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A aula de Marcos Nogueira

Desde sempre, o jornalista se encaixa na categoria dos pesquisadores incansáveis, daqueles que não emitem uma opinião apenas por emitir

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é colunista do portal ACidade ON (Foto: Divulgação)

Marcos Nogueira é a sinceridade ambulante. Mas que ninguém pense naquele tipo de sinceridade feita para alegrar a torcida - pró ou contra. Desde sempre, o jornalista se encaixa na categoria dos pesquisadores incansáveis, daqueles que não emitem uma opinião apenas por emitir.

Se, por acaso, escreve algo que não foi exaustivamente esmiuçado e revirado, volta ao tema com a humildade e a verdade que se espera de um verdadeiro profissional que vive de escrever e ser (muito) lido por pessoas que buscam aquela prosa cristalina e, no caso dele, saborosa.

Autor do sensacional blog Cozinha Bruta, o mundo de Nogueira é o da comida e, às vezes, da bebida - mesmo que o líquido seja a água putrefata que os cariocas viram sair das torneiras nos últimos meses. Seu estilo é implacável e seus textos tem uma incontornável conexão com a realidade, seja da culinária mais comezinha, seja da gastronomia de alta extração. Nada escapa ao seu olhar apaixonado sobre o que vai à mesa dos brasileiros.

Nogueira parece ter uma antena ligada às cabeças de seus leitores e escreve com uma paixão palpável, embora, como todos os profissionais de imprensa em tempos de "viralização", tenha lá o seu elenco oficial de haters. Mas é curioso notar que os comentários negativos sobre suas colunas são, quase sempre, ataques ao autor, e não ao conteúdo: fica claro que os que vivem de postar comentários raivosos e não passam sem o trio "porrada-tiro-bomba", não entenderam a mensagem de Nogueira, o que é espantoso: o homem, como disse, é mais transparente que um copo Riedel.

É com essa transparência e verdade que ele acaba de publicar, na revista Super Interessante, o dossiê Mitos e Verdades da Alimentação, uma seleção de 60 temas divididos em categorias: física, química, biologia, saúde, geografia e história. É uma aula, um tratado sobre assuntos que vivem na boca das pessoas, estejam elas mastigando ou não - ninguém mais respeita a regra, exaustivamente pregada pelos pais e avós, de jamais falar com a boca cheia.

Com tantos assuntos mais interessantes, as pessoas adoram falar sobre comida à mesa. Pois Marcos Nogueira acaba de abastecê-las com material suficiente para intermináveis almoços, jantares, convenções de firmas, chá com a vizinha, café no balcão, cerveja no estacionamento do supermercado, camarão na praia, piquenique no bosque, sundae para dois e o que mais servir para juntar gente e celebrar a boa alimentação como um ato civilizatório.

Ao dissecar - que é isso o que ele faz, sempre de maneira divertida e informativa - e categorizar como mitos ou verdades assuntos como "a água deve estar fervente para receber o macarrão" ou "rã é peixe, coelho é ave", Nogueira dá uma aula sobre como desviar das armadilhas das fake news culinárias. Mais que isso: fornece a régua e o compasso para evitar cair nas esparrelas que, com a popularização do assunto culinária/gastronomia, tomaram conta do salão, evitando a azia e a indigestão sobre temas banais, mas que acabam ganhando status de prosa séria.

Marcos Nogueira trata a comida e a bebida com verdade, é claro, mas com a leveza de um cardápio trivial, sem enfeitar o pavão, dourar a pílula, laurear a pevide ou passar do ponto: os temas que escolheu são interessantes porque desmontam teses estapafúrdias que muitos acreditam com o fervor de um crente recém-convertido, como a lenda de que a feijoada brasileira foi inventada pelos escravos, que recolhiam as miudezas suínas (pé, rabo, orelha, cara), despachadas pelas sinhás através das janelas da cozinha nos tempos do Brasil Colônia ou dos dois Pedros. Tanto Portugal como diversos países africanos já tinham uma versão de feijoada para chamar de sua bem antes da "invenção" da receita que é orgulho pátrio.

A revista presta um grande serviço e abre a possibilidade de discutir com verdade e clareza assuntos mais populares e outros nem tanto. Sendo o autor Marcos Nogueira, é certo que será sempre através da responsabilidade, da informação checada e rechecada, da pesquisa de campo e, para não nos esquecermos jamais, com o humor a rimar com o rigor. O resto é sobejo requentado da marmita de anteontem.

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