Aguarde...

ACidadeON Campinas

docon

Uma pedra (enorme) no meio do caminho

Ele é obrigado a ver diariamente aquela casinha dos anos 1930, branquinha (acabou de ser pintada) e inteiramente original, encravada no meio do quarteirão

| ACidadeON/Ribeirao


Fernando Kassab (Foto: Divulgação)
Ser rico pode ser ótimo, como atestam muitos ricos que existem no mundo. Ser milionário deve ser ótimo, a julgar pelo que vemos em tempos de exposição abusada e falta de bom senso quase geral entre os que não precisam se contorcer para pagar uma conta no fim do mês. Ser bilionário também deve ser muito bom. A revista Forbes não nos deixa esquecer ao publicar, anualmente, a tal lista com os nomes e sobrenomes dos super-ricos. É de se imaginar que as três categorias não tenham problemas, digo daqueles grandes e insolúveis, que não possam ser resolvidos, não é mesmo? Que têm menos, é quase certo. Mas quando eles têm, é quase do tamanho de suas respectivas fortunas. Pois em uma grande cidade brasileira, um magnata-empreendedor-incorporador-bilionário ganhou uma dor de cabeça que ele só deve desejar ao pior inimigo ou a alguém que viva em outro planeta.

Conheço o homem dos tempos em que era rico, não bilionário, e senti nele qualquer coisa como um descompasso, um desassossego que não o deixava rir e relaxar em uma mesa com vinte pessoas, todas alegres e celebrando a vida. Ele cismava de comentar a qualidade da carne (que era ótima, por sinal), e dava exemplos de restaurantes ao redor do mundo que serviam cortes grelhados "muuuuiiiito melhores", nas palavras dele, que gosta de esticar as vogais quando quer dar exemplos de coisas que ele já viu em suas viagens "sensaaaaciiiiioooonaaaiiis". Mas não ria, não sorria, não ouvia as pessoas à sua volta e nem as olhava nos olhos a rigor, nos olhava por cima dos nossos ombros. Sem falar na grosseria sem fim para com os anfitriões. Uma coisa.

Pois bem: depois de fazer um negócio daqueles que os bilionários não gostam de falar, mas gostam que os outros fiquem sabendo, comprou um quarteirão inteiro. Ou quase. Bem no meio de seu exuberante projeto de torres envidraçadas eis que apareceu um problema que ele, com a conta-corrente farta de zeros à direita, achou que resolveria passando um cheque com outros tantos zeros. Não contava com a firme resistência do inquilino, entrincheirado num terreno que o homem do dinheiro perdeu lá atrás, talvez quando ganhou o seu primeiro milhão: o terreno do afeto e da memória feliz que sempre teve da única casa em que ele nasceu e viveu a vida inteira uma vida de 80 anos.

Eu sei: parece o roteiro de "Aquarius", o merecidamente aplaudido filme de Kleber Mendonça Filho, ou de "O Milagre Veio do Céu", deliciosa produção de 1987, com os então setentões Hume Cronyn e Jessica Tandy dando um banho e roubando a cena dos mais novos. Mas se a história tem que se parecer com um filme ele tem que ser "As Novas Aventuras do Fusca", cuja história é exatamente a mesma que está se passando no Brasil, quarenta e cinco anos depois, ainda que o cenário da produção da Disney seja a cidade de São Francisco, na Califórnia.

Produzido no jurássico ano de 1974, com o fusca Herbie formando dupla com a então novíssima atriz Stephanie Powers, bem antes do seriado "Casal 20", e com a também experiente Helen Hayes no papel da resistente e amorosa dona de um sobrado charmoso e completamente original em tudo (como a jukebox que escolhe ela mesma o repertório, o bondinho aposentado que emite sons de felicidade e o próprio Herbie, um caso único de fusca com vontade própria) que não quer apagar o seu passado e suas memórias em troca de um punhado de dólares, e bate o pé contra um... magnata-empreendedor-incorporador-bilionário! Que, aliás, como o exemplar brasileiro, também não ri, nem sorri, a não ser que seja por escárnio. Deve ser um esporte.

Voltando ao Brasil, o cenário do imbróglio dá uma ideia do que deve estar sendo a vida do empresário: cercado de tapumes com a grife da construtora, ele é obrigado a ver diariamente aquela casinha dos anos 1930, branquinha (acabou de ser pintada) e inteiramente original, encravada no meio do quarteirão que deveria ser somente dele, mas que a saudade e memória do único ocupante do imóvel não permitem que assim seja. O dono nasceu no imóvel e dali não pretende sair. Não há dinheiro que o faça mudar de ideia - até porque, ele tem um patrimônio, entre imóveis e dinheiro vivo, que o coloca entre os milionários, mas na categoria "felizes e sem problemas". E, para aumentar a enxaqueca do homem com mais dinheiro e 99% do quarteirão, o homem da casinha goza de uma saúde excelente.

Encontrei-o semana passada, durante o intervalo de uma gravação para a EPTV. Estava em um mercadinho, onde faz suas compras com frequência. São mais de dez quadras de distância de sua agora famosa (condição que ele detesta) casa. Mas ele vai e volta a pé, puxando o carrinho, com um fôlego de quem tem 20 anos, e que costuma despertar espanto, admiração e, tenho certeza, alguma cobiça dos que gostariam de saber a fórmula de tamanha disposição. Eu tenho uma pista.

No dia do nosso último encontro, ele estava diante de uma gôndola refrigerada do mercadinho, cheia de jabuticabas geladas embaladas em saquinhos. Para vender mais, o dono do negócio coloca, na frente dos pacotes, vasilhas com as frutas maiores, quase estourando de tão grandes, para que os clientes possam prová-las. Meu mais novo herói (sim, acho ele um prego torto e, talvez por isso mesmo, meu herói para sempre), até comprou dois saquinhos, mas se divertia mesmo comendo sem parar as frutas que não custavam a ele um único centavo. Ao ver o dono do estabelecimento se aproximando, ele foi logo dizendo: "Não fique bravo comigo por eu estar acabando com a sua propaganda. Estou aqui cultivando a minha memória, o único terreno em que posso continuar sendo eu mesmo, sem ter que dar satisfações a ninguém". No mesmo momento, imaginei o magnata-empreendedor-incorporador-bilionário, sem memória e sem afetos, tomando mais um comprimido contra enxaqueca.

Comentários

"O site não se responsabiliza pela opinião dos autores. Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do ACidade ON. Serão vetados os comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. ACidade ON poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios deste aviso."

Facebook

Mais do ACidade ON