Não é difícil associar as cores verde e branco em Campinas ao Guarani, campeão do Campeonato Brasileiro 1978. O índio, mascote do clube, é outra figura que rapidamente nos liga até a equipe. Mas se engana quem pensa que o clube surgiu para homenagear os indígenas ou possui alguma ligação completamente direta com os povos originários.
Fundado em 2 de abril de 1911, em Campinas, o Guarani Futebol Clube homenageia a obra “Il Guarany”, do maestro campineiro Carlos Gomes, cuja obra completou 155 anos neste mês de março. O musical é inspirado no livro “O Guarani” de José de Alencar e tema de uma série de reportagens especiais do acidade on.
Foi a primeira ópera brasileira a ter sucesso no exterior. Composta pelo campineiro Carlos Gomes entre 1867 e 1868 e com estreia no dia 19 de março de 1870, ‘’II Guarany’’ conta a história de amor entre Cecília, filha de um nobre português, e Peri, um indígena guarani. A obra explora a ideia de que o Brasil é fruto do amor e da harmonia entre portugueses e indígenas.
Esta é a segunda da série de três reportagens do acidade on intitulada “Ecos dO Guarani: a obra-prima de Carlos Gomes 155 anos depois”, para resgatar a importância da obra do campineiro e seus reflexos nos dias atuais.

‘’II Guarany’’ em Campinas
Em 1911, alguns adolescentes da classe baixa e média começaram a idealizar a fundação de mais um clube de futebol em Campinas. Era o início da popularização do esporte na cidade, que, entre 1902 e 1911, já operava com cerca de 25 clubes, formados geralmente por estudantes, operários e ferroviários, quase sempre com vida efêmera.
Os amigos Pompeo de Vito, Vincenzo Matallo e seu primo Hernani Felippo Matallo, este estudante do Gymnasio, atualmente a escola Culto à Ciência, passaram a contatar amigos e parentes para que comparecessem a uma reunião, marcada para a Praça Carlos Gomes, na esquina das ruas Conceição e Irmã Serafina. Desta reunião, datada em 1° de abril, surgiu o clube que optou por homenagear a obra de Carlos Gomes, munícipe da cidade.
Porém, havia um detalhe: aquele dia era conhecido como “dia da mentira”, e para evitar brincadeiras futuras, decidiram que o clube passaria a existir a partir do dia seguinte, ficando estabelecida a data de fundação como 2 de abril de 1911.
A origem na ópera de Carlos Gomes surpreende, por muitas vezes, até mesmo os jogadores do Guarani. O goleiro Gabriel Mesquita, titular do Bugre durante o Campeonato Paulista de 2025 e que vive sua segunda passagem na equipe, é um dos atletas que não conhecia o significado por trás do nome e conheceu a história durante a produção da reportagem.
‘’Para ser sincero, eu não conhecia. É muito interessante saber como que o Guarani surgiu de uma obra do grande compositor como o Carlos Gomes e de uma obra que ele fez de um romance de José Alencar. Eu achei muito interessante’’, disse em entrevista à reportagem.
Um nome com muito significado
A reunião que definiu a fundação do Guarani aconteceu em 1° de abril, um sábado, justamente na Praça Carlos Gomes. Ali, os interessados em fazer parte do clube decidiriam cores, nomes e a primeira configuração da diretoria do clube.
As cores foram facilmente definidas. O verde foi escolhido porque representava muito bem a praça, que possuía palmeiras ao seu redor e acabou se tornando a principal cor do Guarani. Já a opção pelo branco ocorreu em alusão à luz do dia que os iluminava. A influência italiana também pesou na escolha, já que o país tem as cores verde e branco em sua bandeira.
Era quase unanimidade que o nome do clube seria Internacional, alcunha defendida pelos estudantes do Gymnasio. Quem se opôs a ideia foi José Trani, salientando que Campinas poderia oferecer nomes que identificassem o clube com maior personalidade e individualidade. Ou seja, o nome do próprio local onde estavam reunidos: Carlos Gomes, e sua obra, a opera II Guarany.
