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Um elenco de sonho

Mas também havia aquele tipo de imigrante que é mais comum hoje em dia, um tipo que não está fugindo de nada, mas que deseja mudar de ares

| ACidadeON/Ribeirao


Fernando Kassab é colunista do portal ACidade ON (Foto: Divulgação)
No tempo em que os países tinham fronteiras menos rígidas e o mundo parecia caminhar para um congraçamento universal, fraterno e amoroso, o Brasil era um destino certo para milhares de imigrantes que fugiam de tudo: da fome, principalmente, mas também da violência das duas grandes guerras mundiais, dos senhores feudais de terras longínquas, da imposição religiosa e da falta de elementos básicos para a sobrevivência, como água, pão e saúde pública.

Por aqui, como é sabido, foram recebidos de braços abertos e seguiram para os mais diversos destinos, para trabalhar nas mais diferentes áreas: podia ser uma lavoura de café, no interior de São Paulo ou Minas, ou ainda o trabalho de mascate nas regiões Norte e Nordeste. Mas também havia aquele tipo de imigrante que é mais comum hoje em dia, um tipo que não está fugindo de nada (ou está, mas nada importante), mas que deseja mudar de ares. Mais ou menos como os brasileiros aposentados estão fazendo atualmente, quando escolhem Portugal para morar. Mudar de ares, apenas.

Foi para esquecer os cenários de horror e morte na Europa do pós-II Guerra, que Solange e Angelo Lepreri vieram morar no Brasil. Ele, italiano de San Remo, ela francesa de La Baule, receberam uma carta de um compadre que morava há anos em Campinas, e que lhes falava de um céu azul sem igual, de milhares de andorinhas zanzando pelos ares, de um crescimento vertiginoso, da paz e de mil possibilidades de negócios. Eles queriam criar o pequeno filho Ricardo, então com pouco mais de três anos, em um país que ficasse bem longe das memórias do conflito. Venderam tudo e escolheram Campinas para "o futuro", como Solange me contou inúmeras vezes.

Fechar o restaurante em Paris doeu muito e, para não morrer de saudade, resolveram investir todo o conhecimento, humano e gastronômico, na vida noturna de uma cidade que praticamente não tinha restaurantes ou opções de lazer. Primeiro, abriram o Lo Schiavo, nome inspirado na ópera de Carlos Gomes, e que era um de luxo inimaginável: talheres de prata, garçons usando luvas (e que mastigavam hortelã antes de assumir o serviço) serviço à francesa, paredes forradas de veludo e pratos finalizados no salão, sobre réchauds manipulados por Angelo; Solange, beldade que entrou para a história da cidade como uma das mulheres mais elegantes e inteligentes já vistas por aqui, fazia as vezes de hostess e quem não queria ser recebido por aquele par de olhos azuis, em tudo a própria imagem da atriz francesa Michèle Morgan?

Tudo isso em 1948. Não se falava em outra coisa, é claro, e moradores de São Paulo, Jundiaí e de outras cidades da região que ficaram encantados nem de longe imaginavam o que o casal estava preparando: a abertura, em 1953, do Armorial, síntese coruscante e absolutamente de vanguarda em matéria de boa mesa, música e artes plásticas. Durante mais de vinte anos, era "o" lugar para comer, dançar e se divertir.

Era tão diferente e original que se criou uma lenda em torno do nome Armorial: quem tentasse abrir um restaurante na cidade precisava servir um menu que fosse bastante parecido e oferecer um ambiente que não ficasse a dever aos painéis do milanês Franco Sacchi, às cadeiras estofadas, à pista de dança, à louça de primeira. Com sua máquina azeitada a pleno vapor, o restaurante oferecia uma culinária, da chamada categoria internacional, que não tinha concorrentes. A lenda se impunha e muitos ficaram pelo caminho, tentando, tentando...

Pelos salões do Armorial passaram personagens fascinantes da história do Brasil e do mundo, um elenco de sonho para qualquer dono de restaurante. No campo político, por exemplo, Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, Adhemar de Barros, o primeiro ministro francês Georges Bidault e, cereja do bolo, Elizabeth II a rainha não foi até a Rua General Osório, no centro da cidade, mas os Lepreri foram os responsáveis por todas as refeições da comitiva britânica durante a visita à cidade, em 1968.

Os artistas da música se sentiam tão em casa no Armorial que muitos saíam de São Paulo só para comer em Campinas, caso de Angela Maria, Cauby Peixoto, Maysa, Nelson Gonçalves, Isaurinha Garcia e Carlos Galhardo, sem falar nos que faziam shows na cidade e ficavam por lá até altas horas, curtindo a música, a classe, o sossego e a companhia de figuras da literatura e do jornalismo, como Hilda Hilst, Tavares de Miranda e Helena Silveira. Alguns tiveram mais sorte, em 1961, quando viram entrar no restaurante o cosmonauta russo Yuri Gararin, o primeiro homem a ir ao espaço.

Ao fechar as portas, em 1977, o restaurante não tinha mais o brilho e a força do início, mas continuou a receber celebridades, gourmets de classe e gourmands apaixonados até os últimos dias, com tudo no lugar e o primeiro serviço de vinhos do interior paulista. Em 2019 resta o brasão com a letra "A", estampado em pedras portuguesas, em frente ao antigo endereço. E uma saudade sem fim entre os que conheceram e frequentaram o Armorial.

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