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João Gilberto, meu amor

Ter uma tia baiana pode mudar a vida de uma pessoa, se a pessoa não for baiana, é claro

| ACidadeON/Ribeirao


Fernando Kassab é colunista do portal ACidade ON (Foto: Divulgação)
Ter uma tia baiana pode mudar a vida de uma pessoa, se a pessoa não for baiana, é claro. No meu caso, que sou paulistano, Tia Dulce entrou em minha vida pela via do casamento com meu tio-avô materno Abrahão (filho de sírios), e eu sempre a vi como uma pessoa cujas qualidades sempre estiveram no marco 10 do meu "queridômetro"; sempre me tratou com tanta atenção e mimos, que sempre acreditei que sua baianidade, a maneira que ela teve e tem de fazer e dizer as coisas, influenciou-me em vários aspectos.

Tio Abrahão (logo Abrãozinho, depois Zizinho; ou Major, com o chamavam os primos mais velhos), para nós, os mais novos, sobrinhos-netos, era o fabuloso Tio Zizinho, o rei da pesca, da caça (quando permitida), enfim, da vida ao ar-livre na minha Macondo particular (Guaxupé, quem lê a coluna já sabe). Quando chegou à cidade, Dulce Costa parou o trânsito: baiana de Juazeiro, linda, inteligente e moderna até mesmo para os modernos anos 1950, uma elegante natural, aquele tipo de elegância que não tem a ver com dinheiro ou com posição social. Zizinho apaixonou-se quase que na mesma hora foi logo depois, mas foi fulminante.

Casaram-se em 1957 e tinham um tipo de cumplicidade que até as camélias brancas do jardim percebiam. E eu, que passei muitas férias na casa deles, simplesmente adorava estar por ali, vivendo com eles e seus filhos, Antônio, seis meses mais velho que eu, e João, um ano e dois meses mais novo. Um trio parada dura, que descia a ladeira em carrinhos de rolimã e quase atravessa a antiga fábrica da Polenghi; que comia que nem dragas de rio e, principalmente, se divertia com as coisas mais simples e saborosas de vida penso, até hoje, que por influência direta de Tia Dulce.

Por ser de Juazeiro e dois anos mais velha que João Gilberto, ela sempre se lembrou dele com a memória de sua meninice e adolescência: a de ver João tocar e cantar sob o famoso tamarineiro que ocupava a praça matriz da cidade. Mas, sempre muito autêntica (sua principal marca, até hoje), Tia Dulce sustenta a opinião: nunca gostou muito da voz e do estilo daquele que seria batizado como "pai da bossa nova", além de ser chamado, por autoridades mundiais da música, de "gênio", "único", "sensacional", "maravilhoso", "mágico", "violonista incomparável" e por aí vai.

Para Tia Dulce, entretanto, desde os tempos em que João Gilberto tocava, solitário, para Maria Pezinho, figura pública de Juazeiro e que aplaudiu João Gilberto antes de todo mundo, o autor de "Hô-bá-lá-lá" e intérprete definitivo de "Desafinado", era meio avoado e seu estilo de tocar e cantar não era exatamente o seu preferido. Eu, que amo João Gilberto, sempre achei formidável a franqueza de minha tia querida e sempre convivi, com zero problemas ou discussões, com sua opinião.

E era nela que eu pensava, sem parar, na noite de 26 de maio de 1996, quando fui convidado, pelo produtor cultural Toy Lima, e pelo patrocinador de João Gilberto, uma multinacional sediada em Campinas, para convidar 500 pessoas para o show de estreia da turnê do show com as músicas do CD "Eu sei que vou te amar".

Cronista de um jornal da cidade e com uma agenda de nomes que era praticamente uma lista telefônica de privilegiados, escolher aqueles que, secretamente, eu comecei a chamar de "ungidos" (assistir a um show de João, e ainda por cima grátis? Só abençoados, pensava), foi a tarefa mais difícil da minha vida: como saber se gostavam ou não do meu cantor favorito? Perguntar? Jamais: é o tipo de coisa que não se pode fazer. Mais: a depender de quem ficasse de fora do teatro interno do Centro de Convivência Cultural, meu nome poderia ir diretamente para uma lista de vodu ou para a encruzilhada mais próxima.

No fim, com o máximo de isenção e com a melhor das intenções em tentar conseguir emplacar o tal mix de gente rica e/ou poderosa e/ou famosa e/ou influente, cheguei a um time que combinava artistas, empresários, intelectuais, profissionais liberais, gente bonita (geralmente endinheirados, mas sem uma profissão definida), atletas e comerciantes de prestígio. Seguido de um coquetel, o show estava marcado para as 21h.

João Gilberto atrasou-se uma hora e meia; eu só pensava em Tia Dulce e na classificação de avoado que ela costumava definir o cantor que eu sempre quis conhecer e a quem, naquela noite (imaginem só!), estava servindo de anfitrião. Nem nos meus melhores sonhos, jamais imaginei estar em posição tão privilegiada. Sabia que ele viria e, enquanto todos olhavam sem parar para mim, sentado bem no meio do teatro, eu só fazia cara de paisagem, aparentando uma tranquilidade que estava longe de ser real. Fazer o quê? Nada a fazer.

João Gilberto entrou às 22h30, com uma plateia inquieta e tensa. Alguém arriscou um grosseiro "até que enfim!". Ele colocou a mão em concha sobre o ouvido esquerdo e disse "Como?". Foi uma das únicas vezes que senti o ar parar e poder ser cortado com uma faca. Gelei. Acho que o teatro inteiro gelou. Ninguém ousou se identificar ou continuar com a arenga.

Mas bastou ele cantar "Bahia com H", do compositor campineiro Denis Brean (a quem fez um lindo e emocionante elogio), para ser aplaudido longamente já na primeira canção. E aí vieram "Eu Sei Que Vou Te Amar", "Fotografia", "Pra Que Discutir com Madame", "Lá Vem a Baiana", "Da Cor do Pecado", entre outras, mas, para mim, a mais linda e tocante interpretação daquela noite foi a maravilhosa "Guacyra", que meu pai amava ouvir com a dupla Cascatinha e Inhana. Chorei baldes. João Gilberto estava inteiro, mágico, real.

Toy Lima disse que o cantor talvez desse uma entrevista exclusiva para mim, logo depois do show, no hotel em que estava hospedado. Fiquei inquieto e esperei pelo fim da apresentação, que, para sorte nossa, durou além do esperado. Mas algo me dizia que a entrevista não aconteceria o histórico do cantor e violonista era sempre de cancelar as entrevistas. Mais: ele estava com Bebel Gilberto, sua filha, que cantou com o pai "Jou Jou Balagandans", e queria estar com ela por mais tempo. A entrevista não aconteceu, mas eu já estava realizado. Por mais de três horas não apenas ouvi o "meu" cantor, como também pude, depois do show, falar sobre ele, seu repertório, seu estilo. Era como se eu fosse de Juazeiro e o conhecesse desde pequeno, graças à minha querida Tia Dulce.

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