Aguarde...

ACidadeON Campinas

docon

Talento que não se apaga

Em cena, Glória Menezes e Marília Pêra; Naquele cenário sem um único móvel, vemos a força de duas atrizes absolutamente superiores no ofício da representação

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é colunista do portal ACidade ON (Foto: Divulgação)

Perseguir o noticiário diário, de qualquer parte do mundo, é um hábito do qual não consigo me livrar - embora tenha melhorado muito. Já fui do tipo que, em frente a um aeroporto no Leste europeu, pegou um jornal jogado no chão para ler as "últimas", mesmo sem entender uma única linha do idioma.

E foi acompanhando as notícias sobre a rota do coronavírus, em uma madrugada da semana passada, que o sono me derrubou e, quando acordei, o canal misteriosamente havia mudado: da Globonews foi parar no Viva. E redescubro a novela Brega e Chique, de 1987. 
 

MAIS: Clique aqui e veja mais colunas do Kassab
 

Em cena, Glória Menezes (Rosemere) e Marília Pêra (Rafaela). A primeira mostrando uma casa para a segunda, que precisa sair de uma mansão depois de ficar na pobreza. E ali, naquele cenário sem um único móvel, quadro ou espelho, vemos a força de duas atrizes absolutamente superiores no ofício da representação. Entrevistei as duas, em momentos diferentes, e muito depois de 1987.

Como a novela foi um marco na teledramaturgia nacional, perguntei sobre a força de Brega e Chique. Bastante modestas em relação aos seus respectivos papéis na trama e diplomáticas a perder de vista, ambas deram respostas parecidas: o sucesso foi enorme por causa da dobradinha texto e direção que, quando funciona para valer, ninguém segura.

E como segurar Cassiano Gabus Mendes e Jorge Fernando? Gabus Mendes, um pioneiro da tevê nacional, foi nada menos que o primeiro diretor artístico de uma emissora no país, a TV Tupi. Mestre da palavra, do humor e das tramas bem amarradas, deixou um legado admirável em todos os sentidos, principalmente na criação de personagens inesquecíveis.

Seu elenco de novelas tem títulos como "Que Rei Sou Eu", "Champagne", "Beto Rockefeller", "Anjo Mau", "Locomotivas", "Ti Ti Ti" e "Meu bem, Meu Mal", entre outros, sem falar no seriado "Alô, Doçura", sucesso retumbante com o então casal Eva Wilma e John Herbert (que substitui o galã Mário Sergio). O jeito "Cassiano Gabus Mendes" de criar e escrever teve, tem e terá sempre uma grande influência sobre os novos autores.

Diretores, de cinema, tevê, de videoclipes a até de comerciais, têm assinaturas e elas podem "pular" ou não da tela. A assinatura de Jorge Fernando, que começou como ator, nos salta ao colo. Em Brega & Chique ele, que já vinha afiando seu estilo tão característico em outras produções (àquela altura com pouco mais de cinco anos de carreira e uma fama que se espalhava rapidamente) inovou com efeitos especiais e novidades nos cortes e na edição, sempre ágil e certeira em sua principal função: prender a atenção de quem está no sofá. O resto é encher linguiça para a distinta freguesia.

Para ajudar Gabus Mendes e Jorge Fernando a deixar tudo com aquele brilho irresistível que certas produções televisivas têm, o elenco de Brega & Chique, para além das gigantes Pêra e Menezes, reúne um time e tanto - e faz surgir perguntas e certezas, em partes iguais.

Por exemplo: Patrícia Pillar tinha um pescoço interminável e um não-sei-o-quê de Ingrid Bergman em "Joana D Arc"? Tinha. Cássio Gabus Mendes e Denis Carvalho fizeram os dois toscos mais engraçados da tevê em anos? Sem dúvida. Paula Lavigne fez bem em desistir de ser atriz? Fez. Cássia Kiss tinha os cabelos mais bonitos e brilhantes do mundo? Se não, ficava em segundo lugar. Jayme Periard foi um dos galãs mais bonitos de sua geração? Milhares de cartas comprovam a tese.

Mas tem mais, muito mais: Patrycia Travassos fez a transição como atriz da trupe teatral do "Asdrúbal Trouxe o Trombone" para a televisão com a mesma energia e talento? Sim, e ainda se superou. Não é mesmo uma pena que Cristina Müllins apareça tão pouco na tevê? É. Nívea Maria tem a mesma e famosa pele de pêssego que tinha aos vinte anos? Tem. O grande talento e a contenção milimétrica de Marco Nanini, o fiel funcionário Montenegro da trama, não é mesmo coisa de outro mundo? Não - é de outra galáxia.

Mas Brega e Chique também faz emocionar pelos motivos de sempre quando revemos uma produção de alguns anos atrás: trinta e dois anos separam a novela dos dias atuais e boa parte do elenco, sem falar em Gabus Mendes e Jorge Fernando, também já não estão entre nós.

E haja talento que agora faz rir e chorar lá pelo céu: Fábio Sabag, de touca, como pai de Rosemere, um ator e tanto; Hélio Souto, o galã dos galãs durante anos, mais velho e impecável, como outro apaixonado por Rosemere; Marcos Paulo, outro galã, mas também diretor de talento, arrastando as duas asas para cima de Patrícia Pillar; Célia Biar, a atriz de todos os papéis, mas que ficava sempre melhor como personagens sofisticadas (melhor dizendo: usando um vestido de grife ou um tailleur, Célia Biar era sinônimo de classe sem fim em um palco ou na tevê).

Quer mais? Brega e Chique tem: Jorge Dória, em papel curto, mas cafajeste o suficiente para ninguém duvidar dele; Neusa Amaral, magnífica e de bobs o tempo todo, fazendo uma alcoólatra que não se dá conta que bebe demais, uma personagem feminina quase inaugural na tevê brasileira (antes dela, parecia que só os homens exageravam nos drinques).

Sem falar de Marília Pêra, que também foi cedo demais, uma atriz cuja força preenche e ultrapassa todas as expectativas - seus "ais" e "ohhs" em Brega e Chique são hilários. Enfim, um time e tanto, gente criada e talhada no melhor do teatro nacional, que encarnaram personagens célebres em palcos de respeito, em tempos que a arte de representar era vista como formadora de opiniões e de cultura. E olhe que Raul Cortez ainda nem entrou na trama de Brega e Chique.

Mais do ACidade ON