Trani conseguiu aprovar o nome Guarany Foot-Ball Club. Descendente de italianos, ele também era músico e tocava oboé, sendo apreciador de música clássica e, consequentemente, da obra de Carlos Gomes.

114 anos depois, a ideia de Trani em buscar elementos do município para se aproximar ao clube ainda segue viva. Marcelo Tasso, superintendente do Guarani, explica que a conexão do clube com a obra de Carlos Gomes se mantém viva até os tempos atuais e relembra que o início do hino bugrino faz menção à opera.
‘’Sempre que se fala Guarani, lembra-se de Carlos Gomes e toda vez que se fala de Carlos Gomes, lembra-se de Guarani. Tanto que no hino do Guarani, a introdução do hino é o início da ópera, o Guarani, então toda vez que se remete ou ao hino do Guarani, ou à ópera de Carlos Gomes, tem-se a lembrança de um e do outro’’, afirmou.
Tasso ainda relembra que a origem do nome Guarani Futebol Clube e sua ligação com Carlos Gomes ‘é uma história que faz parte de Campinas’. O superintendente relembra ainda o carinho que os torcedores possuem com o músico.
‘É uma história que faz parte da cidade de Campinas. O Guarani é um patrimônio histórico da cidade e toda vez que tem o Guarani, tem Carlos Gomes. Isso é bem relevante e vem mantendo a história tanto do Carlos Gomes, quanto do Guarani. Tanto que o torcedor bugrino tem uma associação muito grande com o Carlos Gomes por conta dessa obra’, acrescentou Tasso.
O goleiro Gabriel Mesquita é outro que endossa o discurso do dirigente. Para o goleiro, que já soma 59 partidas pelo Guarani em duas passagens na equipe, diz que saber que as origens da instituição se misturam com as histórias e personagens da cidade
‘’Saber que o Guarani foi fundado através dessa obra de Carlos Gomes, um campineiro, representa muito para o clube. Desde a sua fundação traz essas origens’’ pontuou o goleiro Gabriel Mesquita
Mesquita ainda defendeu a ideia de que a história da origem do nome do clube possa ser conhecida por mais pessoas, que muitas vezes acabam não associando o Guarani Futebol Clube com a opera ‘’II Guarany’’. O goleiro ainda reforçou a tese de que cultura e futebol devem ser aliados.
‘’O futebol é um meio que atinge muitas pessoas. Se gente sempre conseguir fazer essa ligação da cultura com o futebol é um meio muito edificante para todos, pois vai transmitir conhecimento, muitas pessoas vão estar ali adquirindo esse conhecimento’’, concluiu o camisa 1.
Casamento perfeito?
Marcelo Tasso ainda relembra que o a ligação entre o clube e a obra extrapola as quatro linhas. Por ter parte da ópera como introdução do hino do clube, não é incomum que torcedores do Guarani escolham a música de Gomes como tema de importantes períodos da vida, como o casamento. Ele conta, inclusive, que entrou no altar com ela.
‘’Um torcedor do Guarani, quando ele vai se casar, normalmente ele escolhe a ópera de Carlos Gomes para entrar no casamento, o meu inclusive foi assim (risos) Então ali na cerimônia, por homenagear o Carlos Gomes, por homenagear o Guarani, eu acabei entrando com a ópera, que era a introdução do hino do clube’’ concluiu o dirigente.
Marco zero
Além da obra de Carlos Gomes, a praça que leva o nome do músico e foi palco da reunião que decidiu as diretrizes do Guarani, bem como a escolha do nome, é considerada até os dias atuais como o marco zero do clube em Campinas.
No ponto entre a Rua Conceição e a Avenida Irmã Serafina, onde o clube foi instituído, foi instalado um totem em homenagem à fundação do Guarani. O monumento carrega uma estrela dourada e o dizer “Aqui foi fundado o Guarani FC”.
A placa atual, instalada em abril de 2024, substitui a peça original do marco da fundação, que foi vandalizada e furtada em novembro de 2023. A antiga peça era uma placa de bronze, numa estrutura de concreto, e estava instalada na praça desde 2 de abril de 1982, doada por torcedores da Taba (Torcedores Amigos Bugrinos Associados).
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