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Volta, Brasil!

Sinto saudades, mas me recuso a ser o chato que só fala do passado. Amo os dias que vivo, o hoje

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é jornalista e colunista do portal ACidade ON (Foto: Divulgação)
Volta, Brasil!

Deus me livre de ser um pessimista: na-na-ni-na-nããããão, como diria minha tia Osvalda. Pergunto: posso ser saudosista sem o cheirinho da naftalina a subir pelos ares? Claro que posso, até porque, toda a gente que convive comigo sabe que sinto saudades de praticamente tudo, sobretudo das pessoas, mas também de comidas, de ruas, de hábitos, de músicas, de filmes, de livros, de cidades inteirinhas (daquelas que um dia foram minúsculas, as da minha infância), dos meus antepassados com os quais tive a sorte e o privilégio de conviver, e até dos meus antepassados que nem tinham tanto a ver comigo ou eu com eles (confesso: fui um petiz que dei muita dor de cabeça em matéria de comportamento).

Enfim: sinto saudades, mas me recuso a ser o chato que só fala do passado. Amo os dias que vivo, o hoje; e tal qual um Fernando Pessoa, também quero perceber o futuro com tudo aquilo que ele pode vir a ser. Só que... Só que, quando olho para trás, sem saudade, mas com olhos de ver e lembrar, a comparação com o presente é injusta. Não, não vou falar de política, assunto que evito no particular e no público, como já escrevi aqui, pelas atividades que exerço ligadas à comunicação. Nem vale a pena: os cargos de especialistas estão todos preenchidos, com altos saberes e pouca graxa. Aos poucos, todos foram ficando radicais, mais radicais e super-radicais. Não entro nessa, nem por um boi e nem por uma boiada.

Mas a comparação com o presente é injusta, é triste, é de fazer sentir muita saudade. Quer ver: em junho de 1969, há exatos 50 anos, tinha eu acabado de completar oito anos, foi lançado O Pasquim, um alívio cômico e "cabeça", como se dizia, para tempos que eram bastante cinzentos em termos de liberdades de todas as liberdades. Claro que não li desde o começo. Eu mal havia saído do Caminho Suave, a cartilha clássica do primário. Mas tive a sorte de ter pessoas próximas que liam e guardavam todos os exemplares dO Pasquim.

E assim, logo que tive interesse pela leitura geral (a de jornais e revistas, lá em casa, era incentivada por pai e mãe, e acho que jamais serei suficientemente grato a eles por isso, sem falar nas coleções de temas gerais e literatura, que eles compravam com muito sacrifício, mas também com muita satisfação) e por qualquer papel escrito que caísse em minhas mãos, virei um fã de Jaguar, Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Ziraldo, Tarso de Castro e toda a equipe de colaboradores, fixa ou não, que escrevia, desenhava e falava sobre tudo que era mais ou menos proibido. Às vezes, muito, muito mais do que menos.

Mas eles seguiam e deixavam os leitores em permanente estado de graça. Era um Brasil que amávamos e gostávamos de amar porque imaginávamos que, quando a liberdade voltasse, estaríamos melhores e mais fortes. Ao fazerem graça de tudo, ao escolherem personagens sensacionais para entrevistas históricas, ao publicarem cartuns que eram pura arte desenhada, mas também cheios de "consciência", seus redatores sabiam que defendiam um país do pior em um momento em que o pior estava mesmo ali ao lado. E nós vibrávamos.

Escolhi (vocês sabem: saudosistas guardam coisas, além de guardar coisas que já eram guardadas por alguém antes deles....) uma das muitas páginas que me encantaram e que continuam a me encantar, publicada em agosto de 1971, mas que devo ter lido seis ou sete anos depois. Uma brincadeira intitulada "O Jogo do Endereço", em que Ivan Lessa, Sergio Augusto e José Lewgoy (inesquecível Lewgoy), "sem nada para fazer", tentaram imaginar "onde é que Toulouse Lautrec moraria no Brasil". "A resposta veio aos berros lá do fundo: Rua Carmo Neto, no Mangue; o jogo pegou e deu no seguinte":

"Mick Jagger, na Penha; Mussolini, em Higienópolis, São Paulo; Fellini, na Presidente Vargas, ao lado do Circo Orlando Orfei; Jane Fonda, na Praça General Osório, Ipanema; Louis Armstrong, Urca; Frank Sinatra, Avenida Niemeyer (na casa de Sergio Bernardes); John Lennon, Edifício Copan, São Paulo; Duque de Edimburgo, Rua Rainha Elizabeth, em Copacabana; Richard Burton e Elizabeth Taylor, na Vieira Souto; Oscar Wilde, Largo do Boticário (mas possui também um conjugado na Galeria Alaska); Onassis e Jacqueline, Ilha de Brocoió; John Wayne, Jardim América, São Paulo; Yasser Arafat, num quartinho dos fundos do Clube Monte Líbano...". Humor fino é isso, o resto é puro cro-magnon.

A lista é enorme, mas o trecho escolhido dá uma ideia do tipo de humor que era único não por ser mais ou menos inteligente, mais ou menos antenado, mais para a esquerda, mais para a direita, mais ao centro. Era um humor da esperança, de certo afeto desaparecido. O humor de um Brasil que era muito presente, cheio de crença em dias melhores. Um Brasil que, todo mundo sabe, está bastante sumido, mas que nós queremos de volta.

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