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Viva, vivinha, viva Vovó!

Essa frase é dita pela Chapeuzinho Vermelho quando a barriga do lobo mau é aberta e de lá sai viva a avó da pequena

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é jornalista do Grupo EPTV (Foto: Divulgação)
O título da coluna foi tirado da boca de Chapeuzinho Vermelho, na fabulosa e inesquecível versão da história da coleção Disquinho, em que as letras das músicas são de João de Barro/Braguinha e os arranjos de ninguém menos que o maestro Radamés Gnattali. A frase é dita pela neta quando a barriga do lobo mau é aberta e de lá sai viva a avó da pequena, que atravessa o bosque para levar os doces para a parente doente. No século 21, as avós, de todas as idades, cores de cabelos, signos e origens, querem mais é fugir da cama por motivos de saúde. Os avôs também.

Também é verdade que não querem o leito apenas para fazer "aquilo" que os jovens, por alguma falha de compreensão, pudor, burrice ou pela beligerância pura e simples (criar causos está na última moda, como todo mundo sabe, e os idosos "modernos" são alvos frequentes), pensam não fazer parte das prioridades dos que contam a vida em algumas décadas. Entre lençóis cheirosos e edredons fofinhos, eles também querem dormir e receber os netos, por exemplo. E sentirem-se vivos, se não for incomodar muito a audiência que não lhes paga as contas.

Mas "aquilo" é sexo, tema que parece ser proibido aos seniores de norte a sul do planeta. Basta aparecer um senhor ou uma senhora a dizer que gosta de fazer o que Cole Porter descreveu com maestria em "Lets do It", para aparecer um ignorante, volume 10, para lhes atribuir adjetivos que deveriam ser proibidos, mas que são publicados nas seções de comentários para alegria insana dos que sabem muito pouco ou nada da vida dos idosos.

Lamento informar que não são nada boas as notícias para a turma do "deixa que eu jogo a primeira pedra". Aliás, são péssimas: não há um único dia que não apareça, da Groelândia a Terra do Fogo, grisalhos e grisalhas a fornecer detalhes de como estão felizes, libertos e "rejuvenescidos" por voltarem a fazer aquilo que aprenderam quando jovens e que jamais se esqueceram: sexo e ponto.

Não se está falando de agências matrimoniais, viagens em grupo para a Terra Santa, segundas chances para o amor fraterno, passeios de mãos dadas ou de casais platonicamente apaixonados jogando biriba ao cair da tarde. Eles não dão voltinhas para dizer que não procuram um "combo" de amor e felicidade, mesmo que cada um viva em seu canto. Juntos na mesma casa, então, nem pensar eles querem independência, liberdade, direitos iguais e...sexo. E mesmo esse pacote, aliás, não precisa ser necessariamente nessa ordem. Pode ser apenas o sexo.

E quando deveriam ser respeitados e apoiados por gostarem de fazer uma coisa que é tão orgânica (palavrinha tão em moda), tão natural (como vem escrito nas embalagens de suco de laranja) e tão vital para o bom funcionamento das atividades físicas e cerebrais, eis que sobe a cólera que, por mais incrível que pareça, vem de onde menos se espera: dos adolescentes inexperientes, dos trintões moralistas, dos quarentões inconformados e dos cinquentões que não se dão conta de que podem estar a um passo de viver a mesma situação e desejar a mesmíssima coisa que os corajosos "vovôs e vovós", que talvez jamais tenham tido netos, mas que assim são chamados no vocabulário grosseirão e sem sentido das redes sociais. Na verdade são chamados de coisa muito pior. Mas é melhor não abrirmos o glossário.

Todas as vezes que algum amigo ou amiga, ou mesmo um parente, com o qual tenho mais liberdade, que se separou ou ficou viúva (o) diz que quer recomeçar, a primeira coisa que faço é dar toda a força do mundo. Não porque a solidão pode ser terrível, ou porque muitos filhos costumam pagar com indiferença e bananas (ou a internação em uma casa de repouso) os anos de dedicação, ou ainda pelo simples fato de que a vida a dois é melhor a qualquer custo: o custo pode ser impagável, é bem verdade. Mas apenas por ser um direito, uma chance, a que todos temos o direito, em qualquer idade, desde que seja nosso desejo.

Não se trata de querer ser feliz à base dos cadernos cor-de-rosa, das jantaradas cercadas com os parentes dos dois lados, de andar de teleférico em Poços de Caldas, de caminhar entre lagos e árvores, absorvendo a atmosfera e observando borboletas e pássaros. Trata-se de ser um bocadinho mais humano, mais verdadeiro. Trata-se de obedecer a uma lei que está entre nós desde o começo de tudo. Trata-se de desejo, um desejo legítimo, pessoal e intransferível .

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