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A cidade que passa por mim

"Não me esqueço, entre outros motivos, porque você era muito menor que São Paulo, a cidade onde nasci"

| ACidadeON/Ribeirao

Fernando Kassab é colunista do portal ACidade ON (Foto: Divulgação)
 

A primeira vez que a vi por inteiro, quer dizer, a vez que me lembro de vê-la por inteiro, meu pai dirigia a Rural Willys "saia e blusa", isto é, em duas cores, branco e azul, minha mãe ia ao lado e os seis filhos saltavam entre o banco de trás e o porta-malas que, no caso da antiga "perua" (agora seria o quê? Van, SUV?), mas se parecia com uma sala de estar.

Não me esqueço, entre outros motivos, porque você era muito menor que São Paulo, a cidade onde nasci, e até mesmo do que meu universo formado entre as ruas Cunha Gago, Vupabussu, Agostinho Bezerra, Manduri, Pascoal Vita, Mario Guastini, Ferreira de Araújo, Ourânia e Zapará, entre outras, onde estavam os parentes queridos, os amigos de uma vida, os aromas das casas, os perfumes, os jardins, as pracinhas inesquecíveis, de onde víamos circular os carros fabricados em um Brasil que, pelo menos para nós, os pequenos, parecia um país novo em folha.

E foi na quadra de nossas vidas em que tudo tem um vagar que parece nunca ter fim, que nossos pais decidiram andar pouco mais de noventa quilômetros e, com a coragem de sempre e a conhecida determinação dos filhos dos imigrantes, mudar radicalmente de vida, mais calma, mais próxima dos filhos, cheia de esperança e fé em dias melhores. E então, de dentro da Rural, a vi por inteiro ou pelo menos o inteiro que cabia no olhar de uma criança de seis anos.

Inesquecível, entre outras coisas, porque era época do Natal, o Natal de 1967, e você tinha uma adorável combinação de modernidade que acenava para um futuro que chegava mais rápido do que nunca, e certo ar de província que resistia com força. Havia o bonde, em sua visível agonia de fim de carreira; a maioria das ruas tinham vagas em 45 graus para os carros; meninos anunciavam as manchetes dos jornais e, como era Natal, você exibia os arcos de bandeirinhas de acrílico, que durante anos foram os únicos adereços das festas de fim de ano que, muitas vezes, ficavam até o Carnaval.

Quando estacionou o carro na Rua General Osório, em frente ao restaurante Rosário, até hoje no mesmo lugar, meu pai foi até a charutaria, que ficava na esquina da Rua Regente Feijó, e comprou balas e chocolates para nós e determinou que a caminhada da família fosse feita de mãos dadas. O Papai Noel, parado na esquina seguinte, na Avenida Francisco Glicério, foi o primeiro que me lembro de ter visto de perto, tão de perto que jamais me esqueci do hálito de cachaça, que eu não sabia bem o que era, mas que meu pai me disse que era, sim, de cachaça.

Você tinha um encanto particular, tudo era motivo de uma alegria que não sabíamos explicar. Como se todos nós ganhássemos um brinquedo novo, um disquinho com as fábulas infantis ou um passeio a cavalo. Lembro-me de ficar parado em frente ao brasão da família Leme, no Largo do Rosário, vendo aqueles patinhos que cercavam o que eu chamava de "soldado" que era o elmo característico da antigas famílias portuguesas. Meu pensamento mais constante era de que um dia era melhor que o outro. E você, orgulhosa, sabia disso.

Cinquenta e três anos depois, você está cercada, esquadrinhada e vigiada, não há o dia melhor: são todos dias de espanto, de perplexidade, de um abandono involuntário. No último sábado, a sensação de distanciamento foi terrível.

Entrei no carro para percorrê-la com aquele sentimento de urgência, de repórter, para vê-la em uma situação que ninguém jamais imaginou. E eu, que já fotografei você de vários ângulos e a comparei a Lisboa em um livro, que já escrevi páginas e páginas sobre seu cotidiano, suas transformações, sua vida cultural, social, mundana e trágica; eu, que andei por todos os seus bairros, e que na minha adolescência, acompanhado dos irmãos e dos amigos, percorri suas ruas e avenidas pelas noites de sábado e madrugadas de domingo; eu não a reconheci.

Sua vocação nunca foi turística, do tipo exibicionista, cheia de atrações seu orgulho maior é o turismo de negócios, o aeroporto internacional, as convenções, a rede hoteleira. Não é o charme dos teleféricos, das vinícolas, das grutas e montanhas. Ver suas ruas e praças vazias de gentes foi como voltar ao século 19, à cidade descrita pelo jornalista e memorialista Eustáquio Gomes, no fabuloso e obrigatório "A Febre Amorosa" (leiam, leiam!). Gomes descreve uma cidade desaparecida, é claro, mas os dias de hoje trataram de resgatá-la, com requintes de abandono e espanto que ele jamais imaginou.

Agora não sou eu que passo por você, é você que me atravessa. É como se, inconsciente de seu futuro, insegura de suas conquistas, você caminhasse cambaleante entre os verdes do Jardim Carlos Gomes ou do Parque Portugal-Lagoa do Taquaral; é como se a figura triunfante do ex-presidente Campos Salles, seu filho ilustre, olhasse para a avenida que leva seu nome, expressando toda uma dor que jamais percebemos no monumento que é a própria imagem do triunfo em bronze.

Agora é você que passa por mim, que me espia enquanto me escondo do mal que chegou a todos os países. Minha memória é meu refúgio: cinemas que não existem mais, espetáculos que nunca veremos outra vez, acontecimentos marcantes, tragédias e êxitos. Mas você passa por mim, me crava seu olhar e me leva para um lugar que não conheço.

Por sua causa, por ser você a minha casa e aqui ficar a primeira EPTV, conheci outras 316 cidades, paulistas e mineiras. No momento, estão todas, em maior ou menor semelhança, iguais a você: cercadas, vigiadas, controladas. Saindo de seus domínios, conheci outras cidades, em outros países, outros continentes mas sempre voltei para você.

Sou seu cidadão honorário não por ter me mudado para cá, mas porque, devido ao meu trabalho na Imprensa, você me escolheu, desde 18 de agosto de 1998. Escolhi este dia para receber o título por um único motivo: seria o dia em que meu pai faria 71 anos. Sou seu cidadão, não por ser honorário, mas porque gosto de você, da sua história. Sim, existem episódios menos brilhantes e que nos causam constrangimentos. Mas que cidade não os tem?

Confesso: não quero que você me atravesse com seu olhar de desespero, com sua imagem de desencanto, com seu espírito em modo off, com seu dinamismo em estado letárgico. Quero ser eu a voltar a vê-la e a enxergá-la. Quero você de volta, inteira e com o mesmo sentimento de urgência combinada com certa tranquilidade que ainda não desapareceu por completo. Como no Natal de 1967. Como na primeira vez que a chamei pelo nome: Campinas.

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