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Cães são elo entre moradores em situação de rua e serviço social

Segundo o Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal, os cães muitas vezes são os únicos seres vivos em que a população de rua consegue confiar

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Lucas Andrade e seu fiel companheiro, Abençoado. (Foto: Renan Lopes/ACidade ON Campinas)

Mauro Stok, de 42 anos, encontrou Lepi ainda filhotinho em um moita nos trilhos do complexo ferroviário de Americana, há 9 meses. Mesmo sem condições financeiras de comprar um prato de comida para ele próprio, o morador de rua se comoveu e resolveu adotar o cãozinho.

Procurou o serviço de Zoonoses da cidade, que vacinou e vermifugou o animal, e hoje vive com Lepi pelas ruas de Campinas.

Na mochila que carrega, guarda com cuidado a ração e a carteirinha de vacinação do fiel amigo. "Muitas vezes eu passo fome, mas para ele não falta ração. Peço às pessoas mais ajuda para ele do que para mim", contou Stok, às lágrimas.

Outra dupla que facilmente é vista andando pelas ruas da área central de Campinas é Lucas Andrade e seu fiel companheiro chamado de Abençoado, um vira-lata marronzinho de apenas 3 meses. A escolha do nome, segundo Lucas, é pelo que o animal representa em sua vida:  uma bênção.

Ele mora na rua há quase 16 anos, e conta que encontrou seu companheiro abandonado debaixo de uma ponte próximo ao estádio Brinco de Ouro, no Guarani. Lucas afirma que no mesmo local havia outros filhotes, mas conseguiu doar todos e resolveu ficar com Abençoado para ser seu companheiro de vida.  

Mauro Stok não deixa faltar nada para seu companheiro Lepi. (Foto: ACidade ON Campinas)
"Ele ficou pra mim, ele é único", disse o morador de rua, que chora ao pensar no amor que sente pelo companheiro. "Ele é um filho para mim, confio nele de verdade. Ele está comigo no frio, na fome, na chuva. Tenho certeza que ele nunca vai me abandonar".
Lucas diz ainda que já sofreu algumas tentativas de retirada do amigo por órgãos da Prefeitura. "A Guarda Municipal me aborda sempre. Muitas vezes a Zoonoses passa e tenta tirar ele de mim, mas ninguém o tira não, ele é tudo na minha vida", conta..

Assim como Mauro, Lucas também carrega um único pertence, uma mochila, com um saco de ração para o cachorro. "Ele é a prioridade, não falta nada para ele, eu já passei fome para dar para ele o que comer".   



DIFÍCIL SITUAÇÃO

Assim como eles, centenas de outras pessoas em situação de rua andam com seus pets pela cidade. O crescimento é proporcional ao aumento da população de rua no município: o último censo da Prefeitura, de 2016, apontou que 623 pessoas viviam sem casas em Campinas, mas a estimativa da Secretaria da Assistência Social - e a impressão de quem anda pelas ruas - é que esse número é bem maior. 

Enquanto a nova contagem não é finalizada, a Administração implementou medidas paliativas para dar assistência a essa população, que inclui também cuidados aos seus bichos de estimação.

Há quase um ano, eles vacinam, fazem microchipagem e vermifugam os animais. O objetivo também é estabelecer um contato com essa parcela da sociedade por meio de seus pets. Muitas vezes, os cães representam o único vínculo afetivo que eles têm. A maioria é dócil e muito bem cuidada pelos seus guardiões.

O diretor do Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal, Paulo Anselmo, explicou que o trabalho é feito com as equipes de Consultório na Rua, que fazem a aproximação.

"A gente cadastra e microchipa os animais, além de dar orientações clínicas. Fazemos também cirurgias quando necessário. E os moradores de rua que topam, nós castramos e devolvemos os animais a eles também. Mas não é sempre que eles deixam", contou Anselmo.

O departamento também acolhe os animais nos períodos em que os moradores de rua estão em reabilitações ou internados em hospitais. Nos últimos três meses, 63 cães foram microchipados, 36 castrados e 12 abrigados temporariamente, para serem devolvidos a seus guardiões.

"Eles são muito preocupados com os animais. Cuidam muito bem, os mantêm sempre limpos e alimentados. Os cães muitas vezes são os únicos seres vivos que a população de rua consegue confiar. E eles representam um canal de interlocução com os serviços sociais", disse o diretor.

PROTEÇÃO

O coordenador do Serviço de Média Complexidade para População de Rua de Campinas, William Azevedo, explicou que os bichinhos de estimação funcionam como espécie de "ancoragem" para quem vive nas ruas da cidade.

"Os cachorros também protegem eles à noite, eles se sentem mais seguros de agressões e roubos", explicou. Além disso, em alguns casos, os animaizinhos os motivam a organizar suas vidas e procurar um local fixo para viver.

"Um morador que estava em situação de rua há bastante tempo, e tinha uma série de internações, conseguiu um trabalho só para pagar um aluguel para o cachorro viver melhor. Isso porque nas pensões eles não aceitam animais", contou.

Há, porém, outro lado, de acordo com Azevedo. Em certos casos, eles não aceitam ir para abrigos ou casas de passagem por não ter um espaço para os animais. "Essas situações nós discutimos no Comitê Municipal para Pessoas em Situação de Rua. Estamos procurando organizar novos serviços que atendam a pessoa e seu cãozinho, mutuamente".  

PROJETO REJEITADO 

Em outubro do ano passado, vereadores de Campinas rejeitaram um projeto de lei que permitiria a presença de cães em comunidades terapêuticas de Campinas. A proposta era do vereador Nelson Hossri (Podemos). Segundo o autor do projeto, muitas vezes os cães assumem um relevante espaço na vida de dependentes químicos e pessoas de rua que não possuem mais vínculos familiares e afetivos.

"Acompanhei um caso no Padre Haroldo de um dependente químico que só aceitou passar por tratamento se pudesse levar seu cachorro junto. É um projeto para dar mais humanidade para essas pessoas", disse Hossri. 

Segundo ele, os cães nem precisariam viver com seus donos nas comunidades terapêuticas. Eles viveriam em ONGs parceiras e seriam levados em dias específicos apenas para visitar seus donos. Mesmo diante dos apelos do vereador, a maioria de seus colegas, em votação simbólica, se posicionou contra o projeto.

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