Em 1941, o filme Sangue e Areia contava a história de um toureiro espanhol dividido entre o amor de duas mulheres. Mas o que essa trama tem a ver com o Carnaval e com Campinas? Tudo. Inspirado no longa-metragem, um grupo de moradores da Vila Industrial fundou, em 1946, um bloco carnavalesco que se tornaria símbolo da folia campineira: o Nem Sangue Nem Areia.
Conheça a história do bloco no especial de pré-Carnaval do acidade on Campinas em parceria com a rádio CBN Campinas.







Vila Industrial e o Nem Sangue Nem Areia
Fundado na Vila Industrial, o nome do bloco fazia referência aos bois que circulavam pelo bairro, de acordo com o jornalista Roberto Cardinalle.
“Esse filme teve uma repercussão internacional, chegou ao Brasil e a Vila Industrial sempre foi caracterizada por ser um bairro operário. Foi o primeiro bairro operário de Campinas. E, no seu entorno, tinham muitos curtumes e matadouros e era frequente passar bois pelas ruas do bairro. Sob essa influência e sob a motivação de querer construir algo divertido para a população da Vila Industrial em meados da década de 40, quatro moradores do local, sob a liderança do seu Zucão, chamaram a comunidade. As esposas faziam os adereços, se reuniam para fazer os tamborins, os instrumentos musicais e, claro, a marca sempre foi o boi, inclusive no brasão do bloco”,
conta.
Encerramento das atividades e retomada do Nem Sangue Nem Areia
Por mais de três décadas, o Nem Sangue Nem Areia cresceu e se transformou em escola de samba, mas encerrou suas atividades em 1976.
Em 2008, no entanto, um grupo de jornalistas e artistas campineiros decidiu resgatar a tradição e levar o bloco novamente às ruas no domingo pré-Carnaval. Entre eles estava Roberto Cardinalle, que hoje atua como diretor do grupo. Segundo ele, a retomada foi feita com o aval dos antigos fundadores.
“Um grupo de jornalistas e músicos reunidos em bares da cidade pensaram na ideia de criar um bloco de rua para o Carnaval. E nessa reunião estava o Helder Bittencourt, que deu todo o norte ao patrono do bloco, deu todo o norte para a gente retomar o Nem Sangue Nem Areia, porque ele morava na Vila Industrial e quando criança acompanhava os desfiles, então ele tinha essa memória afetiva. Nós compramos a ideia, fomos estudar a história do bloco, fomos nos aprofundar na Vila Industrial e decidimos encarar esse desafio”,
afirma.
Samba-enredo próprio
O Nem Sangue Nem Areia tem uma característica própria. No percurso pelas ruas da Vila Industrial, a bateria e o carro de som cantam apenas o samba-enredo próprio, feito para cada ano de apresentação.
Assim como nos blocos tradicionais, a composição costuma ser escolhida por meio de um concurso. Em 2025, porém, o samba-enredo foi encomendado a uma dupla de músicos, incluindo Thiago de Souza, vencedor de sambas nas escolas Dragões da Real e Morro da Casa Verde, em São Paulo, e finalista na Mangueira, no Rio de Janeiro, em 2022.
“Primeiro que é muito legal, porque são raros os blocos que se atrevem a levar músicas autorais próprias para seus desfiles e isso tem um valor muito grande porque, anualmente, você traz novas músicas para o mundo. Então, além dos enredos serem interessantes e autorais, você traz uma música nova para o mundo a partir desses enredos. O primeiro desafio dos compositores é esse: dignificar as escolhas que as direções dos blocos nos trazem”,
conta Thiago.
Homenagem em vida
Em 2025, o desfile de pré-Carnaval do bloco aconteceu no domingo passado, dia 23 de fevereiro e homenageou o sambista Nelson Fidelis e o grupo criado por ele, A Velha Arte do Samba. Roberto Cardinalle ressalta a importância de valorizar figuras icônicas do Carnaval campineiro ainda em vida.
“Todos os diretores aprovaram e acharam importante essa homenagem. Mesmo com ele idoso, com ele vivo, ainda em vida, o que poucas vezes acontece no Brasil. E aí fomos construindo esse processo e um deles era visitar o seu próprio Nelson, que nesse momento enfrenta uma debilidade muito grande. Então, ele está resguardado na casa dele, mas fizemos questão de ir até lá e apresentar o convite dele ser o homenageado”.
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