dormia de vez em quando. Hoje, é pedreiro de uma das construtoras parceiras da Prefeitura, e diz estar realizado na profissão. "Fiz amigos, tenho uma rotina. Eu amo tudo isso aqui", disse ele, no campo de obras. 

Silva explicou que já usou diversas drogas, mas foi o vício em álcool que o levou ao fundo do poço. Filho de uma família estruturada e de classe média da Freguesia do Ó, em São Paulo, ele contou que o acolhimento e empatia que recebeu dos profissionais e amigos do programa foram fundamentais para recuperar a sua vida. 

"Em três anos montei a minha casa, fiz uma família. Hoje tenho uma filhinha de 1 anos e 6 meses. Por isso estou sempre alerta, me policiando. Você não se cura do vício, você controla."  


PRECONCEITO 

Outro xará de Edinaldo também está empregado com a ajuda do Mão Amiga. Natural do Recife, Ednaldo Costa, de 31 anos, contou que veio a Campinas para morar com o irmão em 2009, mas se perdeu nas drogas. "É uma coisa que a gente experimenta e acha que consegue controlar, mas não consegue. Perdi o emprego para as drogas e fiquei nove anos na rua. Acho que o pior é a cara de nojo e de medo que as pessoas olham para você. Enfrentar o preconceito foi a pior coisa."

Costa disse que também soube do programa no abrigo municipal e que o início do tratamento não foi fácil: ele teve recaídas e é grato por ter sido acolhido de volta ao Mão Amiga.  

"Se eles não tivessem acreditado em mim, hoje não estava aqui. Fui abrindo os olhos e reunindo todas as minhas forças para me controlar. Hoje estou indo bem e fui até promovido", contou o pedreiro, que também trabalha em uma construtora parceira do programa. Ele mora com sua esposa, Larissa, que conheceu nas ruas e hoje também já está trabalhando.  

COMO FUNCIONA 

Ao todo, são cinco secretarias municipais envolvidas na rede de atenção aos participantes, que recebem uma bolsa de R$ 976,75 por mês. Em contrapartida, eles se comprometem a obedecer às regras, não faltar às aulas e a fazerem tratamentos contra o vício de álcool e drogas, se for o caso. 

A psicóloga e gestora do Mão Amiga, Márcia Pantaleão, afirmou que o Sindicato da Construção Civil de Campinas (Sinduscon) intermediou a parceria com as empresas que hoje empregam oito ex-alunos do programa. Segundo Márcia, a cidade tem uma lei municipal que abre a possibilidade de empresas terceirizadas da Prefeitura também contratarem funcionários que participaram do Mão Amiga. 

O programa está na quarta turma e tem hoje 39 bolsistas ativos. "Os principais requisitos para participar do Mão Amiga é ter mais de 18 anos e estar há pelo menos dois anos em Campinas", explica Márcia. 

A triagem é feita por assistentes sociais dos consultórios de rua ou dos abrigos municipais. O "pacto" com as regras do programa é elaborado pelos próprios alunos no início de cada turma: eles chegam a um consenso sobre a melhor forma do projeto funcionar e constroem um contrato. São duas aulas teóricas e três aulas práticas por semana, e faltas só são permitidas com justificativas, ou há descontos na bolsa.

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