Em uma das publicações anunciando alguma de nossas visitas ao Patrimônio Cultural Funerário de Campinas, uma senhora, de forma muito efusiva, nos questionou a razão de fazermos visitas culturais/turísticas em cemitérios, concluindo seu questionamento de maneira muito educada, com um “É muita falta do que fazer, mesmo!”.
Além de sua “gentil” manifestação, percebi que a mesma exibia em seu perfil uma foto nas pirâmides na cidade de Gizé, no Egito. Sem maiores julgamentos, nossa querida hater não se deu conta de que estávamos propondo uma experiência similar a dela no Egito, claro, mais adequada à minha condição econômica, já que o incrível roteiro nas pirâmides, nada mais é do que um passeio em monumentos tumulares de faraós que, diga-se de passagem, viviam preparando suas mortes.
Mas, não é culpa dela essa incompreensão. O brasileiro fala muito pouco sobre a morte e seus desdobramentos e, talvez por esse motivo, não consiga identificar o resultado de seus processos em dimensões culturais, históricas, sociais e patrimoniais.
Outros países não apenas compreendem estas nuances da morte, como há muito tempo protegem e exploram economicamente estes patrimônios.
Entre 203 e 2024, fiz uma viagem para a Itália e visitei muitos espaços cemiteriais, da catacumba de São Sebastião ao Cemitério dos Capuchinhos, ambos em Roma, do Sepulcro de Carlo Acutis, em Assis, à Necrópole do Vaticano. Já havia ido ao Pérre Lechaise em Paris e ao tradicional cemitério Portenho da Recoleta.
É verdade que sou um pesquisador aficionado e viajo o Brasil atrás de cemitérios e suas histórias.
Mas, também demorei para compreender todos os seus interesses que compõem os cemitérios e, mais ainda, as possibilidades de oferecer à população esse conhecimento, tão rico e, ao mesmo tempo, tão incompreendido.
Daí a criação do “Saudade e suas Vozes” um projeto desenvolvido voluntariamente no Cemitério da Saudade de Campinas, hoje aplicado em outras cidades brasileiras. No ano passado, muito do que teorizava esse projeto foi concretizado, em sua terra mater circundada pelos novos gradis do Cemitério da Saudade de Campinas. Foram instaladas as primeiras placas de sinalização turísticas na Necrópole
Dia Municipal do Patrimônio Cultural Funerário de Campinas
Em 3 de setembro de 2024, a partir da lei 16.616, foi instituído o “Dia Municipal do Patrimônio Cultural Funerário de Campinas”, a ser celebrado no dia 7 de fevereiro – data oficial da inauguração do Cemitério da Saudade.
Embora a homenagem esteja veiculada à data oficial da inauguração de nossa mais antiga Necrópole, nosso Patrimônio Cultural Funerário ultrapassa seus limites. Temos 3 cemitérios públicos importantes e também históricos que guardam notórias personalidades, como por exemplo Laudelina de Campos Melo – militante negra e ícone na defesa das empregadas domésticas do Brasil, inscrita no livro de heróis e heroínas da Pátria em 2023 e que descansa no Cemitério dos Amarais.
No Cemitério Municipal de Sousas – Jacó Bitar – primeiro Prefeito de Campinas após a Promulgação da Constituição de 1988.
No centro de Campinas, no monumento túmulo projetado por Rodolfo Bernardelli, descansa ou tenta descansar, o maior Campineiro da história – Antônio Carlos Gomes, tido como o maior maestro das américas.
Há ainda a cripta da Catedral Metropolitana e o sepulcro de Barreto Leme – fundador de Campinas – na Basílica do Carmo.
Nas cercanias da Igreja de São Benedito, o Cemitério dos Cativos – instalado em 1753 – lembra que Campinas foi cemitério antes de ser cidade.
Além de outros tantos lugares de enterramento como o antigo Cemitério da Igreja do Rosário dos Homens Pretos, do início do século XIX, provável cemitério da Batalha da Venda Grande de 1842 – no jardim Santa Mônica. O Cemitério Protestante e o Cemitério Municipal que funcionou na região Vila Industrial mais ou menos entre 1860 e 1881. Cemitério dos Alemães no bairro Friburgo, fundado em 1886 e o ainda pouco conhecido cemitério da Revolução de 32, também conhecido como o cemitério velho do bairro Carlos Gomes, entre outros.
São muitos cemitérios e, sobretudo, muita história guardada debaixo ou em cima da terra, para conhecermos, apreciarmos e protegermos.
Embora pareça óbvio que o Patrimônio Cultural Funerário de Campinas esteja ligado imediatamente com a imensidade de esculturas em muitos desses territórios de morte citados, o maior bem a ser protegido é a memória de cada pessoa que dedicou seus esforços, talentos, dores, sacrifícios e afetos à essa trama humana incrível que chamamos de Campinas.
Somos a primeira cidade do Brasil a instituir uma data para celebrar este imenso patrimônio cultural, que se traduz em uma grande homenagem a quem pavimentou nosso presente.
Quem é Thiago de Souza?
Thiago de Souza é compositor, roteirista e humorista, fundador do grupo “Os Marcheiros” e idealizador do projeto “O que te Assombra?”. Ele também é o criador do programa de políticas públicas para preservação de patrimônio material e imaterial chamado “saudade e suas vozes” já implementado nas cidades de Campinas e Piracicaba. Tem mais histórias assombrosas no Tudo EP (clique aqui pra acessar).
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