Aguarde...

ACidadeON Campinas

docon

As quatro cores do apocalipse

A saber: o branco do leite em pó, o roxo do açaí, o laranja trump do queijo cheddar e o marrom molenga do creme de avelã com cacau

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é jornalista (Foto: Divulgação)
Que o século 21 acelerou, como nunca antes, a homogeneização quase integral do gosto e das preferências, não há dúvida. Parece que há um grão-mestre escondido, sabe-se lá onde, que dá um clique sobre o que vai ser a tendência e aí ficamos: patinando sobre uma mesmice persistente e irritante. Às vezes, porque ninguém é de ferro, ela, a mesmice, não dura muito tempo e ainda bem. Mas, no geral, fica e dura muito tempo. Não dá espaço. Sufoca-nos com tanta publicidade e onipresença.

Há, é claro, a onipresença do bem. É o caso do ravióli, especialidade italiana que amo e não abro mão de comer sempre, embora as dietas (uma das tendências que não somem, aliás) preconizem moderação com as massas e molhos. Mas reconheço minha fraqueza diante da delícia. O que não significa assimilar toda e qualquer alteração nas duas receitas originais de recheio, que são de carne e ricota, e dos molhos, quase sempre sugo de tomates ou um excelente molho branco.

Por mim, parava por aí. Mas o ravióli virou um símbolo de cozinhas "antenadas". Para ser vanguarda ou "contemporâneo" (conceito caro aos que amam as ditas tendências), um restaurante tem que ter uma receita de ravióli que represente tudo-ao-mesmo-tempo-agora. E aí, não há ricota ou carne que valha alguma coisa. Entre os dois pedacinhos delicados da massa prensada entram recheios jamais imaginados e o céu é o limite, mesma regra que vale para o capítulo dos molhos.

Não reclamo e até experimento as novidades, servidas em restaurantes de todas as culinárias do planeta - a cozinha italiana virou uma onipresença, uma "tendência definitiva", que vai da pizza ao tiramisù. Não se escapa nem mesmo em um restaurante javanês. Por ter a culinária italiana em alta conta desde muito pequeno, gosto do movimento em si, e acho que até que era inevitável que isso acontecesse com uma comida tão superior em conceito e combinações.

Mas e o que dizer das quatro cores do apocalipse? A saber: o branco do leite em pó, o roxo do açaí, o laranja "trump" do queijo cheddar e o marrom molenga do creme de avelã com cacau. No começo, pensei que era passageiro, que, exceto pelo açaí que é do Norte do país, mas que agora parece ter nascido e crescido em cada uma das cidades do Brasil, nada poderia fazê-los ficar de maneira tão definitiva em uma cultura gastronômica como a nossa, que gosta do pé de moleque, da mozarela clássica, do leite líquido e de jabuticaba. Ilusão, doce (ou seria amarga?) ilusão...

O insuspeito leite em pó, antes restrito aos espíritos mais práticos, saiu dos armários diretamente para a cozinha das sobremesas e dos sorvetes. Pergunte-se ao dono de uma sorveteria (ou gelateria, como agora querem os "contemporâneos") qual o sabor mais vendido e a resposta virá a jato: leite em pó (na verdade, tem um nome próprio, de marca), com variações que vão do "mesclado" ao "com frutas". No caso das sobremesas, suspeito que a porta de entrada para o leite em pó foi a promoção do brigadeiro de docinho de festa infantil para a categoria "gourmet" (palavrinha francesa que agora é aplicada, é sério, até para graxa de sapatos...), que transformou a suprema simplicidade de três ou quatro ingredientes, alegria das criancinhas, em um pesadelo de mil sabores e coberturas que não têm fim.

O queijo cheddar consumido no Brasil e em boa parte do mundo, principalmente nos Estados Unidos, passa a milhões de quilômetros da cidade com o mesmo nome, na Inglaterra, onde a variedade nasceu há mais de dez séculos. O que comemos por aqui é uma combinação de queijos inteiramente processada e colorida de maneira artificial. Como ganhou tanto espaço? Como o brigadeiro, o hambúrguer, vocês sabem, também virou item "gourmet". Como a onda é americana e lá o cheddar parece ser o único queijo disponível na praça, o Brasil copiou o modelo. E aí, inescapável, fica a pergunta: como um hambúrguer pode ser gourmet quando o queijo usado no seu preparo, a rigor, nem pode ser chamado de queijo?

Pelo ritmo da inauguração de lojas de açaí pelo Brasil, me pergunto sempre de onde vem tanta fruta. Com nomes capazes de causar urticária em publicitários mais sensíveis e a incontornável cor roxa nas fachadas de todas elas (coisa que também é um mistério, como se o consumidor precisasse de uma confirmação do que é comercializado sob a tabuleta "SóAçaí"), as lojas são um fenômeno graças à fama dos efeitos benéficos da fruta para o organismo. Foi a turma do pilates e da corrida que a colocou em evidência. E ela nunca mais foi embora. O abacate será a próxima, podem anotar.

Por último, mas não menos enjoativa (antes pelo contrário), temos a onda definitiva do creme de avelã com cacau, que cobre de pães a sorvetes, passando por crepes, bolos, pudins e o que mais a imaginação for capaz de inventar. Explicá-lo é impossível e este talvez seja o seu maior atrativo, desde que desembarcou por aqui. Mais recentemente, a marca mais conhecida foi transformada em sinônimo de coisa artificial (ou não profunda, vá lá), quando comparada a algo mais raiz. Tem graça e faz rir. Com mais de duas dezenas de marcas à disposição da distinta freguesia, o creme alcançou uma popularidade que avança sobre especialidades doces que até ontem viviam muito bem sem ele. Mas que agora precisam dele para agradar ao gosto geral.

Noite dessas, dormindo em um hotel de uma cidade na área de cobertura da EPTV Ribeirão Preto, sonhei que me ofereciam uma torta diferente, com uma massa fofíssima à base de açaí, leite em pó e creme de chocolate com cacau, tudo coberto com queijo cheddar muito derretido, o que dava a impressão de ser uma grande cabeça de Donald Trump. Acordei muito assustado com o pesadelo e fui tomar café da manhã em uma padaria. Na vitrine, uma nova invenção do mestre confeiteiro: um docinho em formato de minipastel, feito de leite em pó e recheado com creme de avelã com cacau. Nossa criatividade vai a galope. Para trás.

Mais do ACidade ON