Aguarde...

ACidadeON Campinas

docon

Famílias sofrem sem merenda após suspensão de aulas

Prefeitura de Campinas não definiu nenhum tipo de auxílio específico para estudantes que ficaram sem merenda com a suspensão das aulas em meio à pandemia

| ACidadeON Campinas

Elaine e o marido têm quatro filhos: "Não temos dinheiro para carne" (Foto: Luciano Claudino/Código 19)
Após a suspensão das aulas da rede municipal de Campinas, desde o último dia 23, em virtude da pandemia do novo coronavírus, muitas famílias relatam enfrentar dificuldades com a alimentação das crianças. Para muitas delas, a merenda da escola era a principal fonte de alimento do dia. Com a crise da saúde atingindo também a economia, muitos pais perderam o emprego, e lidam com a falta de comida para suas famílias.

A Prefeitura de Campinas, no entanto, descartou alternativas para oferecer ajuda e alimentação para alunos carentes durante a suspensão das aulas. Na cidade há 64 mil alunos na rede municipal de ensino. Segundo a Secretaria de Educação, não há possibilidade de distribuir a merenda para alunos necessitados - medidas como essas vêm ocorrendo em cidades da região, como Sumaré, que distribui "kits nutricionais" para alunos que dependem da merenda.

Marina Ferreira, empregada doméstica, tem quatro filhos e está se mantendo apenas com o que recebe pelo bolsa-família. Ela está grávida de sete meses e dependia do dinheiro que recebia fazendo faxina, mas com a pandemia não está conseguindo trabalhar. Seus quatro filhos, de 2, 8, 13 e 16 anos, estão se alimentando com o que ela consegue oferecer.

"Estamos sobrevivendo com R$ 240 do auxílio que recebo do governo, e só. Essa semana só tem arroz e feijão pra dar pra eles comerem, eles pedem mais, é muito triste dizer que não tem."

O caso é semelhante ao da dona de casa Jéssica Oliveira, que conta que esperava da Prefeitura pelo menos o auxílio com leite para as crianças. Ela tem três filhos, de 1, 2 e 7 anos, e diz que sofre com a falta de recursos e com os pedidos dos filhos.  

LEIA TAMBÉM
Alunos da rede municipal terão aulas online a partir de abril
 
Merenda em casa: estudantes do Estado receberão R$ 55 para comer

"Minha filha ontem me pediu leite e eu tive que falar que não tinha, não tinha nem suco e acabei dando água. É uma situação triste, a gente esperava pelo menos um auxílio das escolas, as crianças iam também para conseguirem se alimentar direito."

Jéssica conta que o marido é pedreiro, mas não está trabalhando no momento. A família também recebe ajuda do governo - neste mês foram R$ 200 para a família se manter. "É muito pouco, estamos passando aperto e penso pelas crianças, dói ouvir os pedidos sem ter o que dar. Esperamos alguma ajuda pelo menos por eles nesse momento."

A dona de casa Elaine Fernandes, com quatro filhos de 2, 6, 9 e 13 anos, conta que as crianças dizem sentir falta da alimentação da escola.

"Em casa eles não têm acesso a frutas, verduras, nem dinheiro para carne estamos conseguindo. Eles comparam, sempre que chegavam da escola falavam que a comida tava boa, que repetiam. É difícil não conseguir dar isso pra eles", relata.

A mãe ainda conta teve o benefício do bolsa-família suspenso por dois meses, e com o marido autônomo sem emprego e com problemas crônicos, fica preocupada com os próximos meses. "Meu marido é grupo de risco do coronavírus, ele fazia bicos e não está conseguindo mais trabalho, e nem deve sair. É uma situação difícil, não sabemos o dia de amanhã. Hoje eu tenho arroz e feijão pra dar pra eles, amanhã já não sei o que vou ter."  



FALTA DE ASSISTÊNCIA

Das cidades brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes, apenas Campinas, Goiânia, Manaus e São Luís ainda descartam tomar alguma iniciativa para manter a merenda dos alunos da rede municipal.

Na última terça-feira (24) a Prefeitura de Campinas suspendeu todos os contratos com as empresas que forneciam merendas, atitude diferente do Estado, que decidiu oferecer alimentação para estudantes da rede estadual de ensino com menor condição financeira.

O governo estadual vai oferecer o valor de R$55 por aluno, para a compra de alimentos a partir de abril, enquanto as aulas seguirem suspensas. Segundo o Estado, a medida é uma forma de manter os estudantes alimentados durante o isolamento social por conta do coronavírus.

Outras grandes cidades adotaram medidas que vão da distribuição de kits alimentares (Fortaleza, Recife e Belém), distribuição de cestas básicas (Salvador, Belo Horizonte, Guarulhos), entrega de valores em dinheiro (Brasília e Curitiba) ou a abertura de escolas, em horários escalonados, para os alunos fazerem as refeições (Rio de Janeiro, Porto Alegre e Maceió).

O QUE DIZ A PREFEITURA

Procurada, a Educação informou que tem feito estudos para encontrar estratégias de viabilizar a alimentação escolar para os alunos em situação de vulnerabilidade.

"Uma das alternativas é fazer a adesão a um programa do Governo Federal que distribui kits lanches. No entanto, o programa ainda está sendo formatado por parte da União", disse a pasta em nota encaminhada pela assessoria de imprensa.

A secretaria ainda explicou que tem limitações legais que a obrigam a oferecer a alimentação somente na escola. "O Programa Nacional de Alimentação Escolar é enfático quando alerta que a alimentação escolar é um complemento das refeições diárias enquanto o aluno está na escola."

Mais do ACidade ON